domingo, 13 de setembro de 2015

A reverência devida à providencial sabedoria e governo de Deus


Portanto, ninguém ponderará, correta e proveitosamente, a providência de Deus senão aquele que, considerando que está a tratar com seu Criador e Artífice do mundo, tenha se submetido ao temor e reverência, com a devida humildade. Daqui procede que, com suas virulentas mordidas, ou, pelo menos, com seu ladrido, tão numerosa matilha de cães hoje invista contra esta doutrina, já que não querem que se faculte a Deus mais do que lhes faculta a própria razão a eles próprios. Também nos vilipendiam com a máxima insolência que podem, porque, não contentes com os meros preceitos da lei, nos quais é fato que está compreendida a vontade de Deus, dizemos, ademais, que o mundo é governado por seus desígnios secretos. Como se, na verdade, o que ensinamos seja fantasia de nosso cérebro, e por toda parte, explicitamente, o Espírito não proclame o mesmo e não o repita em incontáveis formas de expressão! Mas, visto que certo recato os restringe de que ousem vomitar contra os céus suas blasfêmias, para que se entreguem mais livremente à demência, fingem que estão a litigar conosco.

Com efeito, a não ser que admitam que tudo quanto acontece no mundo é governado pelo desígnio incompreensível de Deus, respondam a que fim diz a Escritura que seus juízos são um abismo profundo [Sl 36.6].

Ora, uma vez que Moisés proclama [Dt 30.11-14] que a vontade de Deus não deve ser buscada ao longe, nas nuvens ou nos abismos, porquanto familiarmente foi ela exposta na lei, segue-se que outra vontade se compara ao abismo profundo, secreta, acerca da qual também Paulo afirma: “Ó profundidade das riquezas, não só da sabedoria como também do conhecimento de Deus! Quão inescrutáveis são seus juízos e insondáveis, seus caminhos! Pois, quem conheceu a mente do Senhor ou foi seu conselheiro?” [Rm 11.33, 34].

E sem dúvida é verdade que na lei e no evangelho se compreendem mistérios que pairam muito acima do alcance de nossos sentidos. Mas, já que, para compreenderem esses mistérios que se dignou revelar através da Palavra, com o espírito de entendimento [Is 11.2], Deus ilumina a mente dos seus, para que nenhum abismo aí se depare; ao contrário, um caminho no qual se possa andar em segurança, e uma lâmpada para guiar os pés [Sl 119.115], a luz da vida [Jo 1.4; 8.12] e a escola da verdade sólida e meridiana. Todavia, sua admirável maneira de governar o mundo com razão se denomina de abismo, porque, a despeito de nos ser ignota, deve ser reverentemente por nós adorada.

Moisés expressou magnificamente a ambos esses aspectos em poucas palavras: “As coisas ocultas”, diz ele, “pertencem a nosso Deus; aquelas, porém, que foram aqui escritas pertencem a vós e a vossos filhos” [Dt 29.29]. Vemos, pois, que ele ordena não apenas aplicarmos diligência em meditar a lei, mas ainda reverentemente contemplarmos a providência secreta de Deus. Também, no livro de Jó se contém uma exaltação desta excelsitude que humilha nosso espírito. Ora, depois que, com passar em revista, de cima a baixo, a máquina do orbe, o autor dissertou magnificamente acerca das obras de Deus, por fim acrescenta: “Eis que são estas apenas as orlas de seus caminhos, e quão pouco é o que nisso se ouve!” [Jó 26.14]. Razão pela qual, em outro lugar [Jó 28.21, 28], ele faz distinção entre a sabedoria que reside em Deus e a medida de conhecimento que prescreveu aos homens. Pois, onde discursou acerca dos segredos da natureza, diz que a sabedoria é conhecida só a Deus, porém escapa aos olhos de todos os viventes. Pouco depois, porém, acrescenta que a sabedoria foi dada a conhecer para que fosse investigada, porquanto foi dito ao homem: “Eis que o temor de Deus é a sabedoria” (Jó 28.28). 

A isto visa o dito de Agostinho:
“Porque não conhecemos tudo que, na melhor disposição possível, Deus opera em relação a nós, agimos só em boa vontade, segundo a lei; contudo, segundo a lei, se age em outras coisas sobre nós, pois sua providência é uma lei imutável.”¹
Portanto, quando Deus a si reivindica o direito de governar o mundo por nós não plenamente discernido, que esta seja a lei da sobriedade e da moderação: aquiescer-lhe à suprema autoridade, para que sua vontade nos seja a única regra de justiça e a mui justa causa de toda as coisas. Evidentemente, não aquela vontade absoluta da qual, a separarem, em dissídio ímpio e profano, sua justiça de seu poder, tartamudeiam os sofistas; ao contrário, aquela providência moderatriz de todas as coisas, da qual, ainda que as razões nos sejam ocultas, nada promana senão o que é reto. 
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Por João Calvino
Fonte : As Institutas, volume 1. Capítulo XVII

¹ Livro das Questões, 83, capítulo 27.
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