sábado, 31 de outubro de 2015

O fora fa lei de Deus - William Tyndale (Filme)

O pai da Bíblia inglesa

William Tyndale nasceu em 1495, em Slymbridge, Inglaterra, perto da fronteira do País de Gales. Recebeu seu mestrado em 1515, pela Magdalen College, na Universidade de Oxford, onde havia estudado as Escrituras em grego e em hebraico. Ele também estudou em Cambridge, que estava tomada por idéias luteranas. Provavelmente Tyndale adquiriu suas convicções protestantes estudando lá. Ele foi ordenado ao sacerdócio em 1521. Mais tarde, expressou sua insatisfação com o ensino de teologia:
"Nas universidades eles determinaram que nenhum homem olhasse para as Escrituras até que fosse embebido com aprendizagem pagã por oito ou nove anos, e armado com falsos princípios que claramente o impediam de compreender as Escrituras".
Tyndale tornou-se tutor da família de Sir John Walsh, em Little Sodbury Manor, ao norte de Bath. Enquanto estava morando nessa casa, ele ficou alarmado com a ignorância do clero local — muitos sacerdotes paroquiais da igreja católica, nos dias de Tyndale, eram tão corruptos que ficaram conhecidos como bêbados comuns, que recebiam regularmente prostitutas em suas igrejas! Até o cardeal Thomas Wolsey, o representante pessoal do papa na Inglaterra, viveu com uma companheira por vários anos e teve dois filhos, tendo-a passado, depois, para outro homem, com um dote!

Então, ao completar 30 anos, Tyndale já havia devotado sua vida à tarefa de traduzir a Bíblia das línguas originais para o inglês. O desejo de seu coração é ilustrado na declaração feita a um clérigo, enquanto refutava a concepção de que apenas o clero estava qualificado a ler e interpretar corretamente a Escritura: "Se Deus me conceder vida, não levará muitos anos e farei com que um rapaz que conduza um arado saiba mais das Escrituras do que vós". A única tradução da Escritura em inglês, naquele tempo, era a versão de John WyclifFe, disponível numa versão manuscrita e com várias imprecisões, que havia sido traduzida da Vulgata — a tradução em latim, feita por Jerônimo (347-420).

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William Tyndale (1484-1536): "Não vivam mais para si"

A chegada do protestantismo à Inglaterra está ligada às confusões amorosas do rei Henrique VIII. Após um casamento fracassado com Catarina de Aragão, filha dos reis católicos da Espanha (do qual nasceu Maria Tudor), na ânsia de ter um filho homem, ele veio a se casar outras cinco vezes, deixando como herdeiros Edward VI (filho de Jane Seymour) e Elizabeth I (filha de Ana Bolena). Em 1534, foi promulgado o Ato de Supremacia, tornando o rei a cabeça suprema da igreja da Inglaterra. Com a anulação do casamento com Catarina de Aragão, sobrinha de Carlos V, o rei Henrique VIII e o Parlamento inglês separaram a igreja da Inglaterra de Roma, em 1536.

Os livros de Lutero circulavam livremente nas universidades de Oxford e Cambridge. Muitos estudiosos ingleses leram Do cativeiro babilônico da igreja, uma crítica ao sistema sacramental da igreja de Roma. A princípio, Henrique VIII favoreceu a Reforma, mas depois, de 1539 a 1547, perseguiu os protestantes. O rei morreu doutrinariamente católico romano. A Reforma foi um retorno à Escritura. Martinho Lutero a traduziu para o alemão, e João Calvino apoiou a preparação de uma tradução francesa. Na Inglaterra, aconteceu algo bem semelhante.

O pai da Bíblia inglesa

William Tyndale nasceu em 1495, em Slymbridge, Inglaterra, perto da fronteira do País de Gales. Recebeu seu mestrado em 1515, pela Magdalen College, na Universidade de Oxford, onde havia estudado as Escrituras em grego e em hebraico. Ele também estudou em Cambridge, que estava tomada por idéias luteranas. Provavelmente Tyndale adquiriu suas convicções protestantes estudando lá. Ele foi ordenado ao sacerdócio em 1521. Mais tarde, expressou sua insatisfação com o ensino de teologia:
"Nas universidades eles determinaram que nenhum homem olhasse para as Escrituras até que fosse embebido com aprendizagem pagã por oito ou nove anos, e armado com falsos princípios que claramente o impediam de compreender as Escrituras".
Tyndale tornou-se tutor da família de Sir John Walsh, em Little Sodbury Manor, ao norte de Bath. Enquanto estava morando nessa casa, ele ficou alarmado com a ignorância do clero local — muitos sacerdotes paroquiais da igreja católica, nos dias de Tyndale, eram tão corruptos que ficaram conhecidos como bêbados comuns, que recebiam regularmente prostitutas em suas igrejas! Até o cardeal Thomas Wolsey, o representante pessoal do papa na Inglaterra, viveu com uma companheira por vários anos e teve dois filhos, tendo-a passado, depois, para outro homem, com um dote!

Então, ao completar 30 anos, Tyndale já havia devotado sua vida à tarefa de traduzir a Bíblia das línguas originais para o inglês. O desejo de seu coração é ilustrado na declaração feita a um clérigo, enquanto refutava a concepção de que apenas o clero estava qualificado a ler e interpretar corretamente a Escritura: "Se Deus me conceder vida, não levará muitos anos e farei com que um rapaz que conduza um arado saiba mais das Escrituras do que vós". A única tradução da Escritura em inglês, naquele tempo, era a versão de John WyclifFe, disponível numa versão manuscrita e com várias imprecisões, que havia sido traduzida da Vulgata — a tradução em latim, feita por Jerônimo (347-420).

O fora-da-lei de Deus

Em 1523, Tyndale partiu para Londres em busca de um local para trabalhar em sua tradução. Quando se tornou óbvio que o bispo de Londres, o erudito Cuthbert Tunstall, que era amigo de Erasmo de Roterdã, não lhe daria hospitalidade, foi-lhe providenciado um lugar por Humphrey Monmouth, que era um rico negociante de tecidos. Segundo Tony Lane, "os bispos estavam mais preocupados em impedir a propagação das idéias de Lutero na Inglaterra do que em promover o estudo da Bíblia". Então, em 1524, Tyndale deixou a Inglaterra e foi para Hamburgo, na Alemanha, porque a igreja inglesa, que ainda estava sob autoridade papal, se opunha completamente a colocar a Bíblia nas mãos do povo. Ele disse que "não somente não havia lugar no palácio de meu senhor em Londres para traduzir o Novo Testamento, mas que também não havia lugar para fazê-lo por toda a Inglaterra".

Segundo D. M. Lloyd-Jones, Tyndale

Tinha um ardente desejo de que o povo comum pudesse ler as Escrituras. Mas havia grandes obstáculos em seu caminho... Ele lançou uma tradução da Bíblia sem o endosso dos bispos [...]. Era inimaginável que tal coisa fosse feita sem o consentimento e o endosso dos bispos, como fez Tyndale. Outra ação de sua parte [...] foi que ele saiu da Inglaterra sem permissão real. Esse também era um ato bastante incomum, e altamente repreensível aos olhos das autoridades. No entanto, no anseio por traduzir as Escrituras, Tyndale deixou o país sem o consentimento do rei e foi para a Alemanha, onde, com a ajuda de Lutero e de outros colaboradores, completou sua grande obra. Essa atitude significava a colocação da verdade antes das questões de tradição e autoridade, e uma insistência na liberdade de servir a Deus da maneira como cada qual julga certa.

É muito provável que Tyndale, tão logo tenha chegado à Alemanha, se encontrou com Lutero, em Wittenberg. Mesmo que tal fato não houvesse ocorrido, ele tinha pleno conhecimento dos escritos de Lutero e da sua tradução do Novo Testamento (publicado em 1522). Tanto Lutero quanto Tyndale usaram o mesmo texto grego para fazer suas traduções: uma compilação feita por Erasmo, em 1516.

No início de 1525, o Novo Testamento estava pronto para impressão. E estava sendo impresso em Cologne, quando as autoridades atacaram de surpresa a gráfica. Tyndale conseguiu escapar a tempo, levando consigo algumas páginas impressas. Apenas um exemplar dessa edição incompleta sobrevive. O fato aconteceu numa época em que pelas leis da igreja católica na Inglaterra constituía crime passível de morte traduzir a Bíblia para o inglês — em 1519, as autoridades da igreja queimaram publicamente uma mulher e seis homens por nada mais do que ensinar aos seus filhos versões em inglês do Pai-Nosso, dos Dez Mandamentos e do Credo dos Apóstolos!

Execução de William Tyndale
A tradução de Tyndale do Novo Testamento só foi completada em 1526, em Worms, na Alemanha. Quinze mil exemplares, em seis edições, foram contrabandeados para a Inglaterra, entre os anos de 1525 e 1530. As autoridades da igreja fizeram o que podiam para confiscar esses exemplares e queimá-los, mas não conseguiram conter o fluxo de Bíblias da Alemanha para a Inglaterra. O arcebispo William Warham de Canterbury comprou um grande número de exemplares do Novo Testamento, para destruí-los — ironicamente acabou financiando uma edição melhor e mais numerosa! Como disse John Foxe na época, "Deus abrira a máquina de impressão para pregar"!

Não podendo mais retornar para a Inglaterra, porque sua vida estava em perigo desde que a tradução fora proibida, Tyndale continuou a trabalhar no exterior, corrigindo, revisando e reeditando sua tradução, até que uma versão revista e definitiva foi publicada em 1535. Sua tradução tinha um estilo popular e era dirigida ao homem simples, tornando as Escrituras acessíveis a todos. Exemplares desse Novo Testamento, levados por mercadores à Escócia, contribuíram também para a promoção da fé evangélica naquele país.

Em 1534, Tyndale mudou-se para Antuérpia, na Bélgica, morando na residência de Thomas Poyntz, um mercador inglês, para completai a tradução do Antigo Testamento. Mas, pouco depois, em maio de 1535, ele foi traído por um colega inglês, Henry Phillips, um mau-caráter, em Antuérpia. Assim, ele foi detido e levado para um castelo perto de Bruxelas, em Vilvoorde. Depois de estar na prisão por mais de um ano, foi julgado e condenado à morte. Em 6 de outubro de 1536, Tyndale foi estrangulado e queimado na fogueira. Suas palavras finais foram comoventes: "Senhor, abra os olhos do rei da Inglaterra".

Tyndale havia começado a trabalhar na tradução do Antigo Testamento, mas não viveu o suficiente para completar sua obra. Havia, entretanto, traduzido o Pentateuco, os livros históricos (até 2Crônicas) e Jonas. Esse homem simples, de origem comum, dominava sete idiomas: hebraico, grego, latim, italiano, espanhol, inglês e francês. Além disso, ele estava tão familiarizado com o alemão que era capaz de traduzir e interpretar até mesmo os pontos mais elaborados dos escritos de Lutero.

Enquanto Tyndale esteve preso, um dos seus colaboradores, Miles Coverdale, levou a cabo a tradução inteira da Bíblia para o inglês, baseada em grande parte na tradução do Novo Testamento e de outros livros do Antigo Testamento feita por Tyndale. O rei Henrique VIII proclamou: "Se não há heresias nele, que seja espalhado largamente entre todas as pessoas!". Por volta de 1539, requereu-se que cada igreja na Inglaterra tivesse disponível uma cópia da Bíblia em inglês. De forma irônica, Coverdale terminou o que Tyndale havia começado.

A tradução de Tyndale tem tido uma imensa influência, e pode-se dizer que todo o Novo Testamento em inglês, até este século, foi meramente uma revisão do Novo Testamento de Tyndale. Cerca de 90% das suas palavras passaram para a versão do rei Tiago, de 1611, e cerca de 75% para a Versão Revisada Padrão, de 1952. O impacto do trabalho de Tyndale se reflete nas palavras que Edward Fox, bispo de Hereford, dirigiu a seus colegas bispos: "Não vos exponhais ao ridículo do mundo; a luz brotou, e está melhor dispersando todas as nuvens. Os leigos conhecem as Escrituras melhor do que muitos de nós".

O apóstolo da Inglaterra

Tyndale escreveu várias obras, das quais as mais conhecidas são Parábola da riqueza exagerada — um tratado sobre a justificação pela fé somente, onde ele recorreu fortemente a Lutero, algumas vezes só traduzindo seus escritos —, e Obediência do homem cristão — sobre o dever de obedecer às autoridades civis, exceto quando a lealdade a Deus está envolvida —, ambas de 1528.

Thomas More atacou vigorosamente "o capitão dos hereges ingleses", referindo-se a Tyndale, que escreveu uma réplica a ele, Uma resposta ao diálogo de Sir Thomas More, de 1531, que é a melhor exposição de seu entendimento teológico. Para More, a verdadeira igreja era a igreja católica romana, a qual ele considerava infalível. Qualquer um que se opusesse ao papa, a qualquer de seus representantes ou a alguma doutrina da igreja era, aos olhos de More, um herético. Por causa dessa crença, More mandou queimar muitos evangélicos na estaca.

Para Tyndale, "a verdadeira autoridade para a fé deveria ser encontrada na Escritura, e qualquer pessoa ou grupo que negasse a autoridade da Escritura estava, em sua percepção, sob o controle do anticristo". More e Tyndale eram incapazes de chegar a um acordo, por causa de suas diferentes perspectivas sobre a fé cristã.

Outras de suas obras foram: Uma exposição da primeira epístola de São João (1531), Uma exposição de Mateus 5 a 7 (1533) e Uma pequena declaração sobre os sacramentos (publicada postumamente, em 1548). O livro Um prólogo para a epístola de São Paulo aos Romanos apareceu pela primeira vez na edição de 1534 do Novo Testamento em inglês. Esse prólogo foi impresso em separado, em Worms, Alemanha, em 1526, apresentando muitos pontos de semelhança com o prefácio que Lutero também escreveu de Romanos. Mas Tyndale não foi um simples eco de Lutero:
Visto que esta epístola é a principal e a mais excelente parte do Novo Testamento, e o mais puro Evangelion, quer dizer, boas-novas e aquilo que chamamos de Evangelho, como também luz e caminho, que penetra o conjunto da Escritura, creio que convém que todo cristão não somente a conheça de cor, mas também se exercite nela sempre e sem cessar, como se fosse o pão cotidiano da alma. Na verdade, ninguém pode lê-la demasiadas vezes nem estudá-la suficientemente bem. Sim, pois, quanto mais é estudada, mais fácil fica; quanto mais é meditada, mais agradável se torna, e quanto mais profundamente é pesquisada, mais coisas preciosas se encontram nela, tão grande é o tesouro de bens espirituais que nela jaz oculto.
Mais para o fim do prólogo, ele diz:
Portanto, parece evidente que a intenção de Paulo era abranger resumidamente nesta epístola, de modo completo, todo o aprendizado do evangelho de Cristo, e preparar uma introdução ao Velho Testamento. Sim, pois, quem tem inteiramente no coração esta epístola, tem consigo a luz e a substância do Velho Testamento. Daí que todos os homens, sem exceção, se exercitem nela com diligência e a recordem noite e dia, até se familiarizarem com ela completamente [...].
A fé é, então, uma confiança viva e firme no favor de Deus, por meio do qual nós nos entregamos completamente a ele. E essa confiança é tão seguramente estabelecida em nossos corações, que um homem não poderia duvidar dela, embora ele morresse mil vezes por isso. E tal confiança, operada pelo Espírito Santo através da fé, faz um homem contente, vigoroso, bem disposto e sincero para com Deus e para com as outras criaturas.
Assim, embora Tyndale não tenha vivido para ver o resultado daquilo que empreendeu, sua causa triunfou, bem como sua tradução.
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Por Franklin Ferreira
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Graça Irresistível - Uma Igreja em declínio


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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Os Solas perdidos da Reforma - Sola Scriptura


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João Huss (Filme)

A resposta de Huss foi firme:
Apelo a Jesus Cristo, o único juiz todo-poderoso e totalmente justo. Em suas mãos eu deponho a minha causa, pois Ele há de julgar cada um não com base em testemunhos falsos e concílios errados, mas na verdade e na justiça.
João Hus na fogueira
Por vários dias o deixaram encarcerado, na esperança de que fraquejasse e se retratasse. Muitos foram lhe pedir que o fizesse, talvez sabendo que sua condenação seria uma mancha indelével para o concílio de Constança. Mas João Huss continuou firme.

Por fim, no dia 6 de julho, ele foi levado para a catedral de Constança. Ali, depois de um sermão sobre a teimosia dos hereges, ele foi vestido de sacerdote e recebeu o cálice, somente para logo em seguida lhe arrebatarem ambos, em sinal de que estava perdendo suas ordens sacerdotais. Depois lhe cortaram o cabelo para estragar a tonsura, fazendo-lhe uma cruz na cabeça. Por último lhe colocaram na cabeça uma coroa de papel decorada com diabinhos, e o enviaram para a fogueira. A caminho do suplício, ele teve de passar por uma pira onde ardiam seus livros.
Mais uma vez lhe pediram que se retratasse, e mais uma vez ele negou com firmeza. Por fim orou, dizendo: "Senhor Jesus, por Ti sofro com paciência esta morte cruel. Rogo-Te que tenhas misericórdia dos meus inimigos". Morreu cantando os salmos.
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Vida e obra de João Huss

João Huss nasceu por volta de 1370 de uma família camponesa que vivia na pequena aldeia de Hussinek, e ingressou na universidade de Praga quando tinha uns dezessete anos. A partir de então toda sua vida transcorreu na capital de seu país, excetuados seus dois anos de exílio e encarceramento em Constança. Em 1402 ele foi nomeado reitor e pregador da capela de Belém. Ali ele pregou com dedicação a reforma que tantos outros checos propugnavam desde tempos de Carlos IV. Sua eloquência e fervor eram tamanhos que aquela capela em pouco tempo se transformou no centro do movimento reformador. Venceslau e sua esposa Sofia o escolheram por seu confessor, e lhe deram apoio. Alguns dos membros mais destacados da hierarquia começaram a encará-lo com receio, mas boa parte do povo e da nobreza parecia segui-lo, e o apoio dos reis ainda era suficientemente importante para que os prelados não se atrevessem a tomar medidas contra o pregador entusiasmado.
No mesmo ano que passou a ocupar o púlpito de Belém, Huss foi feito reitor da universidade, de modo que se encontrava em ótima posição para impulsionar a reforma.
Ao mesmo tempo que pregava contra os abusos que havia na igreja Huss continuava sustentando as doutrinas geralmente aceitas, e nem mesmo seus piores inimigos se atreviam a censurar sua vida ou sua ortodoxia. Diferente de Wycliff, João Huss era um homem extremamente gentil, e contava com grande apoio popular.
O conflito surgiu nos círculos universitários. Pouco antes tinham começado a chegar a Praga as obras de Wycliff. Um discípulo de João Huss, Jerônimo de Praga, passou algum tempo na Inglaterra, e trouxe consigo algumas das obras mais radicais do reformador inglês. Huss parece ter lido estas obras com interesse e entusiasmo, pois se tratava de alguém cujas preocupações eram muito semelhantes às dele. Mas Huss nunca se tornou um adepto de Wycliff. Os interesses do inglês não eram os mesmos do boêmio, que não se preocupava tanto com as questões doutrinárias como com uma reforma prática da igreja. Ele particularmente nunca esteve de acordo com o que Wycliff tinha dito sobre a presença de Cristo na ceia, e até o fim continuou defendendo uma posição muito semelhante à que era comum em seu tempo – a transubstanciação.
Na universidade, entretanto, as obras de Wycliff eram discutidas. Os alemães se opunham a elas por uma longa série de razões, mas principalmente no que referiam à questão das idéias universais, que já discutimos anteriormente; Wycliff era "realista", e os alemães seguiam as correntes "nominalistas" do momento. Os alemães tratavam os checos como um punhado de bárbaros antiquados, que não estavam em dia em questões filosóficas e teológicas, e por isto não adotavam o nominalismo que estava na moda. Agora as obras de Wycliff vinham em socorro dos boêmios, mostrando que na muito prestigiosa universidade de Oxford um famoso mestre tinha defendido o realismo, e isto em data relativamente recente.
Por isto, em sua origem, a disputa teve um caráter altamente técnico e filosófico. Mas os alemães, em seu intento de ganhar a batalha, tentaram dirigir o debate para as doutrinas mais controvertidas de Wycliff, no propósito de provar que ele era herege, e que por isto suas obras deveriam ser proibidas. João Huss e seus companheiros boêmios se deixaram levar por esta política, e logo se viram na difícil situação de ter de defender as obras de um autor com cujas idéias eles não estavam completamente de acordo. Repetidamente os checos declararam que não estavam defendendo as doutrinas de Wycliff, mas seu direito de ler as obras do mestre inglês. Mas apesar disto os alemães começaram a chamar seus adversários de "wyclifitas".
Sem demora, diversos integrantes da hierarquia que eram alvos dos ataques de Huss e de seus seguidores, e que viam nos ensinos de Wycliff uma ameaça séria à sua posição, se reuniram ao grupo dos alemães.
Era a época em que, em resultado do concílio de Pisa, havia três papas. Venceslau apoiava o papa pisano, enquanto o arcebispo de Praga e os alemães da universidade apoiavam Gregório XII. Venceslau necessitava do apoio da universidade para sua política, e já que os checos estavam em maioria nela, o rei simplesmente mudou o sistema de votação, dando três votos aos checos e um aos alemães. Estes, então, abandonaram a cidade e foram para Leipzig, onde fundaram uma universidade rival, declarando que a de Praga se entregara à heresia. Se bem que isto constituiu um grande trunfo para o movimento hussita, também contribuiu para propagar a idéia de que este movimento não passava de outra versão do wyclifismo, sendo, portanto, herege.
Mais tarde o arcebispo se submeteu à vontade do rei, e reconheceu o papa pisano. Mas se vingou de Huss e dos seus solicitando deste papa, Alexandre V, que proibisse a posse das obras de Wycliff. O papa concordou, e proibiu também as pregações fora das catedrais, dos mosteiros ou das igrejas paroquiais. Como o púlpito de Huss, na capela de Belém, não se enquadrava nestas determinações, o golpe estava claramente dirigido contra ele. A universidade de Praga protestou. Mas João Huss tinha agora de fazer a difícil escolha entre desobedecer o papa e deixar de pregar. Com o passar do tempo sua consciência se impôs. Ele subiu ao púlpito e continuou pregando a tão ansiada reforma. Este foi seu primeiro ato de desobediência, e a ele seguiram muitos outros, pois quando em 1410 foi convocado para Roma, para dar conta das suas ações, ele se negou a ir, e em consequência o cardeal Colonna o excomungou em 1411, em nome do papa, por não ter acedido à convocação papal. Mas apesar disto Huss continuou pregando em Belém e participando da vida eclesiástica, pois contava com o apoio dos reis e de boa parte do país.
Assim Huss chegou a um dos pontos mais revolucionários da sua doutrina. Um papa indigno, que se opunha ao bem-estar da igreja, não deve ser obedecido. Huss não estava dizendo que o papa não era legítimo, pois continuava favorável ao papa pisano. Mas mesmo assim o papa não merecia ser obedecido. Até aqui Huss não estava dizendo mais que os líderes do movimento conciliar, na mesma época. A diferença estava em que estes se ocupavam principalmente da questão jurídica de como decidir entre vários papas rivais, e buscavam a solução deste problema nas leis e nas tradições da igreja, enquanto Huss acabara por seguir Wycliff até este ponto, declarando que a autoridade final é a Bíblia, e que um papa que não se conforme a ela não deve ser obedecido. Mas mesmo assim isto era, com poucas diferenças, o que Guilherme de Occam tinha dito, ao declarar que nem o papa nem o concílio, mas somente as Escrituras eram infalíveis.
Outro incidente turbou a questão ainda mais. João XXIII, o papa pisano, estava em guerra com Ladislau de Nápoles. Nesta contenda sua única esperança de vitória estava em obter o apoio, tanto militar como econômico, do restante da cristandade latina. Para tanto ele declarou que a guerra com Ladislau era uma cruzada, e promulgou a venda de indulgências para custeá-la. Os vendedores chegaram à Boêmia, usando de todo tipo de métodos para vender sua mercadoria. Huss, que vinte anos antes tinha comprado uma indulgência, mas que agora mudara de opinião, protestou contra este novo abuso. Em primeiro lugar uma guerra entre cristãos dificilmente poderia receber o título de cruzada. E em segundo, somente Deus pode conceder indulgência, e ninguém pode querer vender o que vem unicamente de Deus.
O rei, entretanto, tinha interesse em manter boas relações com João XXIII. Entre outras razões para isto, a questão de se ele ou seu irmão Sigismundo era o imperador legítimo ainda não fora decidida, e era possível que, se a autoridade de João XXIII viesse a se impor, seria ele quem teria de decidir a questão. Por isto o rei proibiu que a venda de indulgências continuasse sendo criticada. Sua proibição, todavia, veio tarde demais. A opinião de João Huss e de seus companheiros já era conhecida de todos, a ponto de terem surgido passeatas do povo, em protesto contra esta nova maneira de explorar o povo checo.
Enquanto isto João XXIII e Ladislau fizeram as pazes, e a pretensa cruzada foi revogada. Huss, no entanto, para Roma ficou sendo o líder de uma grande heresia, e até chegou-se a dizer que todos os boêmios eram hereges. Em 1412 Huss foi excomungado de novo, por não ter comparecido diante da corte papal, e foi fixado um prazo curto para ele se apresentar. Se não o fizesse, Praga ou qualquer outro lugar que lhe desse acolhida estaria sob interdito. Desta forma a suposta heresia de Huss resultaria em prejuízo da cidade.
Por esta razão o reformador checo decidiu abandonar a cidade onde tinha passado a maior parte da sua vida, e se refugiar no sul da Boêmia, onde continuou sua atividade reformadora dedicando-se à literatura. Ali ele recebeu a notícia de que finalmente se reuniria um grande concílio em Constança, e que ele estava convidado para lá comparecer e se defender pessoalmente. Para isto o imperador Sigismundo lhe ofereceria um salvo-conduto, que lhe garantiria sua segurança pessoal.
Huss diante do concílio
João Hus diante do concílio
O concílio de Constança prometia ser a aurora de um novo dia na igreja. Tinham comparecido a ele os mais distintos defensores da reforma através de um concílio, João Gerson e Pedro de Ailly. Nele seria decidido de uma vez por todas quem era o papa legítimo, e seriam tomadas medidas contra a simonia, o pluralismo e tantos outros males. E João Huss estava convidado, para apresentar seu caso. Aquela assembléia poderia ser o grande púlpito que ele usaria para pregar a reforma. Por isto Huss não poderia deixar de ir.

Mas por outro lado já o fato de ter sido necessário um salvo-conduto era um indício dos perigos que poderiam estar esperando por ele. Huss sabia que os alemães que tinham se transferido para Leipzig tinham continuado espalhando o rumor de que ele era herege. E sabia também que não podia contar com nenhuma simpatia da parte de João XXIII e da sua cúria. Por isto antes de partir ele deixou um documento que deveria ser lido no caso de sua morte. Para medirmos o caráter deste homem, observemos de passagem que este documento era uma confissão em que declarava que um dos seus grandes pecados era – que gostava demais de jogar xadrez! Os perigos que o esperavam em Constança eram grandes. Mas sua consciência o obrigava a ir. E assim partiu o reformador checo, confiando no salvo-conduto imperial e na justiça da sua causa.

João XXIII o recebeu com cortesia, mas poucos dias depois o chamou para o consistório papal. Huss foi, mesmo insistindo em que tinha vindo para expor sua fé diante do concílio, e não do consistório. Ali ele foi formalmente acusado de herege, e ele respondeu que preferia morrer que ser herege, e que o convencessem de que o era, ele se retrataria. A questão ficou suspensa, mas a partir de então Huss foi tratado como um prisioneiro, primeiro em sua casa, depois no palácio do bispo, e por último em uma série de conventos que lhe serviam de prisão.

Quando o imperador, que ainda não tinha chegado em Constança, soube o que tinha acontecido, ficou extremamente irado, e prometeu fazer respeitar seu salvo-conduto. Mas depois começou a dar menos ênfase nisto, pois não lhe convinha aparecer como protetor de hereges. Em vão foram os protestos do próprio Huss, como o foram os que chegaram de muitos nobres boêmios. Huss possuía inclusive um certificado do Grande Inquisidor da Boêmia, declarando que ele era inocente de qualquer heresia. Só que para os italianos, alemães e franceses, que eram a imensa maioria no concílio, os boêmios não passavam de bárbaros que sabiam pouco de teologia, e cujos pronunciamentos não deveriam ser levados a sério.

No dia 5 de junho de 1415, Huss compareceu diante do concílio. Poucos dias antes João XXIII tinha sido aprisionado e trazido de volta para Constança, como narramos no capítulo IV. Já que isto significava que o papa pisano tinha perdido todo o poder, e já que Huss tivera seus piores conflitos com ele, era de se supor que a situação do reformador melhoraria. Mas sucedeu o contrário. Quando Huss foi levado para a assembléia ele estava acorrentado, como se tivesse tentado fugir ou se já tivesse sido julgado. Foi acusado formalmente de ser herege, e de seguir as doutrinas de Wycliff. Huss tentou expor suas opiniões, mas a algazarra foi tamanha que ele não se podia fazer ouvir. Por fim foi decidido adiar a questão para o dia 7 do mesmo mês.

O processo de Huss durou mais três dias. Repetidamente ele foi acusado de herege. Mas quando foram relacionadas as doutrinas concretas de que supostamente consistia sua heresia, Huss demonstrou que era perfeitamente ortodoxo. Pedro de Ailly assumiu a liderança do julgamento, exigindo que Huss se retratasse de suas heresias. Huss insistia em que nunca tinha crido nas doutrinas de que exigiam que ele se retratasse, e que por isto não podia fazer o que de Ailly requeria dele.

Não havia maneira de resolver o conflito. De Ailly queria que Huss se submetesse ao concílio, cuja autoridade não podia ficar em dúvida. Huss lhe mostrava que o papa que o tinha acusado de desobediência era o mesmo que o concílio acabara de depor. Mostrar suas contradições a um homem supostamente sábio, tido como homem mais ilustre da época, e isto diante de uma grande assembléia, nem sempre é uma atitude sábia. O rancor do seu juiz aumentava cada vez mais. Outros líderes do concílio, entre eles João Gerson, diziam que estava desperdiçando o tempo que deveriam dedicar a questões mais importantes, e que de qualquer forma os hereges não merecem tanta atenção. O imperador se deixou convencer de que ele não precisa guardar sua palavra para com os que não têm fé, e retirou seu salvo-conduto. Quando Huss acabou dizendo que era verdade que ele tinha dito que se não quisesse ter vindo para Constança, nem o imperador nem o rei teriam podido obrigá-lo, seus acusadores viram nisto a prova de que ele era um herege obstinado e orgulhoso – apesar de o nobre boêmio João de Clum, que o defendeu valentemente até o final, ter declarado que o que Huss dissera era verdadeiro, e que tanto ele como muitos outros mais poderosos do que ele teriam protegido Huss se este tivesse decidido não ir ao concílio.

O concílio pedia unicamente que o Huss se submetesse a ele, retratando-se das suas doutrinas. Mas não estava disposto a escutar nem crer no acusado, quanto a quais eram as doutrinas que tinham crido e ensinado na verdade. Uma simples retratação teria bastado. O cardeal Zabarella preparou um documento em que exigia de Huss que se retratasse de seus erros, e aceitasse a autoridade do concílio. O documento estava cuidadosamente redigido, porque seus juízes queriam lhe dar todas as oportunidades para que se retratasse, e assim ganhar a disputa, mas o reformador checo sabia que se se retratasse, com isto estaria condenado todos os seus seguidores, pois se declarasse que suas doutrinas eram aquelas que seus inimigos tinham apresentado, estaria nisto implícito que seus companheiros criam nas mesmas coisas, e que portanto eram hereges.

A resposta de Huss foi firme:
Apelo a Jesus Cristo, o único juiz todo-poderoso e totalmente justo. Em suas mãos eu deponho a minha causa, pois Ele há de julgar cada um não com base em testemunhos falsos e concílios errados, mas na verdade e na justiça.
João Hus na fogueira
Por vários dias o deixaram encarcerado, na esperança de que fraquejasse e se retratasse. Muitos foram lhe pedir que o fizesse, talvez sabendo que sua condenação seria uma mancha indelével para o concílio de Constança. Mas João Huss continuou firme.

Por fim, no dia 6 de julho, ele foi levado para a catedral de Constança. Ali, depois de um sermão sobre a teimosia dos hereges, ele foi vestido de sacerdote e recebeu o cálice, somente para logo em seguida lhe arrebatarem ambos, em sinal de que estava perdendo suas ordens sacerdotais. Depois lhe cortaram o cabelo para estragar a tonsura, fazendo-lhe uma cruz na cabeça. Por último lhe colocaram na cabeça uma coroa de papel decorada com diabinhos, e o enviaram para a fogueira. A caminho do suplício, ele teve de passar por uma pira onde ardiam seus livros.

Mais uma vez lhe pediram que se retratasse, e mais uma vez ele negou com firmeza. Por fim orou, dizendo: "Senhor Jesus, por Ti sofro com paciência esta morte cruel. Rogo-Te que tenhas misericórdia dos meus inimigos". Morreu cantando os salmos.
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Por Justo Gonzalez
Fonte: e-cristianismo
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A Chama Flamejante - Parte 05

Em “A Chama Flamejante” seu coração irá se surpreender com as ações valentes do fiel povo de Deus e como Sua providência guia os interesses dos homens e das nações para que o evangelho jamais se extingua. A série A Chama Flamejante é um tributo a grandes homens que instauraram a Igreja reformada que experimentamos hoje, como: Martinho Lutero, John Wyclife, William Tyndale, João Calvino, Felix Niff, John Huss, Erasmo, William Sawtrey, John Knox, Ulrich Zwingle, entre outros.

Entenderemos que esses grandes mártires defenderam o relacionamento pessoal com Deus, livre de qualquer aparato de superstição ou instituição, pois é com o coração contrito que nos achegamos a Deus. Muitos deles foram impelidos a abandonar a pátria e família para o avanço da propagação do Evangelho genuíno.

Enfrentaram a fúria das hierarquias territoriais, como Knox ao desafiar a rainha Mary, da Escócia, por ela desconhecer as Escrituras. Podemos ver a provisão de Deus quando Henrique VIII, antes considerado pela Igreja de Roma “defensor da fé”, rompe tal aliança e torna a Bíblia acessível a todos conhecedores de seu idioma para propagar a fé reformadora.

A incrível força, coragem e intelecto desses homens, com tamanha paixão por aquilo que acreditavam, ficam evidentes no momento em que Zwingle diz: “Eles podem matar o corpo, mas não a alma”. Embarque nessa jornada e conheça homens e mulheres que se tornaram mártires por amor à Palavra de Deus e por reconhecê-la como a única verdade infalível, em que o perdão ao pecador é obtido em Cristo.

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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A serenidade que a certeza da providência divina faculta ante as adversidades

Se algo de adverso lhe houver ocorrido, aqui também o servo do Senhor de pronto elevará a mente a Deus, cuja mão muito vale para imprimir-nos paciência e serena moderação de ânimo. Se José se detivesse a considerar a perfídia dos irmãos, jamais teria conseguido readquirir em relação a eles o ânimo fraterno. No entanto, visto que ele voltou a mente para o Senhor, esquecido do agravo, inclinou-se a mansuetude e clemência, e assim, ao contrário, pôde até consolar aos irmãos e dizer: “Assim, não fostes vós que me vendestes para o Egito, mas, pela vontade de Deus, fui enviado adiante de vós, para que vos conserve a vida. Vós realmente intentastes o mal contra mim, mas o Senhor o converteu em bem” [Gn 45.7, 8; 50.20].

Se Jó se houvesse volvido para os caldeus, por quem estava sendo acossado, teria imediatamente se inflamado à vingança. Como, porém, ao mesmo tempo, ele reconhece ser esta obra do Senhor, consola-se com este belíssimo pensamento: “O Senhor o deu; o Senhor o tirou; bendito seja o nome do Senhor” [Jó 1.21].

Assim Davi, atacado por Simei com impropérios e com pedras, se houvesse fixado os olhos no homem, teria animado os seus à retaliação da ofensa. Entretanto, visto que compreende não estar aquele agindo sem o impulso do Senhor, antes os aplaca: “Deixai-o” diz ele, “porque o Senhor lhe ordenou que amaldiçoe” [2Sm 16.10]. Com este mesmo freio, coíbe, em outro lugar [Sl 39.9], a fremência da dor: “Calei-me e emudeci”, diz ele, “porque tu, Senhor, o fizeste.”

Se nenhum remédio é mais eficaz para a ira e a impaciência, certamente que frui não pouco proveito aquele que, neste aspecto, assim aprendeu a meditar a providência de Deus, que pode sempre volver a mente para este ponto: o Senhor o quis, portanto é necessário ter paciência e suportá-lo; não só porque é possível resistir, mas porque ele nada quer senão o que é justo e conveniente.¹²³ A suma vem a ser isto: que, feridos injustamente pelos homens, posta de parte sua iniquidade, que nada faria senão exasperar-nos a dor e acicatar-nos o ânimo à vingança, nos lembremos de elevar-nos a Deus e aprendamos a ter por certo que foi, por sua justa administração, não só permitido, mas até inculcado, tudo quanto o inimigo impiamente intentou contra nós. Para que nos reprima de retribuir as ofensas, Paulo sabiamente nos adverte [Ef 6.12] de que nossa luta não é contra a carne e o sangue; ao contrário, é contra o inimigo espiritual, o Diabo, a fim de que nos aprestemos a pelejar contra ele. Mas este lembrete é importantíssimo para aplacar-nos todos os impulsos de ira: que tanto ao Diabo, quanto a todos os ímpios, Deus os arma para o embate e toma assento, como se fora um mestre de liça, para que nos exercite à paciência.

Entretanto, se as calamidades e misérias que nos acossam ocorrem sem operação humana que nos venha à lembrança o ensino da lei [Dt 28.2]: tudo o que de próspero há emana da fonte da bênção de Deus; todas as coisas adversas são maldições suas. E que esta horrível exclamação nos infunda temor: “Se andais inconsideradamente contra mim, eu também andarei inconsideradamente contra vós” [Lv 26.23]. Com essas palavras nos incrimina a obtusidade, nas quais, ao considerarmos, segundo o senso comum da carne, ser casual tudo quanto de bom ou mau acontece em um ou outro aspecto, não nos sentimos animados ao culto pelos benefícios de Deus, nem somos por seus açoites estimulados ao arrependimento. Esta é a mesma razão por que Jeremias [Lm 3.38] e Amós [3.6] altercavam acerbamente com os judeus, porquanto pensavam que tanto as coisas boas quanto as más ocorrem sem que Deus as ordene. Ao mesmo se refere esta proclamação de Isaías [45.7]: “Eu sou Deus que crio a luz e formo as trevas, que faço a paz e crio o mal; eu é que faço todas estas coisas.”
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123. Primeira edição: “o Senhor [o] quis, logo, deve suportar-se, não apenas que não há relutar, como também que [o Senhor] nada quer senão [o] que somente seja justo, mas ainda conveniente.”

Por João Calvino
Fonte : As Institutas, volume 1, capítulo XVII.8
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Expiação Limitada - As Bençãos da Aliança


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terça-feira, 27 de outubro de 2015

A Arquitetura da Graça - A Corrente de Ouro


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A Chama Flamejante - Parte 04

Em “A Chama Flamejante” seu coração irá se surpreender com as ações valentes do fiel povo de Deus e como Sua providência guia os interesses dos homens e das nações para que o evangelho jamais se extingua. A série A Chama Flamejante é um tributo a grandes homens que instauraram a Igreja reformada que experimentamos hoje, como: Martinho Lutero, John Wyclife, William Tyndale, João Calvino, Felix Niff, John Huss, Erasmo, William Sawtrey, John Knox, Ulrich Zwingle, entre outros.

Entenderemos que esses grandes mártires defenderam o relacionamento pessoal com Deus, livre de qualquer aparato de superstição ou instituição, pois é com o coração contrito que nos achegamos a Deus. Muitos deles foram impelidos a abandonar a pátria e família para o avanço da propagação do Evangelho genuíno.

Enfrentaram a fúria das hierarquias territoriais, como Knox ao desafiar a rainha Mary, da Escócia, por ela desconhecer as Escrituras. Podemos ver a provisão de Deus quando Henrique VIII, antes considerado pela Igreja de Roma “defensor da fé”, rompe tal aliança e torna a Bíblia acessível a todos conhecedores de seu idioma para propagar a fé reformadora.

A incrível força, coragem e intelecto desses homens, com tamanha paixão por aquilo que acreditavam, ficam evidentes no momento em que Zwingle diz: “Eles podem matar o corpo, mas não a alma”. Embarque nessa jornada e conheça homens e mulheres que se tornaram mártires por amor à Palavra de Deus e por reconhecê-la como a única verdade infalível, em que o perdão ao pecador é obtido em Cristo.


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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Samuel apareceu a Saul? A pitonisa era “médium”?

E, vendo Saul o arraial dos filisteus, temeu, e estremeceu muito o seu coração.
E perguntou Saul ao Senhor, porém o Senhor não lhe respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas.
Então disse Saul aos seus criados: Buscai-me uma mulher que tenha o espírito de feiticeira, para que vá a ela, e consulte por ela. E os seus criados lhe disseram: Eis que em En-Dor há uma mulher que tem o espírito de adivinhar.
E Saul se disfarçou, e vestiu outras roupas, e foi ele com dois homens, e de noite chegaram à mulher; e disse: Peço-te que me adivinhes pelo espírito de feiticeira, e me faças subir a quem eu te disser.
Então a mulher lhe disse: Eis aqui tu sabes o que Saul fez, como tem destruído da terra os adivinhos e os encantadores; por que, pois, me armas um laço à minha vida, para me fazeres morrer?
Então Saul lhe jurou pelo Senhor, dizendo: Vive o Senhor, que nenhum mal te sobrevirá por isso.
A mulher então lhe disse: A quem te farei subir? E disse ele: Faze-me subir a Samuel.
Vendo, pois, a mulher a Samuel, gritou com alta voz, e falou a Saul, dizendo: Por que me tens enganado? Pois tu mesmo és Saul.
E o rei lhe disse: Não temas; que é que vês? Então a mulher disse a Saul: Vejo deuses que sobem da terra.
E lhe disse: Como é a sua figura? E disse ela: Vem subindo um homem ancião, e está envolto numa capa. Entendendo Saul que era Samuel, inclinou-se com o rosto em terra, e se prostrou.
Samuel disse a Saul: Por que me inquietaste, fazendo-me subir? Então disse Saul: Mui angustiado estou, porque os filisteus guerreiam contra mim, e Deus se tem desviado de mim, e não me responde mais, nem pelo ministério dos profetas, nem por sonhos; por isso te chamei a ti, para que me faças saber o que hei de fazer.
Então disse Samuel: Por que, pois, me perguntas a mim, visto que o Senhor te tem desamparado, e se tem feito teu inimigo?
Porque o Senhor tem feito para contigo como pela minha boca te disse, e o Senhor tem rasgado o reino da tua mão, e o tem dado ao teu próximo, a Davi.
Como tu não deste ouvidos à voz do Senhor, e não executaste o fervor da sua ira contra Amaleque, por isso o Senhor te fez hoje isto.
E o Senhor entregará também a Israel contigo na mão dos filisteus, e amanhã tu e teus filhos estareis comigo; e o arraial de Israel o Senhor entregará na mão dos filisteus.
E imediatamente Saul caiu estendido por terra, e grandemente temeu por causa daquelas palavras de Samuel; e não houve força nele; porque não tinha comido pão todo aquele dia e toda aquela noite.
Então veio a mulher a Saul e, vendo que estava tão perturbado, disse-lhe: Eis que a tua criada deu ouvidos à tua voz, e pus a minha vida na minha mão, e ouvi as palavras que disseste. 1 Samuel 28:5-21
Duas perguntas se destacam no controvertido episódio da Pitonisa de En-Dor, descrito em 1 Sm 28: 
1. Samuel realmente apareceu a Saul?2. Existe uma explicação bíblica para a mediunidade?
Os seguintes pontos são básicos para um entendimento sobre o assunto:
1. At 16.16 e Dt 13 são passagens que mostram que a Bíblia reconhece que Satanás utiliza pessoas com esse propósito de intermediar” o oculto. 
2. No entanto, esse meio de suposta “aquisição de conhecimento espiritual” é vedado por Deus (Dt 18.9-14). Em Dt 13.2-5 maior importância é dada à revelação prévia recebida (v. 4), como meio de comunicação de Deus ao homem, do que aos fenômenos e maravilhas porventura realizadas por alguém. A revelação escriturada (a Palavra de Deus) é a fonte confiável e está em harmonia com essa diretriz. Ela é o conjunto de revelação dada por Deus às pessoas
3. Is 8.19-20 mostra que o caminho certo de se prescrutar a vontade de Deus é a consulta à Palavra de Deus (à Lei e ao Testemunho), e não aos médiuns e adivinhos.
4. Temos várias condenações adicionais a consultas aos médiuns, em Lv 19.31; Ex 22.18 e Lv 20.6.
5. No episódio da Pitonisa de En-Dor, pode ter existido uma manifestação de Satanás (2 Co 11.14), como pode ter havido um embuste da parte daquela que se propunha a invocar os mortos. Nesse sentido, leia com atenção 1 Sm 28.14: “... entendendo Saul que era Samuel...” No v. 13, a mulher disse “... vejo um deus que sobe da terra...”
6. Mesmo havendo a possibilidade dessa mulher ter sido enganada, ou de ter enganado a Saul, tudo ocorreu dentro da esfera de atuação de Satanás.
7. Não devemos ser indevidamente céticos, ou pseudo-racionais, afirmando que esses fenômenos não existem, pois tal posição não é bíblica, mas devemos ter a consciência de que fraudes existem com freqüência.
8. É improvável que a aparição fosse realmente de Samuel, servo de Deus, pela própria afirmação de que o espírito “subiu da terra...” e pela afirmação de Cristo, na parábola do Rico e Lázaro (Lc 16.26), de que os que com Deus estão não podem passar “... de lá para cá...”.
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Por Solano Portela - texto contido no quadro ilustrativo do Terceiro Mandamento, no meu livro, A Lei de Deus Hoje .
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Eleição Incondicional - A Corrente de Ouro


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A Chama Flamejante - Parte 03

Em “A Chama Flamejante” seu coração irá se surpreender com as ações valentes do fiel povo de Deus e como Sua providência guia os interesses dos homens e das nações para que o evangelho jamais se extingua. A série A Chama Flamejante é um tributo a grandes homens que instauraram a Igreja reformada que experimentamos hoje, como: Martinho Lutero, John Wyclife, William Tyndale, João Calvino, Felix Niff, John Huss, Erasmo, William Sawtrey, John Knox, Ulrich Zwingle, entre outros.

Entenderemos que esses grandes mártires defenderam o relacionamento pessoal com Deus, livre de qualquer aparato de superstição ou instituição, pois é com o coração contrito que nos achegamos a Deus. Muitos deles foram impelidos a abandonar a pátria e família para o avanço da propagação do Evangelho genuíno.

Enfrentaram a fúria das hierarquias territoriais, como Knox ao desafiar a rainha Mary, da Escócia, por ela desconhecer as Escrituras. Podemos ver a provisão de Deus quando Henrique VIII, antes considerado pela Igreja de Roma “defensor da fé”, rompe tal aliança e torna a Bíblia acessível a todos conhecedores de seu idioma para propagar a fé reformadora.

A incrível força, coragem e intelecto desses homens, com tamanha paixão por aquilo que acreditavam, ficam evidentes no momento em que Zwingle diz: “Eles podem matar o corpo, mas não a alma”. Embarque nessa jornada e conheça homens e mulheres que se tornaram mártires por amor à Palavra de Deus e por reconhecê-la como a única verdade infalível, em que o perdão ao pecador é obtido em Cristo.

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domingo, 25 de outubro de 2015

Depravação Total - Ethelodoulos


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