quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A serenidade que a certeza da providência divina faculta ante as adversidades

Se algo de adverso lhe houver ocorrido, aqui também o servo do Senhor de pronto elevará a mente a Deus, cuja mão muito vale para imprimir-nos paciência e serena moderação de ânimo. Se José se detivesse a considerar a perfídia dos irmãos, jamais teria conseguido readquirir em relação a eles o ânimo fraterno. No entanto, visto que ele voltou a mente para o Senhor, esquecido do agravo, inclinou-se a mansuetude e clemência, e assim, ao contrário, pôde até consolar aos irmãos e dizer: “Assim, não fostes vós que me vendestes para o Egito, mas, pela vontade de Deus, fui enviado adiante de vós, para que vos conserve a vida. Vós realmente intentastes o mal contra mim, mas o Senhor o converteu em bem” [Gn 45.7, 8; 50.20].

Se Jó se houvesse volvido para os caldeus, por quem estava sendo acossado, teria imediatamente se inflamado à vingança. Como, porém, ao mesmo tempo, ele reconhece ser esta obra do Senhor, consola-se com este belíssimo pensamento: “O Senhor o deu; o Senhor o tirou; bendito seja o nome do Senhor” [Jó 1.21].

Assim Davi, atacado por Simei com impropérios e com pedras, se houvesse fixado os olhos no homem, teria animado os seus à retaliação da ofensa. Entretanto, visto que compreende não estar aquele agindo sem o impulso do Senhor, antes os aplaca: “Deixai-o” diz ele, “porque o Senhor lhe ordenou que amaldiçoe” [2Sm 16.10]. Com este mesmo freio, coíbe, em outro lugar [Sl 39.9], a fremência da dor: “Calei-me e emudeci”, diz ele, “porque tu, Senhor, o fizeste.”

Se nenhum remédio é mais eficaz para a ira e a impaciência, certamente que frui não pouco proveito aquele que, neste aspecto, assim aprendeu a meditar a providência de Deus, que pode sempre volver a mente para este ponto: o Senhor o quis, portanto é necessário ter paciência e suportá-lo; não só porque é possível resistir, mas porque ele nada quer senão o que é justo e conveniente.¹²³ A suma vem a ser isto: que, feridos injustamente pelos homens, posta de parte sua iniquidade, que nada faria senão exasperar-nos a dor e acicatar-nos o ânimo à vingança, nos lembremos de elevar-nos a Deus e aprendamos a ter por certo que foi, por sua justa administração, não só permitido, mas até inculcado, tudo quanto o inimigo impiamente intentou contra nós. Para que nos reprima de retribuir as ofensas, Paulo sabiamente nos adverte [Ef 6.12] de que nossa luta não é contra a carne e o sangue; ao contrário, é contra o inimigo espiritual, o Diabo, a fim de que nos aprestemos a pelejar contra ele. Mas este lembrete é importantíssimo para aplacar-nos todos os impulsos de ira: que tanto ao Diabo, quanto a todos os ímpios, Deus os arma para o embate e toma assento, como se fora um mestre de liça, para que nos exercite à paciência.

Entretanto, se as calamidades e misérias que nos acossam ocorrem sem operação humana que nos venha à lembrança o ensino da lei [Dt 28.2]: tudo o que de próspero há emana da fonte da bênção de Deus; todas as coisas adversas são maldições suas. E que esta horrível exclamação nos infunda temor: “Se andais inconsideradamente contra mim, eu também andarei inconsideradamente contra vós” [Lv 26.23]. Com essas palavras nos incrimina a obtusidade, nas quais, ao considerarmos, segundo o senso comum da carne, ser casual tudo quanto de bom ou mau acontece em um ou outro aspecto, não nos sentimos animados ao culto pelos benefícios de Deus, nem somos por seus açoites estimulados ao arrependimento. Esta é a mesma razão por que Jeremias [Lm 3.38] e Amós [3.6] altercavam acerbamente com os judeus, porquanto pensavam que tanto as coisas boas quanto as más ocorrem sem que Deus as ordene. Ao mesmo se refere esta proclamação de Isaías [45.7]: “Eu sou Deus que crio a luz e formo as trevas, que faço a paz e crio o mal; eu é que faço todas estas coisas.”
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123. Primeira edição: “o Senhor [o] quis, logo, deve suportar-se, não apenas que não há relutar, como também que [o Senhor] nada quer senão [o] que somente seja justo, mas ainda conveniente.”

Por João Calvino
Fonte : As Institutas, volume 1, capítulo XVII.8
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