domingo, 15 de novembro de 2015

A Soberania de Deus e o Mal [1/3]

 
"E se o profeta for enganado, e falar alguma coisa, eu, o SENHOR, terei enganado esse profeta; e estenderei a minha mão contra ele, e destruí-lo-ei do meio do meu povo Israel" (Ezequiel 14:9).
Eu citei apenas um versículo dos mencionados pelo questionador. A questão inteira menciona vários textos e apresenta-se da seguinte forma (o leitor é encorajado a verificar os outros textos):
"1Reis 22:20-23 e os versículos que ensinam verdades similares – tais como Ezequiel 14:9, Jeremias 4:10 e 20:7, II Tessalonicenses 2:11-12—parecem indicar que Deus não simplesmente permite o mal existir, mas de alguma forma o causa. Eu creio nisso, mas também creio que Deus não pode ser o autor do pecado, visto que ele é santo e não há trevas nele (1João 1:5), e ele é muito puro até mesmo para ‘contemplar o mal’ (Habacuque 1:13). Você pode explicar como estas coisas podem ser harmonizadas?"
Esta pergunta, embora crucialmente importante, é também uma pergunta que tem sido discutida na igreja por muitos séculos. Podem-se descobrir na história da igreja aqueles que têm defendido ambas as posições delineadas nos comentários do questionador. A pergunta é basicamente esta: Qual é a relação entre a soberana execução da vontade de Deus e o pecado do qual o homem é culpado?

As duas respostas que têm sido dadas à pergunta da soberania de Deus e o pecado são:

1) Deus causa o pecado, ou,
2) Deus permite o pecado.

Ambas as respostas são sugeridas na questão citada acima: "... Deus não simplesmente permite o mal existir, mas de alguma forma o causa ..."

É importante observar que estas duas respostas têm sido dadas por pessoas que são genuinamente Reformadas e Bíblicas em sua teologia, que não têm nada a ver com o erro Arminiano, e que creem de todo o seu coração que Deus é absolutamente soberano em toda a obra da salvação. Portanto, devemos ser cuidadosos para que não acusemos uns aos outros de "heresia." Este não é o caso. O que nos importuna é a palavra correta para descrever a relação entre um Deus soberano e o pecado do homem – pecado pelo qual o homem é responsável.

Enquanto os textos mencionados na pergunta tenham a ver especialmente com o pecado de engano por parte de falsos profetas—um engano que o próprio Deus alega ter realizado nestes profetas—a questão mais ampla é sobre todo pecado. O pecado é um falta do homem. O homem irá justamente para o inferno por causa do seu pecado—a menos que seu pecado tenha sido pago na cruz de Cristo. Deus é soberano. Deus permanece soberano. Deus é soberano sobre o pecado.

Que este desentendimento sobre esta questão têm estado presente nos círculos Reformados e Presbiterianos é evidente a partir do fato de que as confissões Reformadas diferem levemente sobre esta questão da Confissão de Westminster. Analisaremos brevemente esta diferença.

Embora, até onde eu sei (alguém pode me corrigir sobre isso), as confissões Reformadas não usem a palavra "permissão" para definir a relação de Deus com o pecado, todavia, estas confissões implicam que "permissão" seria um termo aceitável. Esta afirmação é provada pela definição de reprovação usada pelas confissões. Tanto os Cânones de Dordt como a Confissão de Fé Belga, ao definir reprovação, falam de Deus "deixando" o homem em seu pecado.

Os Cânones usam esta expressão em I:15, por exemplo: "Para mostrar sua justiça, decidiu deixá-los em seus próprios caminhos e debaixo do seu justo julgamento." A Confissão de Fé Belga diz (Art. 16): "... deixa os demais na queda e perdição, em que eles mesmos se lançaram." A ideia é que Deus permite o pecado entrar no mundo, e uma vez ali, ele "deixa" certas pessoas neste pecado sem resgatá-las, como ele faz com os seus eleitos.

Aqueles que prepararam os Cânones e a Confissão de Fé Belga usaram esta linguagem porque (como o nosso questionador também sugeriu) eles estavam com medo de fazer de Deus o autor do pecado. O Sínodo de Dordt afirma fortemente a doutrina da reprovação, mas define-a como um "deixar" as pessoas em pecado, e continua para dizer: "Este é o decreto da reprovação, o qual não torna Deus o autor do pecado (tal pensamento é blasfêmia!) …"

A Confissão de Westminster, por outro lado, diz que a palavra "permissão" é inadequada: "A onipotência, a sabedoria inescrutável e a infinita bondade de Deus, de tal maneira se manifestam na sua providência, que esta se estende até a primeira queda e a todos os outros pecados dos anjos e dos homens, e isto não por uma mera permissão, mas por uma permissão tal que, para os seus próprios e santos desígnios, sábia e poderosamente os limita, e regula e governa ..." (V, 4). Os teólogos de Westminster eram da convicção que a palavra "permissão" não era satisfatória para descrever a relação de Deus com o pecado; não porque a palavra "permissão" fosse herética, mas porque ela é muito fraca.

Mas nosso espaço já foi preenchido, e teremos que esperar para completar esta discussão até a próxima edição do "Boletim."
_________________
Por Prof. Herman Hanko
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto
Via: Covenant RPC
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...