segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A Soberania de Deus e o Mal [2/3]

"E se o profeta for enganado, e falar alguma coisa, eu, o SENHOR, terei enganado esse profeta; e estenderei a minha mão contra ele, e destruí-lo-ei do meio do meu povo Israel" (Ezequiel 14:9).
Eu citei apenas um versículo dos mencionados pelo questionador. A questão inteira menciona vários textos e apresenta-se da seguinte forma (o leitor é encorajado a verificar os outros textos): "I Reis 22:20-23 e os versículos que ensinam verdades similares—tais como Ezequiel 14:9, Jeremias 4:10 e 20:7, II Tessalonicenses 2:11-12—parecem indicar que Deus não simplesmente permite o mal existir, mas de alguma forma o causa. Eu creio nisso, mas também creio que Deus não pode ser o autor do pecado, visto que ele é santo e não há trevas nele (1João 1:5), e ele é muito puro até mesmo para ‘contemplar o mal’ (Habacuque 1:13). Você pode explicar como estas coisas podem ser harmonizadas?"

Na última edição (a qual seria bom reler), mencionei que respostas diferentes têm sido dadas por pessoas Reformadas à questão da relação entre a soberania de Deus e o pecado. Eu citei as Três Formas de Unidade e a Confissão de Westminsterpara demonstrar este ponto. Agora, devemos continuar a discussão.

Eu poderia definir a diferença dessa forma: Aqueles que falam de vontade permissiva de Deus com respeito ao pecado estão temerosos de fazer de Deus o autor do pecado—algo que os Cânones de Dort chamam de "blasfêmia." Os teólogos de Westminster, ao considerar a palavra "permissiva" inadequada para descrever a relação entre a vontade de Deus e o pecado, estavam temerosos de fazer injustiça à soberania de Deus. Ambos estão corretos em seus temores. É de fato errado sugerir ou implicar de alguma forma que Deus é o autor do pecado. E é de fato errado ensinar de alguma forma ou maneira que Deus é menos do que soberano—até mesmo em sua relação com o pecado.

A Escritura tem muitos textos que colocam a doutrina da soberania de Deus diante dos nossos olhos para que possamos negá-la. Devemos mencionar apenas alguns aqui. Esses são adicionais aos textos que o questionador sugeriu. Davi confessa que Deus mandou Simei amaldiçoar Davi (II Samuel 16:10). Deus moveu Davi a levantar o censo de Israel, embora Davi tenha sido punido por seu pecado (II Samuel 24:1). Isaías compara a relação de Deus com o ímpio como a relação de alguém que maneja um machado, que usa uma serra ou maneja uma vara (Isaías 10:15-16). O crime mais hediondo de todos os séculos, a crucificação do nosso Senhor, foi feito de acordo com o conselho determinado e pré-conhecimento de Deus (Atos 2:23, 4:27-28). Quase não há fim para passagens semelhantes a estas.

Poderíamos observar de passagem que João Calvino não estava temeroso de falar de Deus como a "causa" do pecado, embora ele insistisse que devemos distinguir cuidadosamente entre causas primárias e causas secundárias, e que Deus sempre realiza sua vontade através de causas secundárias. Eu penso que isto pode ser útil também nesta discussão. Em todo pecado, a vontade do homem sempre é uma causa secundária. Nunca o homem faz algo sem ser como um ato de sua própria vontade. Nisto reside sua responsabilidade.

Sempre me pareceu que a palavra "permissão," quando usada para descrever a relação de Deus com o pecado, não resolve realmente nenhum problema. Eu sei que o motivo para se usar a palavra é evitar qualquer impressão de fazer de Deus o autor do pecado. E isto deve estar longe das nossas mentes. Mas o ensino de que Deus "permite" o pecado realmente nos ajuda? Eu duvido. Suponha que eu esteja numa loja de ferragens olhando os martelos, e eu veja um homem perto de mim, colocando um martelo em seu casaco e saindo da loja sem pagá-lo. Eu "permiti" que ele roubasse. Eu escapo da culpabilidade do roubo por permanecer ali, sem fazer nada, quando eu estava numa posição de impedi-lo de roubar? Este não é o caso.

Assim, se Deus (e eu falo como um homem) permanece olhando os homens pecar, capaz de impedir, mas sem fazer nada para deter o pecado, mas apenas permitindo-o, isto também, aparte de qualquer outra consideração, não resolveria o problema. Eu não vejo como um apelo à vontade permissiva de Deus possa fazer algo que um apelo direto à soberania de Deus não possa.

Devemos manter a soberania absoluta de Deus sobre todas as cosias, incluindo o pecado. Este é o ensino claro da Escritura; e se podemos fazer algo que a Escritura não atribua a Deus, criamos um poder no universo fora do controle de Deus. Se tal poder existe, um poder sobre o qual Deus não tem controle, então criamos um dualismo: um dualismo de dois poderes, Deus e o pecado; um dualismo de dois seres eternos, Deus e o mal; um dualismo de dois poderes independentes, Deus e a impiedade. Tal dualismo é impossível e intolerável, pois ele é uma limitação sobre Deus que destrói Deus.

Devemos manter que Deus determinou o pecado em seu conselho eterno, que Deus controla e dirige o pecado em seu controle e direção soberano de todas as coisas, e que Deus também usa o pecado pare cumprir o seu propósito. O primeiro Paraíso é o estágio sobre o qual, sob o governo soberano de Deus, o drama do pecado e da graça é representado. A queda serve a esse propósito, o propósito da revelação de Deus em Jesus Cristo.

Aparentemente teremos que usar outro artigo para "explicar como estas coisas podem ser harmonizadas" – como o questionador tão claramente colocou.
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Por Prof. Herman Hanko
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto
Via: Covenant RPC
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