terça-feira, 17 de novembro de 2015

A Soberania de Deus e o Mal [3/3]

"E se o profeta for enganado, e falar alguma coisa, eu, o SENHOR, terei enganado esse profeta; e estenderei a minha mão contra ele, e destruí-lo-ei do meio do meu povo Israel" (Ezequiel 14:9).
Eu citei apenas um versículo dos mencionados pelo questionador. A questão inteira menciona vários textos e apresenta-se da seguinte forma (o leitor é encorajado a verificar os outros textos): "I Reis 22:20-23 e os versículos que ensinam verdades similares—tais como Ezequiel 14:9, Jeremias 4:10 e 20:7, II Tessalonicenses 2:11-12—parecem indicar que Deus não simplesmente permite o mal existir, mas de alguma forma o causa. Eu creio nisso, mas também creio que Deus não pode ser o autor do pecado, visto que ele é santo e não há trevas nele (I João 1:5), e ele é muito puro até mesmo para ‘contemplar o mal’ (Habacuque 1:13). Você pode explicar como estas coisas podem ser harmonizadas?"

No último artigo sobre este assunto que é colocado pelo nosso correspondente, eu estabeleci especialmente dois pontos: 1) O termo "permissão" não parece adequado para escapar da acusação de que Deus é o autor do pecado, nem para descrever suficiente e fortemente a soberania de Deus em relação ao pecado. 2) Devemos manter a forte ênfase da Bíblia que inescapavelmente nos ensina que a soberania de Deus sobre o pecado é completa.

Mas, como o correspondente aponta, Deus nunca pode ser chamado de o autor do pecado; e nós também somos responsáveis diante de Deus pelos nossos pecados e seremos justamente punidos no inferno eterno por causa do pecado [caso não sejamos salvos]. A Escritura deixa claro que Jesus foi entregue pelo conselho e pré-conhecimento eterno de Deus, e foi também crucificado pelas mãos de ímpios. Herodes e Pôncio Pilatos, juntamente com os judeus, fizeram a Cristo o que Deus tinha determinado antes de ser feito.

Este problema certamente não é uma novidade do nosso presente tempo; ele foi discutido inúmeras vezes na história da igreja. Nem eu reivindico alguma luz original sobre o problema ou uma capacidade de entender como tanto a soberania de Deus como a responsabilidade do homem podem ser mantidas.

Mas há quatro ou cinco considerações que precisam ser feitas sobre esta questão.

A primeira é que o problema é abstrato num certo sentido. Todo homem no universo, incluindo nós, sabe que somos responsáveis diante de Deus pelos nossos pecados. Nós sabemos que, se formos punidos no inferno, seremos punidos justamente. Nós merecemos o que recebemos. Nenhum homem pode questionar isso.

Em segundo lugar, a Escritura não parece reconhecer o problema, nem ela diz algo sobre ele. Deus moveu Davi a levantar o censo de Israel. Davi clamou: "Eu pequei." Deus puniu Davi por seu pecado e a punição foi absolutamente justa.

Em terceiro lugar, o cerne da questão é este: Qual é a relação entre a vontade de Deus e a vontade do homem? Eu formulei a pergunta dessa forma porque a vontade de Deus é soberana, e tudo o que o homem faz é feito voluntariamente. O caráter voluntário das ações do homem sempre o torna responsável por elas. Deus não toma o homem pelo cabelo da nuca, por assim dizer, e o faz roubar um automóvel, enquanto o homem diz: "Eu não quero fazer isso. Eu não quero fazer isso." O homem peca voluntariamente.

Em quarto lugar, o problema é que simplesmente não podemos entender exatamente como a vontade soberana de Deus toca a nossa vontade; isto é, qual é a relação entre a vontade de Deus e a nossa vontade. Mas esta incapacidade de entender não me incomoda nenhum pouco. E ela não me incomoda simplesmente porque eu não posso entender a obra de Deus em cada uma das partes da criação. Eu não posso entender como Deus faz a grama crescer. Eu não posso entender como Deus move os planetas em suas órbitas ao redor do sol em nosso sistema solar. E, na realidade, nenhum cientista pode entender completamente estas coisas. Todos os caminhos de Deus são inescrutáveis. É estranho então que eu não posso entender a relação entre Deus em sua obra soberana e o homem?

Em quinto lugar, a soberania de Deus e a responsabilidade do homem não são contraditórias. Podemos não entender a relação, mas elas não contradizem uma a outra. Elas não contradizem uma a outra mais do que o crescimento de um arbusto de rosa contradiz o controle providencial de Deus dele. De fato, eu ouso dizer que um entendimento verdadeiro da responsabilidade do homem reside sobre a verdade da soberania absoluta de Deus.

Finalmente, estas duas verdades se harmonizam da seguinte forma: a vontade de Deus é soberanamente executada de tal forma que neste ponto onde a vontade de Deus toca a vontade do homem, a vontade do homem não é violada. Deus não contorna, coage, força, cancela ou destrói a vontade do homem. O propósito de Deus em sua vontade é realizado. O homem peca voluntária e deliberadamente. Ele é, portanto, responsável.

Você diz que não pode entender? Bem, e daí? Diga-me uma obra do grande e glorioso Deus que você entenda. Não há nenhuma. Curvemos-nos em reverência e temor diante daquele cujos caminhos são inescrutáveis.

Eu não posso me refrear de um último comentário, feito originalmente por meu pastor (quando eu era um jovem) e professor no Seminário, Herman Hoeksema. Numa palestra sobre o assunto da soberania de Deus e a responsabilidade do homem, ele disse algo mais ou menos assim: Se eu tivesse que escolher entre a soberania de Deus e a responsabilidade do homem—certamente, eu não tenho que fazer esta escolha; mas se eu tivesse que escolher entre as duas coisas, dê-me a soberania de Deus. Eu acrescento meu "sim" a isto.
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Por Prof. Herman Hanko
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto
Via: Covenant RPC
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