sábado, 7 de novembro de 2015

Ezequiel 18:31,32

“Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel? Porque não tenho prazer na morte do que morre, diz o Senhor DEUS; convertei-vos, pois, e vivei” (Ezequiel 18:31,32)
Esta passagem da Escritura é freqüentemente usada pelos [1] patronos do livre-arbítrio, e oponentes da graça de Deus; na qual eles imaginam que o poder do homem na conversão é fortemente afirmado, e a doutrina da reprovação suficientemente refutada; mas se elas são, ou não, seremos mais capazes de julgar quando as seguintes coisas forem consideradas:

1. Que a exortação para lançar fora as transgressões deles, considera ou os seus próprios pecados, que eles tinham cometido, e mostra que eles eram não somente inúteis, mas perniciosos, e assim odiosos e abomináveis, como tais coisas são isto e são próprias para serem lançadas fora; ou também o castigo devido aos seus pecados, que eles poderiam ter removido e lançado fora pelo seu arrependimento e reforma, e é o sentido que Kimchi dá às palavras; ou antes, aquelas coisas, particularmente seus ídolos, pelo quais então transgrediram. Agora, que seja observado que esta frase de lançar fora as transgressões não é usada em nenhum outro lugar, ela é peculiar a Ezequiel, e assim pode ser mais bem interpretada por Ezequiel 20:7,8. “Cada um lance de si as abominações dos seus olhos, e não vos contamineis com os ídolos do Egito, etc.” Estes ídolos eram as abominações de seus olhos, eram a causa das suas transgressões, ou pela qual eles tinham transgredido, que suas próprias mãos tinham feito para eles, para pecar (Isaías 31:7), e o que eles tinham poder ou eram capazes de lançar deles; e de forma alguma milita contra a necessidade de uma operação não frustrada na conversão.

2. A outra exortação, para que eles façam um coração novo e um espírito novo, admitindo que isto designa um coração e espírito renovado e regenerado, no qual estão os novos princípios de luz, vida, amor, graça e santidade, não prova que está no poder de um homem não regenerado fazer por si mesmo tal coração e espírito; visto que dos mandamentos de Deus para o poder do homem, non valet consequentia, não é argumento: Deus ordena que os homens guardem toda a lei perfeitamente; isto não significa, portanto, que eles podem fazê-lo; seus preceitos mostram o que o homem deve fazer, não o que eles podem fazer. Uma exortação como esta, para fazer um novo coração, pode ser designada para convencer os homens de sua necessidade de um, e da importância disto, que sem isto não há salvação; e assim são os meios, através da graça eficaz de Deus, de Seus eleitos desfrutarem esta benção; porque o que Ele aqui exorta, Ele prometeu absolutamente no novo concerto (Ezequiel 36:26); “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo”. Contudo, deve ser observado que estas palavras não são ditas a pessoas não convertidas, mas à casa de Israel, cada um deles; que não pode ser pensado, especialmente todos deles, ter estado naquele momento num estado não regenerado; e, portanto, não deve ser entendido como sendo a primeira obra de renovação, mas de algumas renovações posteriores, que eram para aparecer em sua conversação exterior; e assim, as palavras têm o mesmo sentido daquelas do apóstolo Paulo aos crentes de Éfeso (Efésios 4:23,24). “E vos renoveis no espírito da vossa mente; E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade”. Além do mais, por um novo coração, e um espírito novo, pode ser entendido, como o Targum de Jonathan Bem Uziel o faz, aljd hwrw lytd bl, um coração temeroso, e um espírito de temor, isto é, um coração e um espírito para temer, servir e adorar ao Senhor, e não aos ídolos. E é observável que onde quer que um novo coração e um novo espírito sejam mencionados, eles permanecem em oposição aos ídolos, e ao serviço deles; de forma que a exortação equivale a não mais do que isto, que eles deveriam render uma obediência reverencial de coração ao Deus vivo, e não aos ídolos mudos. Além disso, o que é aqui chamado um novo coração, é, em Ezequiel 11:9, chamado um coração, isto é, um coração simples, em oposição ao coração dobre ou hipócrita; e assim, pode designar a sinceridade e honestidade em seu arrependimento e reforma exterior nacional, que eles são aqui pressionados a fazer.

3. A expostulação, “Por que razão morreríeis?” não é feita com todos os homens; nem pode ser provada que tenha sido feita com alguém que eventualmente não foi salvo, mas com a casa de Israel, que são chamados os filhos e o povo de Deus; e, portanto, não pode desaprovar qualquer ato de preterição passando sobre os outros, nem pode ser um impedimento da verdade e da sinceridade de Deus. Além disso, a morte expostulada aqui, não é uma eterna, mas uma temporal, ou que diz respeito aos assuntos temporais, às condições civis e às circunstâncias da vida; veja Ezequiel 33:24-29. Portanto,

4. A afirmação, "Eu não tenho prazer na morte do que morre", que é algumas vezes introduzida com um juramento, (Ezequiel 33:11) “Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do ímpio”, de modo algum milita contra um ato de preterição; pelo qual alguns são deixados justamente por Deus a perecer em e por suas iniqüidades; ou o decreto da reprovação, pelo qual alguns, devido a suas transgressões, são apontados, ou pré-ordenados à condenação e à morte; e, portanto, todos os argumentos [2] usados para desaprovar estas coisas, fundamentados nesta passagem da Escritura, são vãos e impertinentes; porque uma morte de aflições é aqui pretendida, como já foi observado, debaixo da qual a casa de Israel gemia e se queixava; embora isto se devesse totalmente a eles, e os quais não eram gratos a Deus, e nos quais Ele não tinha prazer: que deve ser entendido, não simples e absolutamente, e com respeito a todas pessoas afligidas por Ele; porque Ele se deleita no exercício do julgamento e da justiça, bem como em mostrar misericórdia, e se ri da calamidade dos ímpios, e zomba quando o temor deles chega; (Jeremias 9:24; Provérbios 1:26), mas isto é para ser tomado comparativamente; como quando Ele diz (Oséias 5:6) "misericórdia quero, e não sacrifício"; isto é, Eu me deleito antes na misericórdia, do que no sacrifício; assim aqui, "Eu não tenho prazer na morte do que morre": em suas aflições, calamidades, cativeiro e coisas semelhantes; mas antes, que ele se volte dos seus caminhos, se arrependa e se reforme, e viva em sua própria terra; que mostra a misericórdia e a compaixão de Deus (Lamentações 3:33), que não aflige nem entristece de bom grado aos filhos dos homens. Por conseguinte, Ele renova Sua exortação: “Convertei-vos, pois, e vivei”. A soma de tudo isto é, vocês não têm razão para dizer, como no verso 2, “Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram?”; ou como no verso 25, que “O caminho do Senhor não é direito”; visto que não é pelos pecados de vossos pais, mas pelos seus, que as presentes calamidades, das quais vocês se queixam, repousam sobre vocês; de minha parte, Eu não tenho prazer em vossa morte, em vosso cativeiro; seria mais agradável a mim, que vocês de convertessem de seus maus caminhos, ao Senhor teu Deus, e andassem de acordo com as leis que Eu vos dei para observar, e assim vivessem em vossa própria terra, na quieta possessão de todas as vossas mercadorias e propriedades. Mas o que isto tem a ver com os assuntos da vida eterna, ou da morte eterna?
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NOTAS FINAIS:
[1] Remontr. in Coll. Hag. art. 3. 4. p. 216; Act. Synod. p. 78, etc.; Curcell. 1. 5, c. 6, sect. 1. p. 363; et. 1. 6, c. 14, sect 8, p. 408; Limborch. 1. 4, c. 5, sect. 2, p. 331, &, 31. p. 374 .
[2] Veja Whitby, pp. 3, 33, 160, 196, 197; ed. 2.3, 32, 156,192, 193.

FONTE: Extraído e traduzido de The Cause of God and Truth [A Causa de Deus e a Verdade], Parte 1, Seção 21 – Ezequiel 18:31-32.

Por Dr. John Gill
Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
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