quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A depravação adâmica propagada a todos os seus descendentes

Ouvimos que a depravação dos pais de tal modo se transmite aos filhos, que todos, sem qualquer exceção, se fazem poluídos em sua concepção. Não se achará, porém, o ponto de partida desta poluição, se, como à fonte, não remontarmos ao primeiro genitor de todos. Desse modo deve-se, por certo, sustentar  que Adão não foi apenas o progenitor, mas ainda como que a raiz da natureza humana, e daí, na corrupção daquele, foi com razão corrompido todo o gênero humano. Isto o Apóstolo faz claro pela comparação daquele com Cristo. Diz ele: “Assim como através de um só homem entrou o pecado no mundo inteiro, e através do pecado a morte, que foi propagada a todos os homens, uma vez que todos pecaram, assim também, pela graça de Cristo, nos foram restituídas a justiça e a vida”  [Rm 5.12, 17].

O que os pelagianos grasnarão aqui? O pecado de Adão propagado por imitação? Logo, outra coisa não usufruímos da justiça de Cristo, senão que ela nos é um exemplo proposto para imitação? Quem suportaria tão grande sacrilégio? Porque, se está fora de controvérsia que, mediante comunicação, a justiça de Cristo é nossa, e desta  a decorrer  a vida, segue-se, ao mesmo tempo, que em Adão foram ambas assim perdidas, como em Cristo ambas são recuperadas. De igual modo, assim se infiltraram o pecado e a morte através de  Adão como são abolidos por meio de Cristo. Estas não são palavras obscuras: que muitos são justificados pela obediência de Cristo, da mesma forma que haviam sido constituídos pecadores pela desobediência de  Adão [Rm 5.19].

E por isso, entre estes dois [Cristo e  Adão], a relação é esta: que este,  a nós  envolvendo em sua ruína, consigo nos perdeu; Aquele, por sua graça, nos restituiu à salvação. Em luz tão meridiana da verdade, sou de parecer que não se faz necessária nenhuma comprovação mais extensa ou mais laboriosa. Assim, na Primeira Epístola aos Coríntios, como visa a firmar os piedosos na confiança da ressurreição, o Apóstolo mostra que em Cristo é recuperada a vida que fora perdida em Adão [1Co 15.22].

Quem declara que todos nós morremos em Adão, já, ao mesmo tempo, também atesta abertamente estarmos enredilhados no estigma de seu pecado. Pois a condenação não alcançaria àqueles que não foram tocados pela culpa de iniqüidade. Mas, ao que  Paulo  visa, não se pode entender mais claramente que  à luz  da relação do outro membro  da cláusula, onde ensina ser em Cristo restaurada a esperança de vida. Sabe-se sobejamente, porém, que isso não se pode dar de outra maneira senão onde, mercê dessa admirável comunicação, Cristo transmite a nós o poder de sua justiça, tal como está escrito em outro lugar: “O Espírito nos é vida em razão de  sua  justiça” [Rm 8.10].

Portanto, nem é defensável interpretar-se de outra forma o que se diz: que em Adão todos nós morremos;  senão que ele, em pecando, não apenas acarretou a si próprio a miséria e a ruína, como também precipitou nossa natureza em semelhante derrocada. Isso não se deu somente por sua corrupção pessoal, a qual não nos diz respeito; ao contrário, porque infeccionou a toda sua descendência com essa depravação em que caíra. Tampouco se manteria, de outra maneira, também a  declaração de Paulo de que todos são por natureza filhos da ira [Ef 2.3], a não ser que, já no próprio ventre, estivessem sob a maldição da culposidade. Depreende-se facilmente que por certo aqui não se deve entender natureza como foi criada por Deus; antes, como foi corrompida em Adão, pois que estaria muito longe de ser procedente que Deus se fizesse o autor da morte.

Portanto, de tal forma se corrompeu Adão que o contágio se transmitiu dele a toda a descendência. Além disso, onde ensina que todo o que é gerado da carne é carne [Jo 3.6], o próprio Juiz celestial, Cristo, proclama com sobeja clareza que todos nascem ímpios e depravados, e por isso a todos está fechada a porta da vida, até que sejam gerados de novo [Jo 3.6].
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Por João Calvino
Fonte : As Institutas, volume 2, capítulo 1.6
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