sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Salmo 150: Dançando no santuário?


Um dos textos do Antigo Testamento mais usados para defender as danças litúrgicas é o Salmo 150. Ele é lido como prova incontestável que havia danças como parte da liturgia dos cultos no Antigo Testamento realizados no templo de Deus em Jerusalém. Como conseqüência, dançar, ter grupos de coreografia e ministério de dança profética durante os cultos das igrejas evangélicas de hoje não somente é permitido, como também ordenado por Deus.
Eis o Salmo 150 de acordo com a versão Almeida Atualizada, provavelmente a mais popular no Brasil:

1 Aleluia! Louvai a Deus no seu santuário; louvai-o no firmamento, obra do seu poder.
2 Louvai-o pelos seus poderosos feitos; louvai-o consoante a sua muita grandeza.
3 Louvai-o ao som da trombeta; louvai-o com saltério e com harpa.
4 Louvai-o com adufes e danças; louvai-o com instrumentos de cordas e com flautas.
5 Louvai-o com címbalos sonoros; louvai-o com címbalos retumbantes.
6 Todo ser que respira louve ao SENHOR. Aleluia!

A argumentação é a seguinte. O verso 1 manda que louvemos a Deus no seu “santuário”, isto é, no templo terreno, o local oficial da adoração a Deus, onde se realizava o culto por Ele determinado. Em seguida, vem uma descrição deste culto, e em meio à relação dos instrumentos utilizados, se menciona no verso 4 as “danças”. A conclusão aparente é que as danças faziam parte do culto oferecido a Deus no seu templo em Jerusalém. Pronto, temos aqui a base para as danças litúrgicas no culto hoje.

Mas, será que é isto mesmo que o Salmo está dizendo? Ou ainda, será que podemos inferir do Salmo que as danças faziam parte da liturgia do templo? E mais ainda, se de fato é isto mesmo que o Salmo está mostrando, temos aqui uma base para as danças litúrgicas e grupos de coreografia em nossos cultos?

Já disse no post anterior “Davi dançou, eu também quero dançar” que não considero o dançar em si como algo pecaminoso, e que não tenho problemas com danças nas comunidades cristãs como expressão cultural e social em ambientes outros que não o culto a Deus. O que pretendo aqui neste post é mostrar que o Salmo 150 não pode ser tomado como base incontestável para a prática das danças litúrgicas e coreográficas nos cultos cristãos.

Vou começar admitindo, por um momento, que o Salmo 150 está falando do templo em Jerusalém e de danças durante o culto. A pergunta, que deveria ter sido feita desde o início, é se o culto cristão toma sua inspiração, gênese e formato do culto do Antigo Testamento. Para mim, a resposta é negativa, embora com qualificações.

O culto do templo é geralmente visto no Novo Testamento como parte da lei cerimonial, cumprida em Cristo e portanto abolida. A carta aos Hebreus trata deste assunto. Um dos melhores professores de Antigo Testamento que conheço me escreveu recentemente, falando deste assunto, "O que acontecia no Templo não passa nem perto do que acontece nos melhores dos nossos cultos hoje, pois o serviço no Templo encenava a expiação". Os sacrifícios de animais, as cerimônias de purificação, a ordem dos levitas e dos sacerdotes, os rituais de oferecimentos das ofertas, a queima de incenso, a oferta diária dos pães, tudo isto é considerado como parte da antiga dispensação, que era simbólica, típica, e que foi plenamente cumprida em Cristo: não temos mais sacrifícios – o Senhor Jesus ofereceu de uma vez um sacrifício completo, que não precisa ser renovado e repetido; não temos mais sacerdotes e levitas – os cristãos, todos eles, são sacerdotes e levitas. A queima de incenso é substituída pelo louvor que procede nossos lábios. O templo, que era santo e sagrado, agora é a Igreja de Cristo, a comunidade dos eleitos de Deus, e não os templos de nossas igrejas locais.

Ao que tudo indica, os cristãos deram continuidade ao culto no Antigo Testamento apenas no que se refere aos princípios espirituais: a idéia de encontro com Deus, de adoração, de louvor, de solenidade, de alegria, de serviço espiritual como povo do Senhor... mas foram buscar nas sinagogas o formato para este culto mais simples e despojado. Nas sinagogas, instituição onde cresceram o Senhor Jesus e todos os apóstolos, havia leitura e pregação da Palavra, orações, cânticos e bênção.

Portanto, devemos ter cautela em transferir para o culto cristão aquilo que era feito no templo de Jerusalém – admitindo por um instante que havia danças no culto ali. Por falta deste cuidado, a Igreja Católica tem um culto em muito similar ao do Antigo Testamento: eles têm o sacrifício da missa, sacerdotes que são mediadores entre Deus e homens e que perfazem este sacrifício, estolas sacerdotais e mitra, queima de incenso, etc.

Mas, na verdade, não é certo que o Salmo 150 esteja falando de danças no templo. Em primeiro lugar, a palavra “santuário” mencionada no verso 1 nem sempre significa o local da adoração em Jerusalém, onde o culto determinado por Deus era realizado de acordo com todos os seus preceitos. A palavra b’kadoshu, significa literalmente “em seu santo”. Logo, sua tradução primeira seria “em seu santuário” e não “em seu Templo”. Precisamos, portanto, considerar a possibilidade de que o santuário de Deus aqui referido não é o local físico do templo, mas o local da sua santa habitação, ou seja, os céus.

Uma evidência a favor desta tradução e interpretação é que no mesmo verso somos chamados a adorar a Deus no “firmamento”, que declara o seu poder. Se considerarmos que aqui no verso 1 temos um caso de paralelismo, tão comum na poesia hebraica, conclui-se que aqui santuário e firmamento são a mesma coisa:

Louvai a Deus no seu santuário;
Louvai-o no firmamento, obra de seu poder.

Encontramos o mesmo paralelismo no Salmo 11.4:
O Senhor está no seu santo templo;
Nos céus tem o Senhor seu trono;

Fica evidente que o santo templo de que fala o salmista são os céus, onde Deus tem o seu trono. Outra passagem é o Salmo 102.20:
O Senhor observa do alto do seu santuário;
Lá do céu ele olha para a terra.

Mais uma vez, é evidente que o santuário referido é o céu, de onde Deus observa os homens. Levando em consideração o escopo do Salmo 150, o paralelismo hebraico e estes outros salmos que identificam o santuário de Deus com os céus, é perfeitamente possível concluir que aqui no Salmo 150 “santuário” se refere à morada celestial de Deus e não ao templo físico de Jerusalém. E logo, o apelo do verso 1 pode ser entendido como dirigido aos homens e anjos para que louvem a Deus, que habita em sua morada celestial.


Em segundo lugar, a palavra que a Almeida Atualizada traduziu como "danças" tem outros significados, alguns dos quais se encaixam muito melhor no contexto. A palavra mahol que aparece no verso 4 e é traduzida como “danças” pela Almeida Atualizada pode significar “flauta”. A própria Almeida Atualizada traduziu mahol como “flauta” no Salmo 149, “louvem-lhe o nome com flauta; cantem-lhe salmos com adufe e harpa”. Admito que os contextos são diferentes, pois no Salmo 150 mahol vem precedido dos adufes, tamborins, que marcam o ritmo. De qualquer forma, se vê que a palavra pode ter outro sentido que não dançar.

Várias traduções do Salmo 150:4 traduziram mahol como “flauta”, como a Almeida Corrigida, a Bíblia de Genebra 1599, a Reina Valera 1909, entre outras (“coral”, Douay-Rheims).

Calvino, em seu comentário dos Salmos, preferiu traduzir como “flauta”.

Temos que admitir que a maioria das traduções preferiu “danças”. Em minha opinião, é perfeitamente possível. Todavia, se o salmista estiver se referindo a um instrumento musical, como “flauta”, se encaixa perfeitamente no contexto, pois os versos 3-5 estão mencionando instrumentos musicais usados em Israel, como trombeta, saltério, harpa, adufes, instrumentos de cordas, flautas, címbalos sonoros e címbalos retumbantes. Estes versos não estão dando uma descrição do que se fazia no culto a Deus executado no templo ou no templo, mas apenas enumerando os instrumentos musicais de toda espécie, todos eles convocados para o louvor de Deus.

Se levarmos em consideração as variáveis acima, o Salmo 150 pode ser simplesmente um chamado universal a anjos, homens e animais, para que louvem a Deus. E que os homens o façam com toda sorte de instrumentos musicais. Não está falando do culto no templo terreno e nem de danças.
Alguém poderia legitimamente indagar: "se Deus aceita as danças no seu alto e sublime lugar, no santuário celestial, será que Ele se desagradaria das danças no local da adoração terrena?" A única resposta que eu tenho para isto é que a maneira que temos de saber o que agrada a Deus ou não em seu culto hoje é mediante o estudo do Novo Testamento. O que Deus prescreve para o culto dos cristãos? Certamente não encontraremos uma liturgia detalhada, uma seqüência dos atos de culto. Mas encontraremos os princípios espirituais que governam este culto e os elementos que dele devem constar. E entre estes, nao acharemos as danças.

Mas, não quero insistir demais neste ponto. O que eu gostaria apenas de deixar claro neste post é que o Salmo 150 não pode ser usado como uma prova cabal e final de que as danças faziam parte do culto a Deus oferecido em seu templo ou seu templo em Jerusalém e que em conseqüência devemos ter danças nos cultos cristãos de hoje.

Não considero este assunto tão central à fé que eu tenha que me separar de quem pensa diferente. Se você quer dançar no culto, dance. Não vou considerá-lo um pagão por isto. Mas não me venha dizer que é bíblico e que aqueles que pensam diferente de você serão condenados como Mical, que criticou Davi quando dançava.

Autor: Augustus Nicodemus
Fonte: O Tempora! O Mores!
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Davi dançou, eu também quero dançar!

Este é um dos argumentos que mais escuto da parte daqueles que defendem a "dança litúrgica" durante os cultos públicos nas igrejas evangélicas. Se o rei Davi dançou diante da arca de Deus, quando a mesma estava sendo trazida de volta para Jerusalém, por que nós não podemos, da mesma forma, expressar nossa alegria diante de Deus em nossos cultos, com danças de caráter religioso? Afinal, a Bíblia menciona não só Davi, mas Miriã e outras pessoas que dançaram de alegria na presença do Senhor (a imagem ao lado de Davi dançando é do famoso pintor francês James Tissot).
Não consigo me convencer com este argumento. Eu sei que existem outros, mas este, em particular, não me convence. Não é que eu seja contra a dança em si. Sinceramente, não vejo como considerar a dança como um ato pecaminoso, como parece que alguns segmentos evangélicos fazem. Se Davi dançou, e com ele outros personagens da Bíblia, isto pode não provar que devemos dançar em nossos cultos, mas no mínimo é uma evidência de que a dança em si não é pecaminosa, errada ou imprópria para o cristão. A não ser, é claro, aquelas danças sensuais, provocativas, eróticas ou, no mínimo, sugestivas, que despertem paixões e a lascívia. Nesse caso, me junto aos Pais da Igreja, como Basílio, João Crisóstomo, Agostinho, Tertuliano, entre outros, que condenaram veementemente este tipo de dança por parte parte dos cristãos.
Mas, nem toda dança é sensual. Quando eu estava estudando para meu doutorado nos Estados Unidos frequentava com minha família uma igreja presbiteriana muito firme biblicamente. Uma vez por mês os casais da igreja se encontravam no salão social num sábado a noite onde, liderados pelo pastor e sua esposa, ouviam música country, jazz, clássica, e eventualmente dançavam (cada um com seu cônjuge, veja bem!). Minha esposa Minka e eu estivemos lá umas poucas vezes. Nós mesmos não chegamos a dançar, sou meio duro nas articulações e daria um espetáculo horroroso, matando a Minka de vergonha... hehehehe. Mas foi uma experiência muito interessante, que me marcou pela alegria, naturalidade e pureza do evento. E serviu para demonstrar o que eu já pensava, que dançar em si não é pecado.
Voltemos a Davi. Por que então não consigo aceitar que o exemplo dele é definitivo como base para as danças litúrgicas, ministérios de coreografia, dança profética e grupos de danças durante os cultos?
Bem, primeiro porque não acredito que devamos fazer normas ou estabelecer princípios gerais para a vida da igreja simplesmente a partir de atos, ações, eventos, incidentes envolvendo os heróis da Bíblia. Nem tudo o que aconteceu na vida deles pode virar paradigma para os cristãos. A não ser aquelas coisas que a própria Bíblia determina. Jesus, por exemplo, recomendou que imitássemos Davi em sua atitude para com a lei cerimonial (Mat 12:3). Davi é citado como homem segundo o coração de Deus (Atos 13:22), que serviu a Deus em sua própria geração (Atos 13:36), no que deveria ser imitado. Sua fé o coloca na galeria dos heróis da fé em Hebreus (11:32) e serve de exemplo para nós. Ainda poderíamos mencionar seu arrependimento e contrição após ter pecado contra Deus (Salmos 32 e 51). Tais coisas são norma e regra geral para todos os cristãos. Isto não significa, todavia, que cada atitude de Davi sirva de modelo para nós.
Uma segunda dificuldade que tenho é com este tipo de interpretação, muito popular hoje entre os evangélicos, que simplesmente transpõe para nossos dias os eventos históricos narrados na Bíblia, sem levar em consideração o contexto cultural, histórico, teológico e literário dos mesmos, e os usa como base para construir ritos, práticas e regras a serem seguidos nas igrejas cristãs. Moisés bateu com a vara na rocha - lá vem a reencenação do episódio nas igrejas como símbolo da vitória. Ouvi falar que a derrubada da muralha de Jericó foi recentemente reencenada numa igreja (usando uma muralha de isopor e gelo seco) como base para se clamar a vitória para o ano de 2009. E por ai vai. A lista é enorme. No caso de Davi, não poderíamos esquecer que na cultura do Antigo Oriente as danças eram usadas como manifestação popular pelas vitórias militares obtidas, e eram geralmente lideradas pelas mulheres. Foi o caso com a dança de Miriã (Ex 15:20), a filha de Jefté (Juízes 11:34), as mulheres de Judá (1Sam 18:6) e a própria dança de Davi (2Sam 6:20). Ao que parece, o povo saia em passeata dançando em roda (sobre dança de roda, veja Juízes 21:21 e 23). Até onde sei, no Brasil não se costuma celebrar as vitórias com danças de roda. As danças têm outra conotação e servem a outros propósitos, nem sempre moralmente neutros.
Tudo bem, vá lá. Vamos supor, por um momento, que a dança de Davi sirva de base para nós, cristãos. O que o evento lúdico do rei de Israel poderia nos autorizar? Com certeza, não autoriza que dancemos nos cultos públicos de nossas igrejas, pois a dança de Davi foi numa passeata religiosa, nas ruas de Jerusalém, algo espontâneo e do momento. Ele não marcou um culto no templo de Jerusalém, que era o local determinado por Deus para os cultos a Ele, onde foi dançar de alegria perante o Senhor. Até onde eu sei, nos cultos determinados por Deus no Antigo Testamento não havia dança alguma. Deus não determinou a dança como elemento de culto, não há qualquer registro de que as mesmas fizessem parte do culto que lhe era oferecido no templo. E acho que os apóstolos e primeiros cristãos entenderam desta forma, pois não há danças nos cultos do Novo Testamento.
Se formos usar o exemplo de Davi como base, chegaremos à conclusão que a dança dele também não autoriza a criação de grupos de dança litúrgica nas igrejas, que se apresentam regularmente nos cultos. Não justifica nem a criação dos ministérios de dança e a descoberta do dom espiritual da dança litúrgica e profética. A dança de Davi foi um evento isolado e individual. Não foi feita por um grupo que treinava e ensaiava para se apresentar regularmente nos cultos do templo. Aliás, não encontro no Antigo Testamento qualquer indicação de que havia em Jerusalém um grupo de levitas que se dedicavam ao ministério da dança litúrgica e que se apresentavam regularmente durante os cultos no templo de Deus. E deve ser por isto que também não encontramos estes grupos no Novo Testamento. Acho que o rei de Israel cairia de costas se ele visse tudo o que se inventou hoje no culto a Deus com base naquele dia em que ele saltou de alegria diante da arca do Senhor.
Por último, acho que este tipo de argumento, "Davi dançou, eu também quero dançar", deixa de lado alguns princípios importantes sobre o culto que devemos prestar a Deus. Primeiro, que embora toda nossa vida seja um culto a Deus (veja 1Cor 10:31), Ele mesmo determinou que seu povo se reunisse regularmente para cultuá-lo, cantar louvores a seu Nome, buscá-lo publicamente em oração e ouvir Sua Palavra. Uma coisa não exclui a outra, mas não devem ser confundidas. Nem tudo que cabe na minha vida diária como culto a Deus caberia no culto público e solene. Por exemplo, posso plantar bananeira para a glória de Deus, mas não vejo como justificar isto no culto público regular das igrejas. Cabia perfeitamente a Davi dançar de alegria naquele dia, na procissão de vitória, nas ruas de Jerusalém. Todavia, não o vemos fazendo isto no templo de Jerusalém, durante os cultos estabelecidos por Deus.
Segundo, não podemos inventar maneiras de cultuar a Deus além daquelas que Ele nos revelou em Sua Palavra. Os elementos que compõem o culto a Deus, até onde eu entendo a Bíblia, são a oração, o cantar louvores, a ação de graças, a leitura e pregação da Palavra, as contribuições voluntárias de seu povo, o batismo e a Ceia (quando houver). É claro que a Bíblia não estabelece ritmos musicais, não nos dá orações fixas e nem mesmo uma ordem litúrgica a ser seguida. Mas, ela nos dá os princípios e os elementos do culto que Deus aceita. A questão, portanto, não é se Davi e outros heróis da fé dançaram, mas sim se as danças litúrgicas fazem parte daquele culto que Deus determinou em Sua Palavra. E mesmo que eu não tenha nada contra o dançar em si, não vejo como as danças possam ser enquadradas como elementos de culto.
Enfim. Ao ler a história da dança de Davi o que aprendo é o amor que ele tinha ao Senhor, e a alegria que o dominava pelas coisas de Deus. Aprendo que devo amar ao Senhor e me alegrar com as coisas dele à semelhança de Davi. Todavia, não creio que a maneira com que Davi expressou estes sentimentos seja elemento de culto para os cristãos. O texto está muito longe de requerer isto. Sei que vou escandalizar muita gente ao dizer que eu não veria problemas com grupos de coreografia para evangelizar ou mesmo para participar em reuniões sociais dos jovens e adolescentes de nossas igrejas (sobre boate evangélica, falaremos em outra oportunidade). Mas o culto público a Deus, quer nos templos, quer em qualquer outro lugar, é regido pela regra: "só devemos adorar publicamente a Deus com aqueles elementos de culto que encontramos na Bíblia".
Termino lembrando que neste post estou interessado apenas no uso do episódio da dança de Davi como base para as danças litúrgicas. Há vários outros argumentos usados para defender esta prática, cada vez mais comuns nas igrejas evangélicas (como por exemplo o Salmo 150), que não receberam atenção aqui, mas que podem ser alvo de uma futura postagem sobre o assunto.

Autor: Augustus Nicodemus
Fonte: Tempora! Mores!
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Crítica da forma, redação e das fontes, o que é isso?

Embora muito conhecidos por todo mundo os três primeiros livros do Novo Testamento possuem peculiaridades e diferenças entre si. Nos mais variados pontos pode chegar a conclusão de que não se sabe o tanto que é necessário dos evangelhos sinóticos. Os registros possuem grande e ampla variedade e particularidade que um estudo desses se torna essencial para responder algumas perguntas que podem surgir na mente de qualquer leitor. Entre elas pode se estar o motivo dos evangelhos serem escritos, por que tais palavras foram usadas, a estrutura histórica e até mesmo se são dignos de confiança. A critica da forma, critica das fontes e critica da redação pode ajudar quanto a isso.

Os evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) são assim denominados devido a sua semelhança estrutural e seu foco no evangelho de Jesus “na Galiléia, retirada para o norte (tendo por clímax e ponto de transição a confissão de Pedro), ministério na Judéia e Peréia quando Jesus se dirigia para Jerusalém (algo não tão claro em Lucas) e o ministério final em Jerusalém” (D.A Carson, Pg 19). O evangelho de João tem seu foco diferente e possui em sua maioria narrativas que estes evangelistas não registraram. 

A palavra sinótico vem do termo grego (synopsis) e tem como seu significado “ver em conjunto, ou visão semelhante”. Esses três primeiros evangelhos possuem em seu conteúdo discursos (parábolas), exorcismos e milagres muito semelhantes e ao mesmo tempo registros únicos, com ênfases diferentes e estrutura própria em alguns textos. Sobre o que eles tem mais em comum está a língua em que foram escritos, a saber o grego. São narrativas que apresentam Jesus mais ativo do que o evangelho de João. 

Em suma podemos dizer que a compilação desses evangelhos individualmente tiveram três pilares fundamentais, e estes são, fontes oculares e orais (critica da forma), fontes escritas (critica da fonte) e os próprios registros pessoais de cada autor (critica da redação). 

A critica da forma diz a respeito de como os dados orais foram unidos e formaram os evangelhos sinóticos. Surgiu por volta do século 19 e tem com seu objetivo mostrar a invalidade ou a validade dos registros neotestamentários. Alguns estudiosos chegam a afirmar que os registros foram escritos a medida que os problemas na comunidade cristã iam aparecendo, ou seja, o evangelho foi fruto do acaso e de invenções falaciosas. Por mais que os críticos tentem de alguma forma negar a historicidade e autenticidade do evangelho uma analise mais cuidadosa de seus argumentos prova que eles estão errados em sua abordagem interpretativa. Um dos seus argumentos que podem ser facilmente derrubaos é de que a Igreja primitiva modificou e acrescentou detalhes nas narrativas compiladas. A resposta que se pode dar é como esses que estão prestes a morrer por Cristo poderiam deixar que falsos ensinos e narrativas fossem ditas sobre Jesus e sua vida e permanecessem sem fazer nada. A crença na verdade cristã faria com que esses rejeitassem tudo aquilo que não poderia ser crido como fé escrita. A sociedade da época tinha como pano de fundo uma cultura judaica e um apego a verdade. Muitos deles tinham capacidade intelectual de memorizar os fatos e palavras e transmiti-los com fidelidade, assim sendo o argumento de uma modificação nos relatos tornaram-se inválidos e de má fé. Como eles poderiam falar de Jesus sendo salvador dos gentios sendo que nos evangelhos fica claro que seu objetivo era salvar as ovelhas perdidas da casa de Israel. 

A critica da fonte fala a respeito de registros históricos escritos no inicio da construção dos evangelhos sinóticos. Essa parte do estudo mostra e tenta explicar como e por que existem textos semelhantes tanto gramaticalmente, como em sua estrutura literária e ordem histórica. 

Para explicar a critica da forma os estudiosos defendem a idéia da interdependência dos evangelhos. Os autores utilizaram fontes escritas e também se apoiaram nos evangelhos canônicos que já existiam. A estrutura que eles possuem em comum bem como a vasta repetição de textos revela que haviam registros para que eles se apoiassem e que também consultaram e estruturaram seus evangelhos baseados em um evangelho anterior. Para os estudiosos a fonte em que os evangelistas se basearam é tanto ocular como oral.

O que se conclui ao observar a estrutura dos evangelhos é que eles estão em sua maioria baseados em Marcos. O registro narrativo de Marcos é muito semelhante a grande parte de Lucas e Mateus e serve como ponto de referencia e de sequencia histórica para ambos evangelhos. 

Existem teorias que falam sobre duas fontes sem usadas para a compilação, ou de uma fonte que cada autor teve acesso particularmente, bem como de uma fonte que era anterior e serviu como base para os evangelistas. Essas são teorias que pode-se chegar para tentar explicar o relato dos evangelhos. A critica das fontes da sua ênfase em possíveis respostas para a igualdade nos evangelhos, mas afirma que é impossível chegar a uma conclusão exaustiva

Por ultimo a critica da redação criada por Willian Wrede tem seu objetivo focar em como os autores estruturam os evangelhos e por que fizeram daquela forma. De forma clara esse parte da ênfase em como os autores colocaram sua teologia própria, visões e estrutura sobre a vida e obra de Jesus.

Os evangelistas omitiram textos quando comparados a os outros, mas fizeram isso devido a seu foco quando escreveram os evangelhos (seu publico e objetivo os levou a separar relatos que cumprissem seu propósito). Enquanto um da ênfase sobre os rituais judaicos, outro omitiu festas e discursos. A estrutura também pode ver que sofreu modificação, para apresentar Jesus como milagreiro Mateus une vários milagres que ele realizou Lucas da ênfase aos rejeitados da sociedade em quanto Mateus foca na constante ensino de Jesus através de discursos. Podemos ver que Marcos deu ênfase em um texto mais curto e menos detalhado do que os outros escritores. A critica da redação acima de tudo afirma categoricamente que os evangelhos são relatos históricos fidedignos e a peculiaridade de cada autor mostra em si a grande gama de ensino e vida que Jesus mostrou aqui na terra.

A critica da forma, crítica das fontes e a critica da redação foram criadas em si para ajudar a compreender melhor os evangelhos e as possíveis dificuldades que o olhar não atento e não conhecedor desses argumentos pode chegar a acusar os escritos de Mateus, Marcos e Lucas de infidelidade histórica. Um estudo aprofundado revela a beleza daquilo que foi produzido bem como a inteligência de seus autores (inspirados pelo Espírito Santo).

Autor: Wellington Leite da Silva.
Bibliografia:
Introdução ao Novo Testamento; D. A. Carson
Apostila de Introdução ao Novo Testamento; IMPV; Heber Negrão
Paranorama do Novo Testamento; Robert. H. Gundry
Pela Juba do Leão Ap 5.5
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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Jonas e a salvação soberana

Jonas e a salvação soberana

Uma das histórias mais conhecidas da Bíblia é a do profeta Jonas. A rebeldia de Jonas evidenciada na recusa de pregar o arrependimento ao povo de Nínive figura em inúmeros artigos, livros e discussões. Na maioria dos textos, os destaque são para o coração endurecido do profeta e para a sua tentativa de fugir de Deus. Este artigo, porém, propõe-se a enfatizar a confiança de Jonas quanto à salvação somente no Deus de Israel.

No começo do livro observamos a ordem de Deus para Jonas ir a Nínive e proclamar uma mensagem contra ela, dizendo: “dentro de 40 dias Nínive será subvertida” (v. 3.4). Não concordando como o comando divino, o profeta rebela-se vai a Társis (uma das cidades mais distante no mundo de até então). Concordo com a maioria dos estudiosos que pontuam que o profeta não queria pregar, porque odiava os assírios. Mas a razão de Jonas se recusar a pregar aos ninivitas é revelado no capitulo 4: “Ah! SENHOR! Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal” (v.4.2)

Não quero justificar as ações de Jonas. Aquilo que ele fez não é digno de ser repetido, mas o conteúdo da sua fé no poder de Deus salvar pecadores (nesse caso gentios) deve ser pensado e refletido. Jonas era um homem que conhecia o amor do Deus que servia. Desde menino, ele aprendeu a confiar no que as Escrituras falavam a respeito de Deus. No barco ele disse aos marinheiros quem era o Deus que ele servia. “Sou hebreu e temo ao SENHOR, o Deus do céu, que fez o mar e a terra “ (v.1.9). Aqueles homens não sabiam o que estava acontecendo naquela tempestade, mas o profeta tinha plena confiança de que o seu Deus estava controlando os ventos e as fortes ondas. Ele sabia que o seu Deus socorre os angustiados e que a salvação pertence unicamente Ele.

Tudo que Jonas fez (fugir de Deus e dormir tranquilamente num barco como se não fosse do Deus Todo-Poderoso, onisciente, que estivesse se escondendo) foi devido a sua confiança a respeito da ação de Deus em salvar os povos. Ele fugiu pois sabia que Deus iria salvar o povo de Nínive. O profeta tinha certeza de que, se convocasse ao arrependimento povo mais perigoso, cruel e assassino do mundo, teria êxito na sua missão. Por mais cruéis e depravados que os assírio fossem, Jonas, pela fé na salvação de Deus, estava cônscio de que os ninivitas certamente se converteriam dos seus maus caminhos e seriam contados como povo de Deus. A confiança inabalável de Jonas na salvação de Deus é sobremodo digna de imitação, embora suas ações escancarassem que não amava aquele povo.

O cerne do fluxo da narrativa bíblica é que Jonas sabia que o coração mais corrupto, duro e negro seria transformado pelo poder de Deus. As ações de profeta são uma mistura de raiva, indignação e, sobretudo, fé no Deus que, na sua infinita misericórdia, converte corações até mesmo dos seus inimigos.

A pergunta que fica para refletirmos é essa: Será que estamos crendo que através da pregação das Escrituras as pessoas ainda podem ter corações convertidos? Cremos que Deus salva as pessoas através da pregação do Evangelho? Se Jonas estivesse aqui, ele diria, com toda certeza: “ Sim, Deus converte corações de pecadores rebeldes”. E você, o que você diria?

Autor: Wellington Leite da Silva
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domingo, 6 de novembro de 2016

5 Solas: Sola Gratia, Sola Fide.

Sola Gratia, Sola Fide.

Continuando a série de 5 artigos sobre as Solas da Reforma: Somente a Graça Somente a fé.

Os que confiam em si mesmo para a salvação de suas almas, são como loucos que pensam que um simples barquinho de papel pode suportar uma tempestade furiosa no meio do mar. No homem não existe nada que o capacite a levantar-se diante de Deus no último dia e dizer que a sua salvação é inteiramente por causa de seus méritos alcançados aqui nesta terra. A parcela do homem em sua salvação é menos do que o nada. A salvação nunca é merecida. Ela não depende da capacidade do pensamento do ser humano, muito menos de sua bondade ou carisma. Ela é exclusivamente pela graça, mediante a fé. Aqueles que são salvos em Cristo Jesus podem se alegrar de que Deus em sua misericórdia disponibilizou tudo o que é necessário para salvação. O conteúdo do evangelho( nascimento, vida, morte, ressurreição, ascensão, segunda vinda e eternidade) e a confiança no mesmo( ato de crer nas verdades reveladas nas Escrituras devido a capacitação do Espírito Santo) são dádivas que vem do eterno Deus.

O conteúdo do Evangelho essencialmente diz a respeito do amor de Deus que enviou seu Filho para nascer da virgem Maria, viver uma vida de santidade e retidão, ter um ministério publico, ser rejeitado pelo seu próprio povo, sofrer nas mãos de pecadores, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. Revela também que um dia Ele voltará e julgará vivos e mortos, levando para o teu Reino seus escolhidos e lançará no lago de fogo os que se mantiveram rebeldes até o fim. Mostra como Deus o Pai em sua infinita sabedoria determinou o plano da salvação, o Filho veio e cumpriu os propósitos do Pai e ambos, Pai e Filho, enviaram o Espirito Santo para regenerar o coração dos pecadores, para que esses possam crer no sacrifício de Jesus Cristo e terem a vida eterna (Jo 17.3; Ef 1.3-23).

A fé é também o meio pelo qual recebemos todos os benefícios que Cristo nos proporcionou mediante sua vida perfeita aqui na terra, sua morte e ressurreição, ascensão e seu reinado junto ao Pai . Fé é a declaração pessoal de que somos pecadores e somente aquilo que Jesus fez pode nos libertar das consequências do pecado aqui e no futuro. Fé é uma dom, um presente gracioso que Deus nos dá.

Vivemos em um cenário religioso que tem seu foco inteiramente voltado para as obras realizadas pelos homens como sendo a base de sua salvação. Nos púlpitos pregações que deturpam o sentido verdadeiro do Evangelho ganham destaque e sacrifícios são requeridos para que o pecador possa ser aceito. Está sendo ensinado de que a salvação é conquistada pela força ( atitudes realizadas), por merecimento (bondade inerente ao homem) e por pagamentos de determinados valores para recebimento de bençãos.

Não!não devemos jamais compactuar com tais declarações. Do início ao fim somente a fé e necessária para a salvação. Fé essa que nos é dada por Deus ( Ef 2.8-9). Conteúdo e e confiança que nos foi dado por livre, soberano e gracioso amor. Temos a revelação da Escritura e a capacitação de crer nelas devido a graça imerecida que vem do Deus triuno.

Um dos alicerces da Reforma era de que somente a Fé é o instrumento pelo qual somos salvos. O gracioso Deus que nos escolheu e nos salvou é agora o mesmo que nos capacita em crer em tudo o que Ele fez em nosso resgate. Que nossos corações possam se encher de alegria e glorifica-Lo por tudo isso. 

Autor: Wellington Leite da Silva
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terça-feira, 25 de outubro de 2016

5 Solas: Sola Gratia

Sola Gratia

A palavra graça, nos termos bíblicos, é um favor divino imerecido que é recebido por aqueles que nada merecem. O Deus santo, puro, desce à terra e salva o seu povo do lodaçal do pecado, selando a paz consigo mesmo. Salvação esta que não pode ser comprada, tampouco conquistada pelos homens. Ela pertence unicamente ao Salvador Jesus Cristo.
A Igreja de Roma, nos tempos de Martinho Lutero, pregava e ensinava que a observância minuciosa das instruções eclesiásticas tinha autoridade para salvar o povo da condenação eterna, uma vez que acreditavam serem detentores da autoridade apostólica de Pedro. A junção entre a devoção e os sacramentos, segundo criam, eram meios de obter a graça de Deus. A salvação, portanto, não era pela graça, mas pela prática das obras impostas pela Igreja.
Em uma manobra urgente e objetiva para construir a Basílica de São Pedro e o Vaticano, o Papa Leão X teve a brilhante idéia de vender indulgências, objetivando angariar fundos para tais monumentos. Um simples pedaço de papel era vendido com a assinatura do então líder da Igreja de Roma, com a promessa de que aqueles que o adquirissem teriam seus pecados perdoados, e até mesmo seus parentes mortos poderiam receber libertação do purgatório (estágio intermediário em que a pessoa que será salva deve pagar seus pecados e então ascender aos céus). O curioso é que não eram todos os pecados que eram perdoados, mas somente aqueles que o dinheiro poderia “pagar”. Até mesmo pecados futuros poderiam ser comprados. Conta a história de que o principal pregador das indulgências, chamado Tetzel, visitou uma vila para vendê-las, a fim de arrecadar fundos para a Igreja, quando um homem perguntou a ele: “o senhor vende perdão de pecados futuros?”. Tetzel, com seu coração ambicioso, respondeu: “com toda certeza”; O pregador obteve sucesso na venda de indulgências e partiu estrada afora. Mas, para surpresa do religioso, o homem, que a pouco comprara o perdão de seus pecados, o seguiu e anunciou um assalto. Tetzel asseverou dizendo que aquilo era pecado, mas o assaltante, debochadamente, disse: “pode até ser, mas eu já estou perdoado por ele. Olhe aqui meu perdão.”, mostrando a indulgência.
Martinho Lutero, ao visitar Roma, deparou-se, por todos os lados, com a corrupção e degradação da fé bíblica. Ele percebeu claramente que o clero romano nunca houvera pregado sobre a indizível beleza da salvação pela graça; antes, ensinava, equivocadamente, que homens e mulheres obstinados, de consciência suja, poderiam escapar do inferno, por meio da compra de indulgências.
Passaram-se quase 500 anos desde então, mas a prática daquele tempo ainda é viva nos dias de hoje. Mercadores da fé vendem a salvação da graça por uma nota de cem reais. Peregrinações e mais peregrinações são feitas em nome de um sacrifício a mais para a salvação. Insanamente, obras e mais obras são acrescentadas em uma velocidade proporcional ao esforço empregado para refutar a salvação pela graça, alegando que esta serve de pretexto para a prática do pecado. Homens gritam, no púlpito, que a salvação depende, numa parte, da ação do homem e, noutra parte, do agir de Deus. Rejeitam veementemente que a graça, do início ao fim, é suficiente na salvação do homem.
Graça esta que nos libertou do pecado. Que, por iniciativa totalmente divina, alcançou pecadores, de modo sublime e insondável. Recebemos algo que não merecíamos. Viveremos algo que nunca vamos merecer. A salvação de pecadores é pela GRAÇA.
Que possamos mergulhar nas Escrituras e ter nossos corações crentes nessa verdade. A salvação é pela graça, mas não foi conquistada de graça. O preço foi o sangue do unigênito de Deus que graciosamente morreu em nosso lugar para que possamos ser salvos.

Graça sobre graça é o que temos recebido.

Autor: Wellington Leite da Silva
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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A Morte do Rei da Glória

O REI DA GLÓRIA

De Salvador do mundo a um verme digno de ser traído e rejeitado publicamente. Há cerca de dois mil anos, acontecia o mais cruel assassinato da história da humanidade. Judas Iscariotes conduzia rumo ao Getsêmani uma multidão, armada com espadas e cassetetes, enviada pelos chefes dos sacerdotes, líderes religiosos e mestres da lei, para prender Jesus de Nazaré.
Os algozes de Jesus marcham a passos firmes, entoando gritos de ódio, despertando curiosidade pelas ruas por onde passam. Atônita, a população debruça-se nas soleiras das janelas, observando o exército do Sinédrio passar. Muitas pessoas se juntam à multidão a fim de acompanhar o desfecho daquele que seria um dia macabro.
Preso. Acorrentado. Arrastado como um cão diante do povo que o havia recebido dias antes como rei. Os soldados tiram a roupa de Jesus e o prendem pelo pulso a uma coluna do pátio do Pretório de Pilatos. Como selvagens, golpeiam a sua pele nua. A pele se dilacera e se rompe; o sangue espirra. A cada golpe Jesus reage com um espasmo de dor. Depois, uma coroa de espinhos mais duros que os de acácia lhe é pressionada sobre a cabeça. Os espinhos penetram no couro cabeludo, fazendo-o sangrar. A cabeça lateja e as forças se esvaem. O corpo todo treme tal qual uma cidade abalada por um implacável terremoto.
Depois, Jesus, completamente ensanguentado e dilacerado, é apresentado diante da multidão feroz, que o condena à morte, gritando repetidamente: "Soltem Barrabás!". De pés descalços e com as pernas trêmulas, Ele caminha aproximadamente 600 metros rumo ao Calvário, carregando sobre os ombros uma estaca horizontal de madeira pesando uns 50 quilos. Pregos de cerca de 15 centímetros são fincados nos pulsos a golpes certeiros de martelo. Ele contrai o rosto assustadoramente. Uma dor, agudíssima, insuportável. Enconstam-no na trave vertical fincada no chão do Gólgota, elevam-no abruptamente por meio de cordas. Encaixam, por fim, uma madeira na outra, formando uma cruz. Pregam-lhe os pés. O céu escurece, o sol se retira. Há trevas sobre toda terra.
A respiração, antes descompassada, agora se faz pouco a pouco como a de um asmático. O corpo de Jesus é um véu embebido de sangue. Atraídas pelo sangue, as moscas se juntam ao redor de seu corpo como abutres famintos, mas Ele não pode enxotá-las. As horas na cruz são desesperadoras. Por volta da três da tarde, Jesus, num esforço sobre-humano, dá seu último suspiro: "Está consumado!". Em seguida, curva a cabeça e diz: "Pai, nas tuas mãos eu entrego o meu espírito". E morre.
Perto da cruz, o silêncio fúnebre é rasgado pelos gritos estridentes de Maria, inconsolável pela morte do filho. Pálido e suando frio, João abraça Maria, mas também não consegue conter a lástima. Ele chora como uma criança desamparada. A terra treme e as rochas se partem. Os sepulcros se abrem, revelando seus mortos. A cena é mórbida e aterrorizante. O medo toma conta de toda Jerusalém. Por ocasião do incomum, muitos crêem que Jesus é mesmo o Filho de Deus e se lamentam por o terem assassinado.
José de Arimatéia, membro do Sinédrio, que não tinha concordado com a decisão e o procedimento dos outros, lava e unge com perfumes e óleos o corpo de Jesus e, em seguida, envolve-o numa peça de linho, cumprindo as práticas judaicas relativas ao sepultamento. Em seguida, o corpo é colocado numa sepultura escavada na rocha, selada com uma pedra de moinho pesando cerca de três toneladas, para impedir que os discípulos roubassem os restos mortais de Jesus.
Os dias subsequentes à morte de Jesus são de profunda tristeza. A esperança de muitos parece ter se findado nos grilhões da morte. Perpetua, então, um sentimento de defraudação por toda a nação. A morte é o terror supremo da existência humana. Todos, de igual modo, experimentarão a humilhante condição de impotência e dor diante dela.
Para os discípulos, é difícil, agora, conviver com a realidade atroz de que aquele homem que dizia ser o Messias, o Rei dos Judeus, o Salvador do mundo, tenha sido dilacerado, desfigurado, morto numa cruz e sepultado sem honrarias. Não teve som de trombetas nem cortejo fúnebre. Apenas o choro desvelado de alguns poucos discípulos remanescentes.
A alvorada do primeiro dia da semana desponta. Já faz três dias da morte de Jesus. Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago, ainda em luto, levantam-se de madrugada e vão ver o sepulcro. Para espanto delas, a pedra da entrada foi removida. Um misto de dor, angustia e incerteza invade a alma de Madalena.
Seu coração bate descompassado; um suor frio lhe impregna a face; A boca resseca; e as mãos tremem. Calafrios percorrem todo seu corpo. Então, profundamente triste, lamenta: "Tiraram o meu Senhor do sepulcro".  Mas o que Madalena, atônita, ainda não compreende naquele momento é que a ausência do corpo de Jesus no túmulo testifica a respeito da maior afirmação jamais pronunciada: Cristo ressuscitou! A morte não conseguiu retê-lO. Os grilhões e cadeias da escuridão foram rompidos. Ainda bem que Ele não desceu da cruz.
Depois de aparecer aos discípulos e permanecer algum tempo com eles, Jesus sobe aos céus e dá ordens para que as entradas eternas se abram. Ninguém nunca tinha ousado fazer tal ordenança. As portas da eternidade, então, abrem-se para o Rei da Glória, produzindo um ruído estrondoso similar ao de toneladas de ferro sendo retorcido. As centenas de milhares de anjos, arcanjos, querubins e serafins observam perplexas e com grande temor o primeiro homem a entrar na eternidade. As cicatrizes nas mãos e no seu lado evidenciam a sua natureza eternamente humana. Ninguém se atreve a impedi-lo ou a sequer fitá-lo.
As hostes celestiais o recebem com honrarias dignas de um rei, ao som das vozes e harpas angelicais. Jesus Cristo, finalmente, com autoridade, assenta-se à direita de Deus Pai. A humanidade ganha um representante, alguém como nós, de carne e ossos, sujeito aos mesmos desejos, mas sem pecado; O céu, entroniza o seu único Rei. O mundo angélico, por sua vez, curva-se diante dele e confessa: Ele é o Rei da Glória! O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!"

Obras utilizadas:
A Paixão de Cristo Segundo um Cirurgião,Pierre Barbet
O Verdadeiro Evangelho, Paul Washer
Autor: Paulo Marinho Junior
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terça-feira, 18 de outubro de 2016

Reforma: Sola Scriptura

As cinco Solas. Parte 1 Sola Scriptura

Há 499 anos, no dia 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero escrevera seu nome de maneira indelével na história da Igreja, ao fixar 95 teses em oposição à venda de indulgências, na porta da Igreja católica do castelo Wittenberg, na Alemanha, contrariando os interesses teológicos e econômicos da Igreja Católica. O objetivo do presente artigo não é apresentar um relato ordenado da Reforma Protestante, mas compreender as bases que tornaram possíveis esse movimento, além de considerar a necessidade de retornar aos seus fundamentos. Para tanto, iniciamos, hoje, uma série de cinco artigos das chamadas “Solas” (Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fide, Solus Christus, Soli Deo Gloria).
Sola Scriptura (somente as Escrituras) é o primeiro fundamento, e, sem sombra de dúvidas, é vital para a construção de uma teologia saudável e viva.
No tempo da reforma, a Igreja Católica detinha o poder e a autoridade para interpretar e ensinar a Bíblia. O clero era o único grupo autorizado a estudar e ensinar as Escrituras. Cabia aos fiéis apenas ouvir e obedecer às doutrinas católicas. Esse sistema era fundamentado na autoridade (tradição) dos pais da Igreja. Para a Igreja Católica, o ensino dos antigos líderes cristãos era equivalente à inspiração e suficiência do Antigo e Novo Testamentos e, por isso, seriam dignos de total credibilidade e reverência.
Diante dessa brutal diminuição da suficiência da Escritura, Deus, por meio de Sua infinita graça e bondade, dispôs homens, como John Huss, Girolama Savonarola e John Wycliffe, contra o ensino da Igreja de Roma, pregando, sem reservas, que a única autoridade de fé e prática da Igreja de Cristo Jesus é a Escritura, e tão somente a Escritura. Por causa disto, foram perseguidos e mortos; mas antes contribuíram profundamente para o movimento que tempos depois seria iniciado pelo alemão Martinho Lutero. A este homem foi dado por Deus o privilégio de conduzir a Igreja a um retorno ao padrão bíblico de culto, pensamento e vida cristã.
Os esforços empregados por Lutero em tão nobre causa tomaram proporções inimagináveis, ao ponto do mesmo romper os laços com o catolicismo, originando-se, então, o protestantismo. A Escritura começou a guiar toda a extensão da vida humana (arte, música, trabalho, política e etc.). Hoje, somos herdeiros desse movimento.
Mas concentremo-nos agora nos dias atuais. Vivemos em um tempo em que a interpretação subjetiva, emocionalista, racionalista e por que não dizer herética assola grande parte do movimento evangélico. Assim como nos dias em que Lutero fixou suas famosas teses, o mundo atual rejeita as Sagradas Letras. A prática dos líderes religiosos, hoje, é fundamentar argumentos perversos e destrutivos em versículos analisados fora de contexto, em detrimento do exame diligente dos textos bíblicos. Dessa forma, aprisionam os seus seguidores em correntes de prosperidade, saúde e realizações pessoais. São lobos vorazes, devorando o alimento das ovelhas, a Palavra de Deus, e matando-as por inanição, com esperanças vazias. São ladrões que estão mais preocupados com dízimos e ofertas do que com a vida eterna do povo. São homens que não tem uma fagulha sequer de devoção a Deus e, por isso, negam deliberadamente a natureza da inspiração, a suficiência e autoridade da Bíblia. Dizem, insanamente, que a Escritura é temporal, falível e antiquada. Tão abomináveis quanto falsos mestres, são os que fazem interpretações pessoais da Bíblia, rejeitando os textos que ferem o orgulho humano. Estes não se importam com as Escrituras , tampouco com os que ouvem as exposições bíblicas (1 Tm 4.1; 2 Tm 4.3-4). A igreja atual, imersa nesse sombrio oceano de heresias, necessita tão urgente quanto possível retornar à Sola Scriptura.
Viver guiado pelo texto Sagrado deve ser vital ao crente, pautado pelo amor genuíno a Deus, assim como a água e o ar são necessários para o corpo. Ao ler a Sagrada Escritura, as verdades devem derramar luz em nossa mente como sol do meio-dia, de modo que dissipe toda escuridão. Diante da Palavra, nossos olhos devem estar inundados de amor, tão pululante quanto um coração bombeando sangue para o corpo. Que a leitura bíblica seja minuciosa e repetidamente de Gênesis à Apocalipse, a fim de que, pelo poder de Deus, sejamos influenciados em nossa maneira de viver.
Incessantemente, devemos clamar a Deus por homens do quilate de Moisés, Esdras, Paulo, Timóteo, Calvino, Lutero, Spurgeon e outros mais que colocaram a Escritura no lugar que ela merece o centro da vida crista. Oremos para que, por amor ao seu Nome, o Altíssimo levante pessoas que afirmem, com coragem e amor, a verdade que Somente a Bíblia é a autoridade na vida da Igreja (Sl 119.9,52; Ec 12.13; 2 Tm 3.16-17). Opiniões pessoais, místicas, emocionais e até mesmo racionalistas de nada valem para a saúde da Noiva de Cristo. Entretanto, não devemos nos limitar apenas à prática da oração, apesar de sua indizível importância. Irmãos, estudemos e ensinemos a sã doutrina em nossas Igrejas. Fortaleçamo-nos nas verdades eternas das Escrituras. Com joelhos no chão e olhos atentos ao texto bíblico podemos viver uma nova reforma. Que a Bíblia volte a ocupar o centro de nossos cultos, de nosso trabalho, relacionamentos, pensamentos e sonhos. Que possamos declarar, assim como os reformadores, “somente a Biblia, toda a Biblia.”
Goteje a minha doutrina como a chuva, destile a minha palavra como orvalho, como chuvisco sobre a relva e como gotas de água sobre a erva. Dt 32.2

Pela Juba do Leão, Ap 5.5

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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Vaidade de Vaidades

A vaidade é vencida em nosso relacionamento com Deus (Ec 1.2;12.13-14)

Na caminhada rumo a Jerusalém celestial, somos, por inúmeras vezes, levados a desejar as coisas deste mundo e a fixar nossos olhos nelas. Essas pedras em nosso caminho têm como objetivo tirar o nosso olhar do autor e consumador da nossa fé, resultando numa quebra de relacionamento com Deus.
Estamos caminhando no mundo da Feira da Vaidade, e o que se encontra à venda parece nos satisfazer, mas a satisfação a nós oferecida é efêmera e ilusória. Nessa Feira, os itens mais vendidos são sexo, amor próprio, bens materiais, dinheiro, fama, status, entre outras coisas.
O termo vaidade se encaixa exatamente nesse contexto. Vaidade, de acordo com a Bíblia, é buscar aquilo que não faz sentido, se não estiver alinhado à vontade de Deus. É tentar achar sentido existencial nas coisas e não em Deus. Correndo o risco de ser repetitivo, vaidade é amar tudo que há no mundo ao invés de adorar, amar, temer e se satisfazer no Criador. Um estudo em Eclesiastes possibilitará uma visão clara sobre a inutilidade de uma vida sem Deus, ou seja, vaidade de vaidades ( Ec 1.2).
Em cada centímetro da caminhada cristã, o mundo emplaca como em um outdoor em toda sorte de prazeres. Nas ruas, nas praças, nas lanchonetes, nos nossos empregos e, principalmente, na internet somos bombardeados por inúmeras facetas da vaidade. Satanás, o maior inimigo de nossas almas, conhece exatamente a nossa fraqueza (não por que este é onisciente, mas sim por que, ao cairmos costumeiramente em pecados específicos, expomos nossas transgressões ao universo) e utiliza sua brutal maldade para nos seduzir e convencer de que nosso prazer está nas coisas desse mundo terreno, e não na eternidade, onde Cristo habita.
Talvez você diga que, se tivesse dinheiro, posses, empregados, fama, mulheres e reconhecimento internacional seria uma pessoa completa. O mundo prega, sem reservas, que o ter é ser, que o possuir é dominar e que ser conhecido e receber aplausos é o objetivo último da vida. O mais sábio, sem dúvida, é entesourar no coração o testemunho de Salomão, o homem mais rico e sábio do mundo, que não se recusou a dar prazer algum ao seu coração e no final de tudo declarou que isso tudo é: “vaidade de vaidade, tudo é vaidade (Eclesiastes 1.2).
Salomão não apenas conclui que buscar sentido nos prazeres do mundo é inútil, mas aponta que o propósito da vida é temer a Deus e guardar os mandamentos divinos (Eclesiastes 12.13). O fim último do homem é glorificar a Deus. O mundo, em oposição à Bíblia, diz que o sentido da vida se encontra na satisfação total dos seus prazeres e desejos.
No coração do homem há um vazio, de dimensão insondável, que somente Deus pode preencher. Quanto mais colocamos os nossos prazeres no lugar que é de Deus, mais nos tornaremos reféns de nossos pecados. Essa insana inversão lança o homem cada vez mais fundo no abismo da insatisfação, uma vez que só Deus pode preencher de alegria o coração do homem. Deus dá sentido à nossa vida, por que Ele é a vida. Deus redireciona o propósito da vida em buscá-lO, amá-lO e adorá-lO diariamente. À medida que Deus se torna o centro da nossa vida, encontramos a reposta para a pergunta sobre o propósito da nossa existência. Não somos chamados para sermos ricos, famosos ou felizes com os prazeres desse mundo; antes, somos chamados para glorificar a Deus e viver de acordo com seus mandamentos. Somos chamados para desfrutar de seu amor em um relacionamento intimo pessoal, real e gracioso. Tudo o que fazemos nessa vida que não tenha Deus como centro é vaidade de vaidades.

 

                                                                                                             Wellington Leite da Silva
                                                                                                              Pela Juba do Leão. Ap 5.5
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domingo, 11 de setembro de 2016

Estudos no PENTATÊUCO 4/10

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domingo, 8 de maio de 2016

“Lembrai-vos da mulher de Ló” - Lucas 17:32

“… Aprenda que a mera possessão de privilégios religiosos não salvarão a alma de ninguém. Você pode ter vantagens espirituais de todo tipo; você pode viver e gozar das mais ricas oportunidades e meios de graça; você pode desfrutar da melhor pregação e das instruções mais verdadeiras; você pode morar no meio da luz, conhecimento, santidade e boa companhia. Tudo isso é possível; contudo, você ainda pode permanecer não convertido, e estar perdido para sempre. 
Eu ouso dizer que esta doutrina parece dura a alguns leitores. Eu conheço a idéia de que eles não querem nada mais do que privilégios religiosos para decidirem ser cristãos. Eles não são o que eles devem ser no momento, eles concordam; mas a posição deles é tão difícil, eles argumentam, e suas dificuldades são tantas. Dê-lhes um cônjuge crente, ou amizades cristãs, ou um patrão crente; dê a eles a pregação do Evangelho, os privilégios, e então eles caminharão com Deus. 
Tudo engano! Uma completa ilusão! Para salvar almas, é requerido muito mais do que privilégios. Joabe era o capitão de Davi; Geazi era o criado de Eliseu; Demas era companheiro de Paulo; Judas Iscariotes era discípulo de Cristo; e Ló teve uma esposa mundana e incrédula. Todos eles morreram em seus pecados. Eles baixaram à cova apesar do conhecimento, advertências e oportunidades; e todos eles nos ensinam que os homens necessitam não só de privilégios. Eles precisam da graça do Espírito Santo. 
Vamos valorizar nossos privilégios religiosos, mas não vamos descansar completamente neles. Vamos desejar ter o benefício deles em nossas atividades, mas não vamos colocá-los no lugar de Cristo. Vamos usá-los com gratidão, se Deus no-los der, mas nos preocupemos em que eles produzam algum fruto em nosso coração e vida. Se eles não produzem o bem, eles seguramente causarão dano; eles cauterizarão a consciência, eles aumentarão a responsabilidade, eles agravarão a condenação. O mesmo fogo que derrete a cera endurece o barro; o mesmo sol que faz a árvore vivente crescer, seca a árvore morta e a prepara para queimar. Nada endurece mais o coração do homem, do que uma familiaridade estéril com as coisas sagradas. Mais uma vez eu digo, não são somente os privilégios que fazem as pessoas cristãs, mas a graça do Espírito Santo. Sem isso, nenhum homem jamais será salvo. 
Eu peço aos que leem esta mensagem hoje, que considerem bem o que eu estou dizendo. Você vai para a Igreja do sr. A ou B; você o considera um pregador excelente; você se deleita com seus sermões; você não pode ouvir nenhum outro com o mesmo conforto; você aprendeu muitas coisas desde que você começou a participar do seu ministério; você considera um privilégio ser um dos seus ouvintes.  
Tudo isso é muito bom. É um privilégio. Eu seria grato se ministros como o seu fossem multiplicados. Mas, afinal de contas, o que você recebeu no seu coração? Você já recebeu o Espírito Santo? Se não, você não é melhor que a esposa de Ló.Eu peço para os filhos de pais crentes que gravem bem o que eu estou dizendo. Ser filho de pais crentes é o mais elevado dos privilégios, pois torna-se o alvo de tantas orações. Realmente é uma bênção aprender o Evangelho na nossa infância, e ouvir falar de pecado, de Jesus, e do Espírito Santo, e santidade, e céu, desde o primeiro momento que podemos lembrar. Mas, cuidado para que vocês não permaneçam estéreis e infrutíferos no meio de todos estes privilégios; precavenham-se para que seus corações não permaneçam duros, impenitentes e mundanos, sem se quebrantar às muitas vantagens que vocês desfrutam. Vocês não poderão entrar no reino de Deus pelo crédito de seus pais. Vocês próprios têm que comer o Pão da Vida e ter o testemunho do Espírito nos seus próprios corações. Vocês têm que ter arrependimento próprio, fé própria e sua própria santificação. Senão, vocês não serão melhores que a esposa de Ló. 
Eu peço a Deus que todos os cristãos professos destes dias possam aplicar estas coisas aos seus corações. Que nós nunca esqueçamos que os privilégios sozinhos, não podem nos salvar. Luz e conhecimento, pregações fiéis, meios abundantes de graça e a companhia de pessoas santas são todos grandes bênçãos e vantagens. 
Feliz aqueles que os tem! Mas no final de tudo, há uma coisa sem a qual privilégios são inúteis: a graça do Espírito Santo. A esposa de Ló teve muitos privilégios; mas não teve a graça de Deus em seu coração....”
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Por J.C.RyleRemember Lot’s Wife
Via: Monergismo
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Estudos no PENTATÊUCO 3/10

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Lendo a Bíblia cercados pela pós-modernidade


Meu alvo nessa breve postagem é mostrar como alguns aspectos da pós-modernidade se constituem em sérios desafios à leitura bíblica feita pelos evangélicos, e em especial, pelos reformados. Mencionarei apenas três aspectos. Há muito mais coisas na pós-modernidade que influenciam nossa leitura da realidade e dos textos, mas isso fica para outra vez.

Os reformados — uso o termo para me referir aos cristãos evangélicos que aderem aos credos históricos da Igreja e às confissões reformadas — têm tradicionalmente interpretado as Escrituras partindo de alguns pressupostos. O mais importante deles é que as Escrituras são divinas, em sua origem, infalíveis e inerrantes no que ensinam, seguras e certas no seu ensino. Para os cristãos reformados, a Bíblia é a revelação da verdade. Em decorrência, só existe uma religião certa, a que se encontra revelada na Bíblia. Logo, no raciocínio reformado, tudo o que é necessário à vida eterna e à vida cristã aqui nesse mundo estão claramente reveladas na Escritura. E tais coisas são claramente expostas nela.

Existem alguns aspectos da pós-modernidade que desafiam esse pressuposto central da interpretação reformada das Escrituras.

1) O conceito de tolerância. Eu me refiro à idéia contemporânea de total complacência para com o pensamento de outros quanto à política, sexo, religião, raça, gênero, valores morais e atitudes pessoais, ao ponto das pessoas nunca externarem seu próprio ponto de vista de forma a contradizer o ponto de vista dos outros. Esse tipo de tolerância não deve ser confundida com a tolerância cristã, pois ela resulta da falta de convicções em questões filosóficas, morais e religiosas: “A tolerância é a virtude do homem sem convicções” (G. K. Chesterton). A tolerância da pós-modernidade é fortalecida pela queda na confiança na verdade, atitude típica de nossa época.

É aqui que entra o conceito de “politicamente correto”. Significa aquilo que é aceitável como correto na sociedade onde se vive. É o que se faz em um grupo sem que ninguém seja ofendido. Por exemplo, não é “politicamente correto” tomar atitudes ou afirmar coisas que venham a desagradar pessoas, como emitir valores morais sobre o comportamento sexual das pessoas. É “politicamente correto” ouvir o que os outros dizem sem qualquer crítica, reparo ou discordância explícita. Aqui devemos também notar em especial a preocupação em não ofender as minorias ou grupos oprimidos: afro-descendentes, mulheres, pobres, pessoas do 3º mundo. É claro que o Cristianismo nos ensina a não ofender absolutamente ninguém, mas não por que são minorias ou maioria, e sim por que são feitas à imagem de Deus.

É preciso observar que existe uma tolerância exigida do cristão. Devemos tolerar as pessoas. Todavia, não temos de tolerar suas crenças, quando estas contrariam a verdade de Deus revelada nas Escrituras. Temos o dever de ouvir o que elas tem a dizer, e aprender delas naquilo em que se conformam com a verdade bíblica. Porém, tolerância ao erro, quando a verdade bíblica está em jogo, é omissão.

A tolerância tão característica da pós-modernidade pode afetar a interpretação da Bíblia levando as pessoas a interpretá-la a partir do conceito de “politicamente correto.” Evita-se qualquer leitura, interpretação ou posicionamento que venha a ser ofensivo à sociedade ou comunidade a que se ministra. Textos bíblicos que denunciam claramente determinados comportamentos morais são domesticados com uma leitura crítica que os reduz a expressões retrógradas típicas dos moralistas machistas do século I. Textos que anunciam a Cristo como o único caminho para Deus são interpretados de tal forma a não excluir a salvação em outras religiões.

2) O inclusivismo. Num certo sentido, é o resultado do multiculturalismo do mundo pós-moderno. Não há mais no mundo ocidental um país com uma cultura única e uma raça homogênea. Países ocidentais são multiculturais e têm uma mescla de diversas raças. Para que não se seja ofensivo, e para que se possa conviver harmoniosamente, é necessário ser inclusivista. Isso significa dar vez e voz a todas as culturas e raças representadas.

Na sociedade pós-moderna, o conceito ser estende para incluir os grupos moralmente orientados. Significa especialmente repartir o poder com as minorias anteriormente oprimidas pelas estruturas de poder, como afro-descendentes, “gays”, mulheres, pobres e raças minoritárias.

Existem coisas boas do inclusivismo multiculturalista, como por exemplo, estudos nos meios acadêmicos sobre a cultura de raças minoritárias e oprimidas no ocidente, como africanos, hispânicos e orientais. Também a criação de bolsas de estudos e empregos para membros destas minorias raciais, bem como de grupos oprimidos, como as mulheres. Ainda digno de nota é a luta contra discriminação baseada tão somente em raça, religião, postura política e gênero.

Mas existem coisas que nos preocupam no inclusivismo. A maior de todas é que o inclusivismo exclui qualquer juízo de valor em termos morais, religiosos, e de justiça. Tem que ser assim para que o relacionamento multicultural e multi-moral funcione.

O inclusivismo acaba também influenciando na interpretação bíblica. Sua mensagem é abordada do ponto de vista do programa das minorias. Por exemplo, a chamada “teologia negra,” a teologia da libertação, teologias feministas. Outra coisa é a tendência cada vez mais forte de se publicarem traduções da Bíblia sem linguagem genérica ofensiva, isto é, tirando todas as referências a Deus como sendo homem, etc.

3) O relativismo. No que tange ao campo dos valores e dos conceitos morais e religiosos, é a idéia de que todos os valores morais e as crenças religiosas são igualmente válidos e que não se pode julgar entre eles. A verdade depende das lentes que alguém usa para ler a vida. O importante é que as pessoas tenham crenças, e não provar que uma delas é certa e a outra errada. Não há meio de se arbitrar sobre a verdade porque não há parâmetros absolutos. Desta forma, alguém pode crer em coisas mutuamente excludentes sem qualquer inconsistência.

Dessa perspectiva, ninguém pode tentar mudar a opinião de outrem em questões morais e religiosas. Existem alguns perigos no relativismo quanto à leitura da Bíblia. Primeiro, o relativismo acaba por minar a credibilidade em qualquer forma de interpretação que se proponha como a correta. Segundo, acaba por individualizar a verdade. Cada pessoa tem sua verdade e ninguém pode alegar que a sua é superior à dos outros. Portanto, ninguém pode ter a pretensão de converter outros à sua fé.

Muitos cristãos são tentados a suavizar a sua interpretação da mensagem do Evangelho, excluindo os elementos que não são “politicamente corretos” como: pecado, culpa, condenação, ira de Deus, arrependimento, mudança de vida. Acaba sendo uma tentação de escapar pela forma mais fácil do dilema entre falar todo o conselho de Deus ou ofender as pessoas.

Esses são alguns dos perigos que a pós-modernidade traz à leitura e interpretação das Escrituras. Reconhecemos a contribuição da pós-modernidade em destacar a participação do contexto e do leitor na produção de significado, quando se lê um texto. Porém, discordamos que isso invalide a possibilidade de uma leitura das Escrituras que nos permita alcançar a mensagem de Deus para nós e de ouvir a voz de Cristo, como Ele gostaria que ouvíssemos.
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Por Augustus Nicodemus Lopes
Fonte: Bola de Fogo
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