quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Calvinistas evangelizam?

Os calvinistas têm sido acusados pelos arminianos de não evangelizarem, e a causa, dizem eles, são suas doutrinas. O que temos a dizer com relação a isso?

Antes de mais nada, é preciso determinar a que calvinistas tais arminianos se referem. Boa parte dos, assim chamados, calvinistas modernos - membros de igrejas de confissão calvinista - há muito, se tornou arminiana. Influenciados pela avalanche arminiana, mas sem esta tradição, tais pessoas tornaram-se imitadoras do arminianismo. A preocupação de muitos está concentrada em reivindicar participação no culto, uso abundante de instrumentos musicais, corinhos, palmas, apelos, etc. Eles de modo algum, entretanto, subscrevem (ou mesmo conhecem) as antigas doutrinas da graça. Não é correto, portanto, incluir tais pessoas entre os calvinistas.

Outra boa parte dos, assim chamados, calvinistas, não passa de meros membros de igreja. Nunca tendo experimentado a graça especial de Deus, tais pessoas se constituem em verdadeira aberração do calvinismo. Como papagaios, repetem algumas das afirmativas mais sublimes das antigas doutrinas da graça sem nenhuma compreensão do que elas significam. Muitos deles podem ser considerados, justamente, hipercalvinistas. São ousados em proclamar que são eleitos, e que, portanto, não podem perder a salvação. Entretanto, com tristeza reconhecemos que dão pouquíssima ou nenhuma evidência de regeneração. 

Existem ainda os hipercalvinistas sinceros. Eles não são muitos em nossos dias, especialmente em nosso contexto, mas existem.

Os arminianos sinceros levam a verdade da responsabilidade humana às últimas conseqüências, inferindo daí, erroneamente, o livre-arbítrio humano e sua habilidade para responder, por si próprio, positivamente ao evangelho, e acabam por negar a soberania de Deus.

Os hipercalvinistas sinceros, de modo semelhante, levam a verdade da soberania de Deus às últimas conseqüências, e acabam negando a responsabilidade humana. Se o homem é totalmente depravado e somente os eleitos de Deus são salvos e alcançados irresistivelmente pela graça eficaz de Deus, então, concluem eles, não é necessário nem lícito oferecer a salvação aos homens. Entretanto, isso não é calvinismo. É hipercalvinismo. É uma distorção do calvinismo.

Eu espero já ter deixado clara a diferença entre o arminianismo, o calvinismo e o hipercalvinismo. O arminianismo e o hipercalvinismo, embora sejam dois extremos, têm em comum o fato de levarem sua lógica às últimas conseqüências. Ao passo que o calvinismo aceita a soberania de Deus e a responsabilidade humana como verdades bíblicas, reconhecendo a incapacidade humana de conciliá-las. Na realidade, o calvinista que não apenas subscreve, mas também discerne e, em alguma proporção, se regozija nas antigas doutrinas da graça, é uma espécie aparentemente em extinção. E, com relação a estes, a acusação arminiana é injusta.

Historicamente, tal acusação não procede. Pelo contrário. Aqueles que têm razoável conhecimento da História da Igreja sabem que as antigas doutrinas da graça representam as verdades que Deus utilizou sobremaneira, sob a influência do Espírito Santo, para expandir a igreja e elevá-la a uma estatura moral e espiritual notável. Quem pode negar o trabalho e a eficácia evangelística dos reformadores, como, por exemplo, Calvino e John Knox? Calvino pregava todos os dias, e a determinação de John Knox em levar Cristo à Escócia ficou bem conhecida na sua oração: “Senhor! Dá-me a Escócia ou eu morro.”

O que dizer dos puritanos e dos líderes evangélicos do século XVIII, tais como Whitefield, Howell Harris, Daniel Rowlands, Jonathan Edwards, dos missionários John Elliot e David Brainerd? O diário de David Brainerd precisa ser conhecido pelos leitores. Esse homem se consumiu na obra missionária, movido pelo amor aos índios americanos. E o que dizer de Spurgeon! Ninguém, talvez, tenha sido o instrumento de Deus para levar a sua graça eficaz ao coração de tantas pessoas como o Príncipe dos Pregadores.

Na época dos holandeses no Brasil, vinte por cento dos seus pastores trabalhavam como evangelistas entre os índios. Os fundadores das sociedades missionárias no século XIX, que levaram o evangelho à Índia, à África, à Austrália e à América do Sul eram todos calvinistas. 

Esses são fatos reconhecidos inclusive por arminianos que conhecem a História da Igreja, embora não consigam explicá-los diante da teologia calvinista.
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Fonte: Trecho do livro Calvinismo: As Antigas Doutrinas da Graça
Autor: Reverendo Paulo Anglada
Onde adquirir: Impresso | E-book
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