domingo, 17 de janeiro de 2016

Palavras do Wesley, parecer do Ryle

Que a teologia e a pregação de Wesley eram substancialmente diferentes da teologia e da pregação arminiana moderna, parece evidente nas suas próprias palavras, proferidas no sermão pregado por ele no funeral de Whitefield, transcritas a seguir:
Não há poder algum no homem para realizar qualquer boa obra, falar qualquer palavra boa, ou manifestar qualquer bom desejo, até que do alto lhe seja dado. 
Portanto, não é suficiente dizer que todo homem está apenas doente por causa do pecado; não, nós estamos todos mortos em delitos e pecados. E todos nós estamos sem esperanças, tanto com relação ao poder, como à culpa do pecado. 
Pois, quem pode tirar alguma coisa pura de algo impuro? Ninguém, exceto o Todo-Poderoso. Quem pode levantar aqueles que estão mortos, espiritualmente mortos no pecado? Ninguém, a não ser Aquele que nos levantou do pó da terra. 
Mas em que consideração Ele faz isso? Não por causa das obras de justiça que tenhamos feito. Os mortos não podem Te louvar, ó Senhor, nem podem fazer qualquer coisa através da qual venham a adquirir vida. 
Qualquer coisa que Deus faça, Ele o faz exclusivamente por amor ao Seu amado Filho. “Ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades.” Ele mesmo carregou em Seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados. Ele foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação. Aí está a única causa meritória de toda bênção que possamos desfrutar ou desfrutamos e, em particular, de nosso perdão e aceitação por Deus, da nossa total e gratuita justificação. 
Mas, por meio de quê nos tornamos interessados no que Cristo fez e sofreu? “Não por obras, para que ninguém se glorie, mas pela fé somente.” “Concluímos”, diz o apóstolo, “que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei”. E “a quantos o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber, aos que crêem no Seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. “Se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.” 
Mas todos os que têm o Espírito de Deus dentro deles, Cristo estabelece Seu reino em seus corações - justiça, paz e alegria no Espírito Santo. Neles há a mente de Cristo, habilitando-os a andar como Cristo andou. Seu Espírito que habita neles faze-os santos com relação à mente e a toda maneira de se comportar. Mas, visto que tudo isto é um dom gratuito, através do sangue e da justiça de Cristo, há eternamente a mesma razão para lembrarem-se: “aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.” 
Vocês não ignoram que estas são as doutrinas fundamentais sobre as quais o Sr. Whitefield insistia. Não podem elas ser resumidas como que em duas palavras: novo nascimento e justificação pela fé? Nisto devemos insistir com toda ousadia, em todo tempo, em todos os lugares, em público e em privado. Apeguemo-nos a estas antigas e imutáveis doutrinas, por maior que seja o número daqueles que as contradigam e delas blasfemem.[¹]
Tal pregação poderia ser considerada hipercalvinista por muitos “calvinistas” modernos. E isto deveria fazer ambos refletirem, arminiano e calvinistas! À luz destas palavras de Wesley, os calvinistas contemporâneos parecem arminianos; e os arminianos “hiperarminianos”!

O seguinte comentário de Ryle, no final da sua pequena biografia de Wesley, sobre a teologia deste, é, portanto, digno de ser considerado:
Eu creio que meu esboço sobre Wesley seria incompleto se não mencionasse a objeção continuamente feita contra ele, de que era um arminiano na doutrina. 
Eu admito plenamente a seriedade da objeção. Não tenciono atenuar ou defender suas objetáveis opiniões. Eu, pessoalmente, não consigo explicar como um crente bem instruído pode sustentar doutrinas tais como a perfeição e deficiência da graça, ou negar doutrinas tais como a eleição e a imputação da justiça de Cristo. 
Mas, apesar de tudo, devemos estar alertas para não condenar as pessoas tão fortemente por não verem todas as coisas conforme nosso ponto de vista, ou excomungar e anatematizá-las porque “não lêem na nossa cartilha”. 
“Tu, porém, por que julgas a teu irmão? E tu, por que o desprezas?” Nós precisamos pensar. Precisamos aprender a distinguir as coisas que constituem a essência do evangelho e coisas que dizem respeito ao aperfeiçoamento do evangelho. Nós podemos achar que um homem prega um evangelho imperfeito ao negar a eleição, ao considerar a justificação como sendo nada mais que perdão e ao dizer aos crentes em uma mensagem que eles podem atingir a perfeição nesta vida, e dizer em outra que podem cair inteiramente da graça. 
Mas, se o mesmo homem, forte e ousadamente, expõe e denuncia o pecado, clara e plenamente enfatiza a Cristo, distinta e abertamente convida homens a crerem e a se arrependerem, ousaremos nós dizer que este homem não prega o evangelho de modo nenhum? Ousaremos dizer que tal homem não produzirá bem algum? Eu, da minha parte, não posso dizer assim, de modo algum. Se me perguntarem se eu prefiro o evangelho de Whitefield ou o evangelho de Wesley, de imediato responderei que prefiro o de Whitefield: eu sou um calvinista e não um arminiano. Mas, se me pedirem para ir além, e dizer que Wesley de modo algum pregava o evangelho e que nenhum benefício trouxe, de imediato direi que não posso fazer isto. 
Que Wesley teria feito melhor se tivesse podido desvencilhar-se do seu arminianismo, eu não tenho a menor dúvida; mas que ele pregou o evangelho, honrou a Cristo e fez imenso bem, eu não duvido mais do que posso duvidar da minha própria existência.[²]
_________
[¹] Ryle, John Wesley. pp. 29-30.
[²] Ryle, John Wesley, pp. 27-28.

Fonte: Trecho do livro Calvinismo: As Antigas Doutrinas da Graça
Autor: Reverendo Paulo Anglada
Onde adquirir: Impresso | E-book
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...