sábado, 30 de abril de 2016

Perniciosos efeitos da incredulidade

Menos fé, mais medo. O medo é produzido pela incredulidade; a incredulidade é fortalecida pelo medo. Assim como na natureza existem ciclos observáveis (o vapor produz chuvas, e as chuvas se tornam vapores novos, etc.), assim também ocorre com os assuntos morais. Consequentemente, toda a habilidade do mundo não pode nos curar da enfermidade do medo, até que Deus nos cure de nossa incredulidade. Por isso, o Senhor Jesus utilizou o método correto para libertar seus discípulos do medo, ao censurar-lhes a incredulidade. Os resquícios deste pecado no povo de Deus são a causa e a fonte de seus temores. Mais particularmente, Cristo os libertou de seu medo para mostrar-lhes como o medo é gerado pela incredulidade e que devemos ser advertidos a respeito de algumas particularidades.
1. A incredulidade enfraquece e obstrui o ato de anuência por parte da fé. Por isso, a incredulidade rouba, em grande medida, o principal alívio da alma contra os perigos e dificuldades. O ofício e a utilidade da fé consistem em tornar real para a alma as coisas do mundo por vir, fortalecendo-a, assim, contra os temores e perigos do mundo presente. “Moisés… abandonou o Egito, não ficando amedrontado com a cólera do rei; antes, permaneceu firme como quem vê aquele que é invisível” (Hb 11.24,27). Se este ato de anuência da fé enfraquecer-se ou mostrar-se vacilante na alma; se as coisas invisíveis parecerem incertas, e as visíveis forem as únicas realidades, não devemos nos admirar de ficarmos tão assustados e amedrontados, quando o bem-estar visível e sensível é exposto e colocado em perigo, conforme ele é e sempre será neste mundo instável. O homem que não está completamente persuadido de que é firme e bom o solo em que pisa, esse homem tem de sentir medo de permanecer em tal solo. Não devemos nos admirar de que os homens tremam quando parecem sentir que o solo balança e se move sob os pés deles.
2. A incredulidade fecha os refúgios que a alma encontra nas promessas divinas; e, por deixá-la sem estes refúgios, coloca-a em temores e pavores. Aquilo que fortalece e encoraja um crente, em tempos maus, é a sua dependência de Deus, no que se refere à proteção.
“Em ti é que me refugio” (Sl 143.9). O ato de privar a alma deste refúgio, perpetrado tão-somente pela incredulidade, despoja-a de todos os amparos e socorros que as promessas proporcionam; consequentemente, enche o coração de ansiedade e temor.
3. A incredulidade torna o homem negligente e descuidado em se preparar para as dificuldades, antes que elas venham, e que vêm sobre ele de maneira surpreendente. E quanto mais surpreendente for um mal, tanto mais atemorizante o acharemos. Não podemos pensar que Noé ficou tão atemorizado quanto o ficaram as demais pessoas, na ocasião do Dilúvio, quando as águas começaram a se elevar sobre os montes e colinas. Ele não tinha razão para ficar com medo, pois havia contemplado antecipadamente o Dilúvio — pela fé — e se preparado para ele. “Pela fé, Noé, divinamente instruído acerca de acontecimentos que ainda não se viam e sendo temente a Deus, aparelhou uma arca” (Hb 11.7). Agostinho relatou uma história muito interessante e memorável a respeito de Paulinus, o bispo de Nola, que era muito rico tanto em graça como em bens. Paulinus tinha muitas coisas do mundo em suas mãos, mas pouco destas coisas em seu coração. E tudo estaria bem, se não fosse pelo fato de que os godos, um povo bárbaro, invadiram a cidade, como demônios, e arremeteram-se contra a sua presa. Aqueles que confiavam em seus tesouros se enganaram e foram arruinados por tais tesouros, pois os ricos foram expostos à tortura, a fim de confessarem onde haviam escondido seu dinheiro. Este amável bispo caiu nas mãos dos godos, perdendo tudo o que possuía, mas não se abateu por causa da perda, como transparece de sua oração, que Agostinho citou: “Senhor, não permita que eu fique atribulado por causa de meu ouro e minha prata. Tu sabes que este não é o tesouro que tenho acumulado no céu, de acordo com o teu mandamento. Fui advertido sobre este julgamento, antes que viesse, e me preparei para ele. E tu, Senhor, sabes onde se encontra todo o meu interesse”.
Assim também agiu o Sr. Bradford, quando um homem veio apressado ao seu quarto e, repentinamente, lhe transmitiu palavras capazes de fazer tremer a maioria dos homens do mundo: “Ó Sr. Bradford, eu lhe trago notícias desastrosas: você será queimado amanhã; e estão sendo compradas as correntes que o prenderão!” O Sr. Bradford retirou o chapéu e disse: “Senhor, eu te agradeço. Há muito tempo espero por isto. Não é terrível para mim. Ó Deus, torna-me digno dessa misericórdia”. Veja os benefícios de uma antecipação e preparação para tais sofrimentos!
4. A incredulidade nos leva a tomarmos sob nossa responsabilidade os nossos mais caros interesses e preocupações; ela não entrega nada aos cuidados de Deus, e, consequentemente, quando perigos iminentes nos ameaçam, enche o nosso coração com temores que nos distraem. Leitor, se este é o seu caso, você ficará cercado por terrores, sempre que perigos e dificuldades lhe sobrevierem. Aqueles que reconhecem este fato, bem como muitos outros, têm a vantagem de que, pela fé, entregam a Deus tudo que é importante e valioso. Eles têm confiado a Deus o cuidado de sua alma e seus interesses eternos. E, visto que estas coisas estão em mãos seguras, tais pessoas não se distraem com temores referentes a outros assuntos de menor importância, mas também podem confiar a Deus tais assuntos, desfrutando assim da quietude e paz de uma alma rendida a Ele. E, quanto a você, leitor, a sua vida, a sua liberdade e a sua alma, que é infinitamente mais importante do que todas estas coisas, estarão sob a sua responsabilidade, no dia de aflição, e você não saberá o que fazer com elas, nem como lidará com elas.
Oh! estes são os terríveis medos e dificuldades nos quais a incredulidade lança os homens! A incredulidade é uma fonte de temores e aflições. De fato, ela distrai e confunde os incrédulos, nos quais reina e se manifesta com pleno vigor. Experiências desagradáveis nos mostram que os resquícios deste pecado produzem temores e tremores até nos melhores homens que não estão completamente libertos dele. Se em tais homens os resquícios não expurgados da incredulidade podem obscurecer e ocultar suas evidências, esses mesmos resquícios podem igualmente aumentar e multiplicar os seus perigos. Se a incredulidade é capaz de produzir essas infelizes e terríveis conclusões no coração desses homens respeitáveis, que temores terríveis e medos incontroláveis a incredulidade pode causar em homens que estão sob o seu domínio e em pleno vigor?
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John FlavelPerniciosos Efeitos da Incredulidade
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A Teologia de João Calvino


As concepções teológicas do reformador João Calvino (1509-1564) estão contidas na sua vasta obra, especialmente em seu opus magnum, a Instituição da Religião Cristã ou Institutas.

1. AS INSTITUTAS

No prefácio da 1ª Edição das Institutas (1536), Calvino afirmou o seguinte:
“Pretendi apenas fornecer algum ensino elementar através do qual qualquer pessoa que tenha sido tocada por um interesse na religião pudesse ser educada na verdadeira piedade. E fui especialmente diligente nessa obra por causa do nosso próprio povo da França. Vi muitos deles com fome e sede de Cristo, mas muito poucos imbuídos com até mesmo um pequeno conhecimento dele. Que é isto que propus, o próprio livro testifica através de sua forma de ensino simples e até mesmo rudimentar”.
Essa primeira edição tinha apenas seis capítulos, que tratavam dos seguintes temas: (1) A lei: exposição do Decálogo; (2) A fé: exposição do Credo dos Apóstolos; (3) A oração: exposição da Oração Dominical; (4) Os sacramentos; (5) Os cinco falsos sacramentos; (6) A liberdade cristã, o poder eclesiástico e a administração política.

Na 2ª edição das Institutas (1539), o reformador passou a ter outro objetivo em mente:
“Minha intenção nesta obra foi preparar e treinar de tal modo na leitura da Palavra Divina os aspirantes à teologia sagrada que eles possam ter fácil acesso à mesma e depois nela prossigam sem tropeçar. Pois penso que abrangi de tal maneira a suma da religião em todas as suas partes, dispondo-a em ordem, que todos os que a assimilarem corretamente não terão dificuldade em determinar tanto o que devemos buscar de modo especial nas Escrituras quanto para que objetivo devem direcionar tudo o que está contido nas Escrituras”.
2. CATEGORIAS DE ESCRITOS

As concepções teológicas de Calvino se encontram em seis categorias de escritos:

1.As Institutas: Calvino produziu ao todo oito edições do texto latino (1536-1559) e cinco traduções para o francês. A 1ª edição tinha apenas seis capítulos; a última totalizou oitenta. Equivale em tamanho ao Antigo Testamento mais os Evangelhos sinóticos e segue o padrão geral do Credo dos Apóstolos. Visava ser um guia para o estudo das Escrituras.

Livro I: O Conhecimento de Deus, o Criador: o duplo conhecimento de Deus, as Escrituras, a Trindade, a criação e a providência.

Livro II: O Conhecimento de Deus, o Redentor: a queda e a corrupção humana, a Lei, o Antigo e o Novo Testamento, Cristo o Mediador – sua pessoa (profeta, sacerdote, rei) e sua obra  (expiação).

Livro III: A Maneira Como Recebemos a Graça de Cristo, Seus Benefícios e Efeitos: fé e regeneração, arrependimento, vida cristã, justificação, predestinação, ressurreição final.

Livro IV: Os Meios Externos Pelos Quais Deus nos Convida Para a Sociedade de Cristo: a igreja, os sacramentos, o governo civil.

2.Comentários: são um complemento das Institutas. Calvino escreveu comentários de todos os livros do Novo Testamento, exceto 2 e 3 João e Apocalipse, e sobre o Pentateuco, Josué, Salmos e Isaías.

3.Sermões: Calvino expunha sistematicamente os livros da Bíblia. Ele costumava pregar sobre o Novo Testamento aos domingos e sobre o Velho Testamento durante a semana. Seus sermões eram anotados taquigraficamente por um grupo de leais refugiados franceses. A série Corpus Reformatorum contém 872 sermões de Calvino.

4.Folhetos e tratados: temas apologéticos (contra católicos e anabatistas) e gerais.

5.Cartas: escritas a outros reformadores, soberanos, igrejas perseguidas e protestantes encarcerados, pastores, colportores.

6.Escritos litúrgicos e catequéticos: confissão de fé, catecismo, saltério.

3. A PERSPECTIVA TEOLÓGICA DE CALVINO

3.1. O conhecimento de Deus
· A verdadeira sabedoria consiste de dois elementos: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos. Daí a importância da revelação. Não podemos conhecer a Deus em sua essência, mas somente na medida em que ele se dá a conhecer a nós.
· Existe um duplo conhecimento de Deus: como criador e como redentor. Todo ser humano é essencialmente uma criatura religiosa, tendo em si a “semente da religião”. Deus se revela não só através desse senso inato de si mesmo, mas também através das maravilhas da criação.
· Esse conhecimento de Deus revelado na natureza exige uma resposta humana, seja de piedade ou idolatria. O fim último da piedade não é a salvação individual, mas a glória de Deus.
3.2. A condição humana
· O pecado torna a revelação natural totalmente insuficiente para o correto conhecimento de Deus. Ela tem somente uma função negativa – deixar os seres humanos inescusáveis por sua idolatria. O ser humano encontra-se perdido como que em um labirinto. A imagem de Deus ainda permanece nele, mas foi totalmente distorcida e desfigurada.
3.3. O Deus que se revela
· Todo verdadeiro conhecimento de Deus decorre do fato de que Deus, em sua misericórdia, houve por bem revelar-se. Calvino usa aqui o conceito de “acomodação” ou adaptação. Deus desce ao nosso nível, adapta-se à nossa capacidade. Vemos isso na encarnação, nas Escrituras, nos sacramentos e na pregação.
· Nas Escrituras, Deus balbucia a nós, fala-nos como uma ama fala a um bebê. Outra figura: a Bíblia é como óculos divinos para os que são espiritualmente míopes. Assim, a verdadeira teologia é uma reverente reflexão sobre a revelação escrita de Deus; não deve, pois, perder-se em “vãs especulações”, mas ater-se às Escrituras.
3.4. A doutrina das Escrituras
· A Bíblia é a Palavra de Deus inspirada, revelada em linguagem humana e confirmada ao crente pelo testemunho interno do Espírito Santo. Calvino tratava o texto bíblico tanto reverentemente quanto criticamente (por exemplo, At 7.14 e Gn 46.27). A capacidade de reconhecer a Bíblia como a Palavra de Deus não depende de provas, mas é um dom gratuito do próprio Deus.
· Calvino afirma a unidade entre a Palavra e o Espírito contra dois erros opostos. Os católicos subestimavam o papel da iluminação ao subordinarem as Escrituras à igreja. Calvino, como Lutero, afirmou que as Escrituras foram o ventre do qual nasceu a igreja, e não vice-versa. Por outro lado, os “fanáticos” concentravam-se de tal modo no Espírito que subestimavam a Palavra escrita.
· Toda a teologia de Calvino foi elaborada dentro destes parâmetros: a objetividade da revelação divina nas Escrituras e o testemunho iluminador do Espírito Santo no crente. A verdadeira teologia deve manter-se dentro dos limites da revelação.
· A função principal das Escrituras é a nossa edificação, capacitando-nos a ver o que de outro modo seria impossível. Seu propósito é revelar o que precisamos saber sobre Deus e nós mesmos.
4. O DEUS QUE AGE

4.1. O Deus trino
· Calvino deu mais atenção à doutrina da trindade que Lutero ou Zuínglio. Ele basicamente sustentou a doutrina da igreja antiga de que Deus é uma única essência que subsiste em três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. Ele advertiu quanto a especulações sobre o mistério da essência divina e recusou-se a torcer a Escrituras para sustentar essa doutrina.
· Como no caso de Atanásio, no quarto século, a Trindade era fundamental por ser um testemunho da divindade de Jesus Cristo e, assim, da certeza da salvação realizada por ele. Somente alguém que era verdadeiramente Deus poderia redimir os que estavam totalmente perdidos.
· A fé na trindade é confessada na liturgia do batismo e na doxologia, não para definir plenamente o ser de Deus, mas somente para permanecer em silêncio diante do mistério da sua presença (Agostinho).
4.2. Criação
· A seguir, ainda no Livro I das Institutas, Calvino descreve a atividade de Deus em relação ao mundo na criação e na providência. O mundo criado é o “deslumbrante teatro” da glória de Deus. Depois que as pessoas são iluminadas pelo Espírito Santo e têm o auxílio dos “óculos” das Escrituras, a criação pode fornecer um conhecimento de Deus mais lúcido e edificante (teologia da natureza), fortalecendo a fé dos crentes.
· Deus criou o mundo a partir do nada (ex nihilo). O mundo foi criado para a glória de Deus, mas também para o benefício da humanidade. Os crentes devem contemplar a bondade de Deus em sua criação de tal modo que seus próprios corações sejam despertados para o louvor (Jonathan Edwards).
4.3. Providência
· Calvino reflete acerca do caráter precário e incerto da vida humana sobre a terra. Sua doutrina da providência não reflete um otimismo piedoso, mas resulta de uma avaliação realista das vicissitudes da vida e da ansiedade que elas produzem.
· Ele critica duas concepções errôneas: o fatalismo e o deísmo. A doutrina estóica do destino pressupõe que todos os eventos são governados pela necessidade da natureza. Calvino pondera que, na concepção cristã, o “regente e governador de todas as coisas” não é uma força impessoal, mas o Criador pessoal do universo, que em sua sabedoria decretou desde a eternidade o que iria fazer e agora em seu poder realiza o que decretou.
· Ele também combate a idéia de que Deus fez o mundo no princípio, mas depois o deixou entregue a si mesmo. Como mostram as Escrituras, Deus está contínua e eficazmente envolvido no governo da sua criação. Assim, a providência é uma espécie de continuação do processo criador, tanto nos grandes como nos pequenos eventos.
· Essa ênfase na atividade imediata e direta de Deus no mundo leva Calvino a rejeitar a teoria traducianista da origem da alma, a idéia de que a alma é transmitida de geração a geração pelo processo da procriação humana (Lutero). Calvino cria que, toda vez que uma criança é gerada, Deus cria uma nova alma ex nihilo.
· Apesar de sua interação direta com o mundo, Deus também pode usar causas secundárias para realizar a sua vontade. Ele pode até mesmo usar instrumentos maus (como Satanás e suas hostes), transformando o mal em bem.
· Se Deus decreta cada evento, onde fica a responsabilidade humana? Calvino responde que a providência de Deus não atua de modo a negar ou tornar desnecessário o esforço humano. As próprias ações humanas são um dos meios pelos quais Deus realiza os seus propósitos.
· O governo divino de todos os eventos não torna Deus o autor do pecado? Assim como Lutero, Calvino distingue entre a vontade revelada e a vontade oculta de Deus. Ao enviar Cristo para a cruz, a Bíblia diz que Herodes e Pilatos estavam cumprindo o que Deus havia determinado (Atos 4.27-28). Ao mesmo tempo, eles também estavam violando a vontade expressa de Deus revelada em sua lei.
· Vez após vez Calvino apela ao mistério e incompreensibilidade das ações de Deus. O problema do mal é tão difícil precisamente porque não podemos entender como as tragédias da vida contribuem para a maior glória de Deus.
· A fé verdadeira percebe que, por trás dos sofrimentos, que em si mesmos são maus, existe um Pai de justiça, sabedoria e amor que prometeu nunca abandonar-nos. Nessas questões, não se pode submeter Deus aos padrões humanos de julgamento.
5. O CRISTO QUE SALVA

5.1. A doutrina do pecado
· A partir do Livro II das Institutas, Calvino trata de Deus, o Redentor. Calvino geralmente é visto como o autor de uma concepção totalmente pessimista do ser humano. Todavia, o reformador sempre mostrou profunda apreciação pelas realizações humanas na ciência, literatura, arte e outras áreas, atribuindo-as à graça comum de Deus. A imagem de Deus no ser humano está terrivelmente deformada, mas não inteiramente apagada.
· Todavia, as muitas virtudes e dons da natureza humana nada valem para alcançar a justificação. Para entender plenamente a natureza humana, é preciso olhar para Jesus Cristo, o verdadeiro ser humano.
· Calvino define o pecado original como “uma depravação e corrupção hereditária de nossa natureza, difundida em todas as partes da alma, que primeiramente nos torna sujeitos à ira de Deus e depois também produz em nós aquelas obras que a Escritura chama de ‘obras da carne’” (Inst., 2.1.8).
· Vale destacar dois aspectos: (a) não podemos simplesmente culpar Adão por nossa condição pecaminosa; o pecado de Adão é também o nosso pecado; (b) o pecado original não se limita a uma dimensão da pessoa humana, mas permeia toda a vida e a personalidade.
· Pecado não é somente o ato, mas a inclinação da própria natureza humana em sua condição decaída. Cometemos pecados porque somos pecadores. A essência do pecado de Adão, que se repete em diferentes graus nos seus descendentes, é orgulho, desobediência, incredulidade e ingratidão. Somente a consciência da nossa total pecaminosidade pode preparar-nos para ouvir as boas novas da libertação do pecado através de Jesus Cristo.
5.2. A pessoa de Cristo
· A teologia de Calvino é profundamente cristocêntrica e o tema que domina a sua cristologia não é o conhecimento de Cristo em sua essência, mas em seu papel salvífico como Mediador. A revelação de Deus em Cristo é o supremo exemplo da sua acomodação à capacidade humana. Precisamos de um Mediador tanto por sermos pecadores quanto por sermos criaturas.
· Cristo como Mediador é verdadeiro Deus e verdadeiro homem (1 Tm 3.16). Ele é o Verbo eterno de Deus gerado do Pai antes de todas as eras, que, em sua encarnação, ocultou a sua divindade sob o “véu” da sua carne.
· Uma formulação peculiar da cristologia de Calvino é o chamado extra Calvinisticum: a noção de que o Filho de Deus tinha uma existência “também fora da carne”. Ver Institutas2.13.4.
5.3. A obra de Cristo
· Mais importante que conhecer a essência de Cristo é conhecer com que propósito ele foi enviado pelo Pai. Calvino explicou a obra de Cristo em conexão com o seu tríplice ofício de Profeta, Rei e Sacerdote, todos os quais eram ungidos no Antigo Testamento, prefigurando o Messias.
· Como Profeta, ele foi ungido pelo Espírito para ser arauto e testemunha da graça de Deus, fazendo-o através do seu ministério de ensino e pregação. Na qualidade de Rei, Cristo atua como o vice-regente do Pai no governo do mundo; um dia sua vitória e senhorio se manifestarão plenamente. Em seu ofício sacerdotal, ele foi um Mediador puro e imaculado que aplacou a ira de Deus e fez perfeita satisfação pelos pecados humanos.
· Calvino observa que Deus poderia resgatar os seres humanos de outra maneira, mas quis fazê-lo através do seu Filho. Ele dá ênfase não tanto à justiça de Deus, mas à sua ira e amor, ambas ilustradas na obra de Cristo. Não somente a morte de Cristo tem efeito redentor, mas toda a sua vida, ensinos, milagres e sua contínua intercessão nos céus, à destra do Pai. A obra expiatória de Cristo tem também um aspecto subjetivo, pelo qual somos chamados a uma vida de obediência.
6. A VIDA NO ESPÍRITO
· Toda a obra de Calvino pode ser interpretada como um esforço de formular uma espiritualidade autêntica, isto é, uma vida no Espírito, baseada na Palavra de Deus revelada, vivida no contexto da igreja e direcionada para o louvor e a glória de Deus. O Livro 3 das Institutas é um belo tratado sobre a vida cristã no qual Calvino elabora uma grande quantidade de tópicos como a obra do Espírito Santo, fé e regeneração, arrependimento, negação de si mesmo, justificação, santificação, oração, eleição e ressurreição. Três deles merecem destaque especial:
6.1. Fé
· Calvino começa por rejeitar certas noções equivocadas: “fé histórica” (mero assentimento intelectual), “fé implícita” (submissão ao juízo coletivo da igreja), “fé informe” (estágio preliminar da fé). O que é então a fé? “Um conhecimento firme e certo da benevolência de Deus para conosco, fundada na verdade da promessa dada gratuitamente em Cristo, revelada a nossas mentes e selada em nossos corações pelo Espírito Santo” (Institutas 3.2.7).
· Antes de ser uma capacidade inata do ser humano, é um dom sobrenatural do Espírito Santo. É também uma resposta humana genuína pela qual os eleitos ingressam na sua nova vida em Cristo. Entre os efeitos da fé estão a regeneração, o arrependimento e o perdão dos pecados.
· O arrependimento é “a verdadeira conversão de nossa vida a Deus, procedente de um sincero e real temor de Deus, que consiste da mortificação de nossa carne e do velho homem e da vivificação do espírito” (Inst. 3.3.5). É um processo contínuo que deve estender-se por toda a vida.
· Embora possa ser assaltada por dúvidas, a fé verdadeira por fim triunfará sobre todas as dificuldades. Os descrentes podem, quando muito, ter uma “fé temporária”. Já os crentes verdadeiros, ainda que cometam pecados, mesmo pecados graves, são sustentados pelo Espírito e finalmente não irão perder-se.
6.2. Oração
· O mais longo capítulo das Institutas é dedicado à oração, que Calvino chamou “o principal exercício da fé e o meio pelo qual recebemos diariamente os benefícios de Deus”. Porém, se toda a vida cristã, desde o primeiro passo até a perseverança final, é um dom de Deus, por que orar? A resposta é que os fiéis não oram para informar ou convencer Deus de alguma coisa, mas para expressarem sua fé, confiança e dependência dele.
· Calvino propôs quatro regras para a oração: (a) reverência: evitar toda ostentação ou arrogância; (b) contrição: deve proceder de um coração arrependido; (c) humildade: ter em mente a glória de Deus; (d) confiança: firme esperança de que a oração será respondida. Isso se aplica tanto à oração individual quanto às orações coletivas da igreja. A oração é a parte principal do culto a Deus (Is 56.7; Mt 21.13).
6.3. Predestinação
· Calvino usou a palavra “predestinação” pela primeira vez na edição de 1539 dasInstitutas. A sua doutrina nessa área não tem nada de original: nos pontos essenciais ele não difere de Lutero, Zuínglio ou Bucer, os quais recorreram todos a Agostinho. A inovação de Calvino consistiu no lugar em que colocou a doutrina em seu sistema teológico, não em conexão com a doutrina da providência (Livro I), mas no final do Livro III, que trata da aplicação da obra da redenção.
· Calvino não começou com a predestinação e depois foi para a expiação, regeneração, justificação e outras doutrinas. Ele a introduziu como um problema resultante da pregação do evangelho. Por que, quando o evangelho é proclamado, alguns respondem e outros não? Nessa diversidade, ele afirmou, torna-se manifesta a maravilhosa profundidade do juízo de Deus. Trata-se, pois, de uma preocupação pastoral.
· A doutrina de Calvino sobre a predestinação pode ser resumida em três termos: (a) absoluta: não é condicionada por quaisquer circunstâncias finitas, mas repousa exclusivamente na vontade imutável de Deus; (b) particular: aplica-se a indivíduos e não a grupos de pessoas; Cristo não morreu por todos indiscriminadamente, mas somente pelos eleitos; (c) dupla: Deus em sua misericórdia ordenou alguns indivíduos para a vida eterna e em sua justiça ordenou outros para a condenação eterna.
· Calvino cria que essa doutrina era claramente encontrada nas Escrituras e não queria dizer nada sobre a predestinação que não pudesse ser tomado da Bíblia. Ele também não permitiu que a doutrina fosse usada como desculpa para não proclamar o evangelho a todos. De fato, na história da igreja, alguns dos maiores evangelistas e missionários foram firmes defensores dessa doutrina (George Whitefield, Jonathan Edwards).
 7. OS MEIOS EXTERNOS DE GRAÇA
· No Livro IV das Institutas, Calvino trata dos seguintes temas: a igreja verdadeira e seus oficiais, o desvios do romanismo, os sacramentos, o governo civil. Calvino também aborda essas questões nos seus comentários das Epístolas Pastorais.
7.1. Pressupostos
· Calvino, mais que os outros reformadores, preocupou-se com a relação entre a igreja invisível e a igreja como uma instituição que pode ser reconhecida como verdadeira através de certas marcas distintivas. As marcas que constituem a igreja visível são, acima de tudo, a correta pregação da Palavra e a fiel ministração dos sacramentos. Embora não tenha incluído a disciplina eclesiástica entre as marcas da igreja, ele certamente a valorizava.
· A preocupação de Calvino com a ordem e a forma da congregação resultou de sua ênfase na santificação como o processo e o alvo da vida cristã. Em contraste com a ênfase luterana unilateral na justificação, Calvino deu precedência à santificação. O contexto da santificação é a igreja visível, na qual os eleitos participam dos benefícios de Cristo não como indivíduos isolados, mas como membros de um corpo. Assim, a igreja visível torna-se uma “comunidade santa”.
· A eclesiologia de Calvino tem dois pólos em contínua tensão: a eleição divina (igreja invisível) e a congregação local (igreja visível). Por isso, a igreja ao mesmo tempo enfrenta perigos mortais e é preservada por Deus. A igreja visível é um corpo misto composto de trigo e joio; já a igreja invisível compõe-se de todos os eleitos (inclusive anjos, fiéis do Velho Testamento e eleitos que se encontram fora da igreja verdadeira).
7.2. A igreja como mãe e escola
· A igreja é a mãe de todos os crentes porque os leva ao novo nascimento através da Palavra de Deus, bem como os educa e alimenta durante toda a sua vida. Esse caráter maternal da igreja é visto de modo especial na sua ministração dos sacramentos.
· O batismo é o ingresso do crente na igreja e o símbolo de sua união com Cristo. Ele visa confirmar a fé dos eleitos, mas deve ser aplicado a todos os que estão na igreja visível. Quanto à Santa Ceia, Calvino adotou uma posição intermediária entre Lutero e Zuínglio. Embora Cristo esteja nos céus à destra do Pai, a ceia não é mero símbolo, mas um meio de “verdadeira participação” em Cristo (Inst. 4.17.10-11).
· A igreja é também uma escola que instrui seus alunos no caminho da santidade. Essa instrução perdura por toda a vida e também se dirige aos alunos rebeldes, na esperança de que um dia sejam transformados.
7.3. Ordem e ofício
· Calvino encontrou nas Escrituras o quádruplo ofício de pastor, mestre, presbítero e diácono, que é a base da forma de governo incorporada nas Ordenanças Eclesiásticas.
· Ele cria que os ofícios de profeta, apóstolo e evangelista eram temporários e cessaram no final da era apostólica. Dentre os ofícios que permaneceram, o de pastor é o mais honroso e o mais necessário para a ordem e o bem-estar da igreja. Depois da aceitação de doutrinas puras, a nomeação de pastores é a coisa mais importante para a edificação espiritual da igreja.
· Para ser escolhido, o aspirante deve preparar-se e depois ser comissionado publicamente segundo a ordem prescrita pela igreja. Em Genebra, esse processo incluía a companhia de pastores, o conselho municipal e a igreja. A ordenação é um rito solene de instalação no ofício pastoral.
· As funções dos pastores são ensino, pregação, governo e disciplina. Os pastores devem ter um profundo conhecimento das Escrituras para que possam instruir corretamente as suas igrejas. Sua pregação deve revelar conhecimento e habilidade para ensinar. A pregação visa a edificação da igreja e deve ser prática e perspicaz. A função disciplinar do pastor requer que a sua própria conduta esteja acima de qualquer suspeita.
7.4. A igreja e o mundo
· Calvino rejeitou o conceito anabatista de que a igreja devia isolar-se da sociedade e cultura circundantes. A relação entre a igreja e o mundo inclui tanto tensão quanto interação. O seu entendimento do governo de Deus e da soberania de Cristo sobre toda a criação, e não somente sobre a igreja, levou-o a defender a participação na sociedade.
· O governo de Cristo deve manifestar-se idealmente através de governantes piedosos. Os magistrados deviam manter a ordem cívica e a uniformidade religiosa. Todavia, igreja e estado têm esferas separadas e autônomas de atuação. Os cristãos devem obedecer até mesmos os governantes que oprimem a igreja, orando por seu bem-estar, porque foram instituídos por Deus.
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Fonte: George, Timothy. Teologia dos reformadores. São Paulo: Edições Vida Nova, 1994.
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domingo, 24 de abril de 2016

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quinta-feira, 21 de abril de 2016

“Existe graça na lei; existe lei na graça.”

“… Jamais devemos dizer que a graça significa ausência da Lei; isto é antinomismo o qual é condenado em toda parte no Novo Testamento. Havia alguns cristãos primitivos que diziam: 'Ah, não estamos mais debaixo da lei, estamos sob a graça; quer dizer que o que fazemos não importa. Uma vez que não estamos mais debaixo da lei, e sim debaixo da graça, vamos pecar, para que a graça seja mais abundante! Vamos fazer o que quisermos; isso não importa. Deus é amor, fomos perdoados, estamos em Cristo, nascemos de novo; portanto, façamos tudo que quisermos'. 
Estas falsas deduções são tratadas nas Epístolas aos Romanos, aos Coríntios e aos Tessalonicenses, e também nos três capítulos iniciais do livro do Apocalipse. É um trágico engano pensar que quando temos a graça, não há nela nenhum elemento da lei, mas que há uma espécie de licença. 
Isso é uma contradição do ensino bíblico concernente a lei e a graça. Existe graça na lei; existe lei na graça. Como cristãos, não estamos 'sem lei', afirma Paulo, porém estamos 'debaixo da lei de Cristo' (1Cor 9:21). Naturalmente, há disciplina. De fato, o cristão deve ser muito mais disciplinado que o homem que está debaixo da lei, porque enxerga mais claramente seu significado, e tem maior poder. Ele tem uma compreensão mais verdadeira e, portanto, deve ter uma vida melhor e mais disciplinada. Não há menos disciplina no Novo Testamento do que no Velho Testamento; há na verdade mais, e num nível mais profundo. Em todo caso, como o apóstolo Paulo ensina, escrevendo aos gálatas, não devemos repudiar a lei, pois 'a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo' (Gl 3:24). Não coloquemos estas estas coisas como se fossem opostas. A lei foi dada por Deus a fim de que os homens fossem, por assim dizer, encarcerados e encerrados em Cristo, que havia de vir, que haveria de outorgar-lhes esta grande salvação. 
Eu afirmo, pois, que esta ideia moderna entende de forma completamente errada tanto a lei como a graça. É uma balbúrdia completa, uma confusão total; na verdade, não é bíblica de modo nenhum. Não passa de filosofia humana, de psicologia humana. Emprega termos cristãos, mas os esvazia em seu sentido verdadeiro.”…
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Por Martyn Lloyd-Jones | Criando Filhos – O modo de Deus, Editora PES – p.52
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“E por isso também gememos...”

“Um 'suspiro' é uma declaração inarticulada, e um clamor indistinto para o resgate. Às vezes, os santos são atacados e perturbados, e não podem falar numa linguagem comum às suas emoções: onde as palavras lhes faltam, os pensamentos e sentimentos de seus corações se expressam nos suspiros e clamores. 
Os trabalhos do coração de um cristão debaixo da pressão do pecado que habita nele, as tentações de Satanás, a oposição dos ímpios, a carga de uma sociedade desagradável, a impiedade do mundo, a vida de submissão à causa de Cristo na Terra, são descritos de forma variada nas Escrituras. Às vezes, fala-se de estar 'contristado' (1 Pedro 1.6), de clamar 'das profundezas' (Salmo 130.1), de 'rugir' (Salmo 38.8), de 'desmaiar' (Salmo 61.2), de estar 'perturbado' (Salmo 88.15). As inquietações e angústia de sua alma são descritas como 'gemidos' (Romanos 8.23).
Os gemidos do crente não somente são expressões de tristeza, como também de esperança, da intensidade de seus desejos espirituais, de sua busca por Deus, e seu desejo ardente pela bem-aventurança que eles esperam do alto – 'E por isso também gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu… Porque também nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos carregados; não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida' (2 Coríntios 5.2,4). 
Provações da alma deste tipo são peculiares para os regenerados, e através delas o cristão pode identificar-se a si mesmo. Se o leitor agora é tomado por tristeza e suspiros, como um estrangeiro em sua própria terra, então pode-se assegurar que você já não está morto em pecado. Se você se encontra gemendo devido à infecção de seu coração e àquelas obras da corrupção interior que atrapalham o amor perfeito, e de servir sem interrupção a Deus como você deseja fazê-lo, isto é prova de que um princípio de santidade já foi comunicado à sua alma. Se você geme devido às concupiscência de sua carne contra este começo de santidade, então você deve estar vivo para Deus.”
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Por A. W. Pink (1886-1952) | Studies in the Scriptures
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sábado, 9 de abril de 2016

BONHOEFFER - O Agente da Graça

Dietrich Bonhoeffer (Breslau, 4 de fevereiro de 1906 -- Berlim, 9 de abril de 1945), filho de um psiquiatra de classe média alta. Quando jovem decidiu-se seguir a carreira pastoral na Igreja Luterana, doutorou-se em teologia na Universidade de Berlim e fez um ano de estudos no Union Theological Seminary em Nova York. Retornou a Alemanha em 1931.

Bonhoeffer foi um dos mentores e signatários da Declaração de Bremen, quando em 1934 diversos pastores luteranos e reformados, formaram a Bekennende Kirche, Igreja Confessante, rejeitando desafiadoramente o nazismo.

Bonhoeffer envolveu-se na trama da Abwehr para assassinar Hitler. Em março de 1943 foi preso e acabou sendo enforcado, pouco tempo antes do próprio Hitler cometer suicídio.

LIVROS DE SUA AUTORIA PUBLICADOS NO BRASIL: Ética - Editora Sinodal, 2005 Discipulado - Editora Sinodal, 2004 Resistência e Submissão: Cartas e Anotações Escritas na Prisão - Editora Sinodal, 2003 Tentação - Editora Sinodal, 2003 Vida em comunhão - Editora Sinodal, 1986 Orando com Salmos - Editora Encontro, 1995


LIVROS SOBRE BONHOEFFER PUBLICADOS NO BRASIL: Dietrich Bonhoeffer: cristianismo e testemunho - Ir. Miriam Cunha Sobrinha, Editora Edusc, 2006 Dietrich Bonhoeffer: Vida e Pensamento - Werner Milstein, Editora Sinodal, 2006 Bonhoeffer: o mártir - Craig J. Slane, Editora Vida, 2007. Vítima e vencedor do nazismo - Dietrich Bonhoeffer, Georges Hourdin, Paulinas Editora, 2002. Bonhoeffer: Pastor, Mártir, Profeta, Espião - Eric Metaxas, Editora Mundo Cristão, 2011


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Ser Cristão: Dietrich Bonhoeffer


Dietrich Bonhoeffer nasceu em 4 de fevereiro de 1906, em Breslau na Alemanha. Estudou Teologia em Tübingen e Berlim, onde se doutorou aos 21 anos.

Trabalhou em várias igrejas europeias de língua alemã (Barcelona, Londres) e concluiu seus estudos nos E.U.A.

Em 1935 Bonhoeffer retornou para a Alemanha, aceitando o convite para ser reitor e professor do Seminário da Igreja Confessante, ala da igreja evangélica, que não aderiu à política nacional socialista (política nazista).

Após o seminário ser fechado pela polícia nazista, Bonhoeffer se engajou no movimento de resistência contra Hitler. Após muitas viagens pela Europa, ele foi preso em 5 abril de 1943 e executado em 9 de abril de 1945.

Apesar do pouco tempo de vida, Dietrich Bonhoeffer deixou um legado teológico precioso e uma fé viva e coerente com seus ensinos.

Resistência e submissão
"Alguém pode escrever algumas coisas de forma mais natural e vívida em uma carta do que em livros, e nas cartas eu frequentemente tenho melhores idéias do que quando estou escrevendo para mim mesmo." Trecho da carta escrita em 8 de julho de 1944 (Berlin-Tegel)
Foi esta carta que tem uma importante avaliação que Bonhoeffer fez a respeito de si mesmo que deu autoridade para, anos mais tarde, E.Bethge publicar uma coletânea de cartas escritas por Bonhoeffer no período da sua prisão. O livro foi publicado pela primeira vez em alemão com o título de Widerstand und Ergebung (Resistência e Submissão) em 1952 e pouco tempo depois em inglês com o título de Letters & Papers from Prison (Cartas e Papéis da Prisão).

O livro contém um artigo que ele escreveu para os colegas conspiradores intitulado "Dez Anos Depois", correspondência com os parentes (pais e sobrinhos) e amigos, dois sermões (casamento de E.Bethge com a sua sobrinha Renate e do batismo do afilhado), dez poemas e algumas orações pelos companheiros de cela. Sem dúvida foi através deste livro que Bonhoeffer ficou mais conhecido em nosso tempo.

Frases impactantes:
"O primeiro serviço que alguém deve ao outro na comunidade é ouvi-lo. Assim como o amor a Deus começa com o ouvir a sua Palavra, assim também o amor ao irmão começa com aprender a escutá-lo. É prova do amor de Deus para conosco que não apenas nos dá sua Palavra, mas também nos empresta o ouvido. Portanto é realizar a obra de Deus no irmão quando aprendemos a ouvi-lo. Cristãos e especialmente os pregadores, sempre acham que tem algo a "oferecer" quando se encontram na companhia de outras pessoas, como se isso fosse o seu único serviço. Esquecem que ouvir pode ser um serviço maior do que falar. Muitas pessoas procuram um ouvido atento, e não o encontram entre os cristãos, porque esses falam quando deveriam ouvir..." De Vida em Comunhão - 1938 
"Que sabemos a respeito do conteúdo do discipulado? Segue-me! Isso é tudo. Isso de fato não constitui um programa de vida... um ideal pelo qual se deve lutar... Por ser Jesus o único conteúdo (do discipulado), é que não pode haver qualquer outro. Ao lado de Jesus não pode haver quaisquer conteúdos, pois ele é o único conteúdo". Do Discipulado
"Quando luta e morte exercem seu selvagem domínio ao nosso redor, então somos chamados para levar o testemunho do amor e da paz de Deus , não só por palavra e pensamento, mas também pelas nossas ações. Leiam Tiago 4:1...! Devemos diariamente perguntar a nós mesmos onde podemos testemunhar e o que podemos fazer para que o reino de paz e amor triunfem. A grande paz que desejamos só pode frutificar de novo a partir da paz entre dois ou três. Vamos por um fim a todo ódio, desentendimento, inveja e inquietação, onde nós pudermos...." Carta circular para os pastores da Igreja Confessante (20 de setembro de 1939). 
"Nossos caros irmãos Bruno Kerlin, Gehard Vibrans, e Gehard Lehne, foram mortos. Agora eles dormem com todos os irmãos que foram antes deles, esperando a grande Páscoa da ressurreição . Nós vemos a cruz, e cremos na ressurreição, nós vemos morte e cremos na vida eterna, nós trilhamos sofrimento e separação, mas cremos na eterna alegria e comunhão." Carta em memória dos pastores convocados e mortos durante a Segunda guerra mundial. 
"Sentado no jardim do seminário, tive tempo de pensar e orar no que se refere à minha situação e a da minha nação, obtendo algumas luzes sobre a vontade de Deus. Cheguei a conclusão que cometi um erro em vir para os Estados Unidos. Nesse período difícil da história da minha pátria, devo viver junto com o meu povo. Não terei o direito de participar da reconstrução da vida cristã na Alemanha depois da guerra se não tiver compartilhado com meu povo as provas desse período. Os cristãos alemães terão que enfrentar a terrível alternativa de desejarem a derrota de sua pátria para a salvação da civilização cristã ou de desejarem a vitória de sua pátria e, conseqüentemente, a destruição de nossa civilização. Eu sei a escolha que devo fazer, porém não posso fazê-la e manter-me ao mesmo tempo em segurança". Carta de despedida para o professor Reinhold Niebuhr.
Mais sobre a história, poemas e frases de Dietrich Bonhoeffer podem ser encontrados no site oficial (link abaixo) da sociedade criada em memória deste grande personagem cristão que viveu e morreu para Cristo, em favor dos outros.
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Referências: Sociedade Bonhoeffer
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domingo, 3 de abril de 2016

A Lógica do Evangelho na Liturgia Reformada » Parte I


Quarta palestra proferida no 24º Simpósio Reformado Os Puritanos 2015 — Dr. Jon Payne — terça-feira, 30 de junho de 2015.
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10 perguntas para os simpatizantes da ICAR

Na semana passada eu recebi o seguinte e-mail e senti que seria melhor compartilhar a resposta aqui no blog.

Quando eu postei isso em nosso canal de bate-papo, um grande número de pessoas comentou que essa era, de fato, uma ótima pergunta, e nós começamos a elaborar algumas possíveis respostas. Aqui está minha lista Top 10:

10) Você ouviu os dois lados? Isto é, você fez algo mais do que simplesmente ler “Todos os caminhos levam a Roma” e ouvir algumas histórias emotivas de conversão? Você realmente separou um tempo para buscar respostas sérias às reivindicações de Roma, respostas essas que vem sendo oferecidas por escritores desde a época da Reforma, como Goode, Whitaker, Salmon, e alguns escritores modernos? Em especial, quero excluir desta lista qualquer coisa que tenha sido escrita por Jack Chick e Dave Hunt.

9) Você já leu alguma análise histórica objetiva da Igreja Primitiva? Refiro-me a uma que explicaria a grande diversidade de pontos de vista encontrados nos escritos dos primeiros séculos, e que explicaria, com precisão, as controvérsias, lutas, sucessos e fracassos desses primeiros crentes?

8) Você já olhou atentamente para as afirmações Roma sob uma luz histórica? Sendo mais específico, você já examinou as reivindicações de Roma sobre o “consentimento unânime” dos Padres e todas as evidências que se opõem não só à suposta aceitação universal do papado, mas especialmente ao conceito de infalibilidade papal? Como você explica, de forma consistente, a história da igreja primitiva, à luz das afirmações modernas feitas por Roma? Como você explica coisas como a Pornocracia e o Cativeiro Babilônico da Igreja sem assumir a veracidade do mesmo sistema que você está abraçando?

7) Você aplicou os mesmos padrões que os apologistas católicos romanos usam para atacar o Sola Scriptura para, igualmente, testar as alegações de suprema autoridade de Roma? Como você explica o fato de que as respostas que Roma dá para suas próprias objeções são circulares? Por exemplo, se Roma afirma que precisa da Igreja para estabelecer um cânone infalível, como é que isso pode responder à pergunta, uma vez que agora você tem que perguntar como Roma chega a esse conhecimento infalível. Ou, se argumentam que o Sola Scriptura produz anarquia, por que é que o magistério de Roma não produz unanimidade e harmonia? Se alegam que existem 33.000 denominações devido ao Sola Scriptura, e sabendo que esse número escandaloso foi repetidamente refutado (veja o livro Upon This Rock Slippery do Eric Svendsen para uma análise mais detalhada), você já se perguntou porque eles são tão desonestos e desleixados em suas pesquisas?

6) Você já leu o Sílabo dos Erros e a Indulgentiarum doctrina (doutrina das indulgências)? Alguém pode seriamente ler a descrição de Graça encontrada no último documento e fingir por um segundo sequer que essa é a mesma doutrina da Graça ensinada por Paulo aos romanos?

5) Você já considerou as ramificações de Roma acerca das doutrinas sobre o pecado, o perdão, os castigos eternos e temporais, o purgatório, a tesouraria do mérito, transubstanciação, o sacerdócio sacramental, e indulgências? Você realmente se deu ao trabalho de fazer uma análise séria de passagens pertinentes como Efésios 2, Romanos 3-5, Gálatas 1-2, Hebreus 7-10 e todo o capítulo 6 de João, à luz do ensinamento romano?

4) Você já se perguntou o que significa abraçar um sistema que ensina que você pode se aproximar do sacrifício de Cristo milhares de vezes em sua vida e que ainda assim pode morrer impuro e como um inimigo de Deus? E você já se perguntou porque embora os ensinamentos históricos de Roma sobre estas questões sejam facilmente identificáveis, a grande maioria dos católicos romanos hoje, incluindo padres, bispos e eruditos, não acreditam mais nessas coisas? O que isso significa?

3) Você já parou para pensar o que significa chamar um ser humano de Santo Padre (que é um nome divino, usado por Jesus unicamente acerca de Seu Pai) e Vigário de Cristo (que, por sua vez, é o Espírito Santo)? Você realmente pode encontrar algo nas Escrituras que o levariam a acreditar que a vontade de Cristo era que um bispo em Roma (ou seja, numa cidade centenas de milhas de distância de Jerusalém) não só fosse o cabeça de Sua igreja, mas que fosse tratado como um rei na terra, com pessoas se prostrando a ele, como o Pontífice Romano é tratado?

2) Você já parou para pensar o quão antibíblico e quão a-histórico é todo o conjunto de doutrinas e dogmas relacionados a Maria? Você realmente acredita que os Apóstolos ensinavam que Maria havia sido concebida imaculadamente, e que ela permaneceu perpetuamente virgem (de tal maneira que ela viajou sobre a Palestina com um grupo de jovens que não eram seus filhos, mas sim primos de Jesus, ou meio-irmãos, filhos de um casamento anterior de José)? Você acredita que dogmas definidos quase 2.000 anos depois do nascimento de Cristo realmente representam os ensinamentos dos apóstolos? Você está ciente de que doutrinas como a Virgindade Perpétua e a Assunção Corpórea têm sua origem no gnosticismo, não no cristianismo, e que elas não têm nenhum fundamento na doutrina ou prática apostólica? Como você explica o fato de que você deve acreditar nessas coisas de fide, isto é, pela fé, quando gerações de cristãos viveram e morreram sem nunca sequer ter ouvido falar de tais coisas ?

E a pergunta número um que eu gostaria de fazer a tal pessoa é:

1) Se você afirma que em certo dia tenha abraçado o evangelho da Graça, no qual confessava que a sua única posição diante de um Deus três vezes santo era a túnica inconsútil da justiça imputada de Cristo, de modo que você não tinha mérito algum, apenas a perfeita justiça dEle e com isso obtive paz diante de Deus, sobre quais possíveis razões você poderia vir a abraçar um sistema que, em seu coração nega-lhe essa paz que se encontra em um Salvador perfeito que realiza a vontade do Pai e um Espírito que não pode falhar? Você realmente acredita que o ciclo infinito de perdão sacramental (o qual agora você irá se submeter) pode lhe fornecer a paz que a perfeita justiça de Cristo não pode?

Fonte: Alpha and Omega Ministries – James White
Via: Olhai e Vivei
Tradução: Erving Ximednes
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