quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A Morte do Rei da Glória

O REI DA GLÓRIA

De Salvador do mundo a um verme digno de ser traído e rejeitado publicamente. Há cerca de dois mil anos, acontecia o mais cruel assassinato da história da humanidade. Judas Iscariotes conduzia rumo ao Getsêmani uma multidão, armada com espadas e cassetetes, enviada pelos chefes dos sacerdotes, líderes religiosos e mestres da lei, para prender Jesus de Nazaré.
Os algozes de Jesus marcham a passos firmes, entoando gritos de ódio, despertando curiosidade pelas ruas por onde passam. Atônita, a população debruça-se nas soleiras das janelas, observando o exército do Sinédrio passar. Muitas pessoas se juntam à multidão a fim de acompanhar o desfecho daquele que seria um dia macabro.
Preso. Acorrentado. Arrastado como um cão diante do povo que o havia recebido dias antes como rei. Os soldados tiram a roupa de Jesus e o prendem pelo pulso a uma coluna do pátio do Pretório de Pilatos. Como selvagens, golpeiam a sua pele nua. A pele se dilacera e se rompe; o sangue espirra. A cada golpe Jesus reage com um espasmo de dor. Depois, uma coroa de espinhos mais duros que os de acácia lhe é pressionada sobre a cabeça. Os espinhos penetram no couro cabeludo, fazendo-o sangrar. A cabeça lateja e as forças se esvaem. O corpo todo treme tal qual uma cidade abalada por um implacável terremoto.
Depois, Jesus, completamente ensanguentado e dilacerado, é apresentado diante da multidão feroz, que o condena à morte, gritando repetidamente: "Soltem Barrabás!". De pés descalços e com as pernas trêmulas, Ele caminha aproximadamente 600 metros rumo ao Calvário, carregando sobre os ombros uma estaca horizontal de madeira pesando uns 50 quilos. Pregos de cerca de 15 centímetros são fincados nos pulsos a golpes certeiros de martelo. Ele contrai o rosto assustadoramente. Uma dor, agudíssima, insuportável. Enconstam-no na trave vertical fincada no chão do Gólgota, elevam-no abruptamente por meio de cordas. Encaixam, por fim, uma madeira na outra, formando uma cruz. Pregam-lhe os pés. O céu escurece, o sol se retira. Há trevas sobre toda terra.
A respiração, antes descompassada, agora se faz pouco a pouco como a de um asmático. O corpo de Jesus é um véu embebido de sangue. Atraídas pelo sangue, as moscas se juntam ao redor de seu corpo como abutres famintos, mas Ele não pode enxotá-las. As horas na cruz são desesperadoras. Por volta da três da tarde, Jesus, num esforço sobre-humano, dá seu último suspiro: "Está consumado!". Em seguida, curva a cabeça e diz: "Pai, nas tuas mãos eu entrego o meu espírito". E morre.
Perto da cruz, o silêncio fúnebre é rasgado pelos gritos estridentes de Maria, inconsolável pela morte do filho. Pálido e suando frio, João abraça Maria, mas também não consegue conter a lástima. Ele chora como uma criança desamparada. A terra treme e as rochas se partem. Os sepulcros se abrem, revelando seus mortos. A cena é mórbida e aterrorizante. O medo toma conta de toda Jerusalém. Por ocasião do incomum, muitos crêem que Jesus é mesmo o Filho de Deus e se lamentam por o terem assassinado.
José de Arimatéia, membro do Sinédrio, que não tinha concordado com a decisão e o procedimento dos outros, lava e unge com perfumes e óleos o corpo de Jesus e, em seguida, envolve-o numa peça de linho, cumprindo as práticas judaicas relativas ao sepultamento. Em seguida, o corpo é colocado numa sepultura escavada na rocha, selada com uma pedra de moinho pesando cerca de três toneladas, para impedir que os discípulos roubassem os restos mortais de Jesus.
Os dias subsequentes à morte de Jesus são de profunda tristeza. A esperança de muitos parece ter se findado nos grilhões da morte. Perpetua, então, um sentimento de defraudação por toda a nação. A morte é o terror supremo da existência humana. Todos, de igual modo, experimentarão a humilhante condição de impotência e dor diante dela.
Para os discípulos, é difícil, agora, conviver com a realidade atroz de que aquele homem que dizia ser o Messias, o Rei dos Judeus, o Salvador do mundo, tenha sido dilacerado, desfigurado, morto numa cruz e sepultado sem honrarias. Não teve som de trombetas nem cortejo fúnebre. Apenas o choro desvelado de alguns poucos discípulos remanescentes.
A alvorada do primeiro dia da semana desponta. Já faz três dias da morte de Jesus. Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago, ainda em luto, levantam-se de madrugada e vão ver o sepulcro. Para espanto delas, a pedra da entrada foi removida. Um misto de dor, angustia e incerteza invade a alma de Madalena.
Seu coração bate descompassado; um suor frio lhe impregna a face; A boca resseca; e as mãos tremem. Calafrios percorrem todo seu corpo. Então, profundamente triste, lamenta: "Tiraram o meu Senhor do sepulcro".  Mas o que Madalena, atônita, ainda não compreende naquele momento é que a ausência do corpo de Jesus no túmulo testifica a respeito da maior afirmação jamais pronunciada: Cristo ressuscitou! A morte não conseguiu retê-lO. Os grilhões e cadeias da escuridão foram rompidos. Ainda bem que Ele não desceu da cruz.
Depois de aparecer aos discípulos e permanecer algum tempo com eles, Jesus sobe aos céus e dá ordens para que as entradas eternas se abram. Ninguém nunca tinha ousado fazer tal ordenança. As portas da eternidade, então, abrem-se para o Rei da Glória, produzindo um ruído estrondoso similar ao de toneladas de ferro sendo retorcido. As centenas de milhares de anjos, arcanjos, querubins e serafins observam perplexas e com grande temor o primeiro homem a entrar na eternidade. As cicatrizes nas mãos e no seu lado evidenciam a sua natureza eternamente humana. Ninguém se atreve a impedi-lo ou a sequer fitá-lo.
As hostes celestiais o recebem com honrarias dignas de um rei, ao som das vozes e harpas angelicais. Jesus Cristo, finalmente, com autoridade, assenta-se à direita de Deus Pai. A humanidade ganha um representante, alguém como nós, de carne e ossos, sujeito aos mesmos desejos, mas sem pecado; O céu, entroniza o seu único Rei. O mundo angélico, por sua vez, curva-se diante dele e confessa: Ele é o Rei da Glória! O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!"

Obras utilizadas:
A Paixão de Cristo Segundo um Cirurgião,Pierre Barbet
O Verdadeiro Evangelho, Paul Washer
Autor: Paulo Marinho Junior
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...