sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Salmo 150: Dançando no santuário?


Um dos textos do Antigo Testamento mais usados para defender as danças litúrgicas é o Salmo 150. Ele é lido como prova incontestável que havia danças como parte da liturgia dos cultos no Antigo Testamento realizados no templo de Deus em Jerusalém. Como conseqüência, dançar, ter grupos de coreografia e ministério de dança profética durante os cultos das igrejas evangélicas de hoje não somente é permitido, como também ordenado por Deus.
Eis o Salmo 150 de acordo com a versão Almeida Atualizada, provavelmente a mais popular no Brasil:

1 Aleluia! Louvai a Deus no seu santuário; louvai-o no firmamento, obra do seu poder.
2 Louvai-o pelos seus poderosos feitos; louvai-o consoante a sua muita grandeza.
3 Louvai-o ao som da trombeta; louvai-o com saltério e com harpa.
4 Louvai-o com adufes e danças; louvai-o com instrumentos de cordas e com flautas.
5 Louvai-o com címbalos sonoros; louvai-o com címbalos retumbantes.
6 Todo ser que respira louve ao SENHOR. Aleluia!

A argumentação é a seguinte. O verso 1 manda que louvemos a Deus no seu “santuário”, isto é, no templo terreno, o local oficial da adoração a Deus, onde se realizava o culto por Ele determinado. Em seguida, vem uma descrição deste culto, e em meio à relação dos instrumentos utilizados, se menciona no verso 4 as “danças”. A conclusão aparente é que as danças faziam parte do culto oferecido a Deus no seu templo em Jerusalém. Pronto, temos aqui a base para as danças litúrgicas no culto hoje.

Mas, será que é isto mesmo que o Salmo está dizendo? Ou ainda, será que podemos inferir do Salmo que as danças faziam parte da liturgia do templo? E mais ainda, se de fato é isto mesmo que o Salmo está mostrando, temos aqui uma base para as danças litúrgicas e grupos de coreografia em nossos cultos?

Já disse no post anterior “Davi dançou, eu também quero dançar” que não considero o dançar em si como algo pecaminoso, e que não tenho problemas com danças nas comunidades cristãs como expressão cultural e social em ambientes outros que não o culto a Deus. O que pretendo aqui neste post é mostrar que o Salmo 150 não pode ser tomado como base incontestável para a prática das danças litúrgicas e coreográficas nos cultos cristãos.

Vou começar admitindo, por um momento, que o Salmo 150 está falando do templo em Jerusalém e de danças durante o culto. A pergunta, que deveria ter sido feita desde o início, é se o culto cristão toma sua inspiração, gênese e formato do culto do Antigo Testamento. Para mim, a resposta é negativa, embora com qualificações.

O culto do templo é geralmente visto no Novo Testamento como parte da lei cerimonial, cumprida em Cristo e portanto abolida. A carta aos Hebreus trata deste assunto. Um dos melhores professores de Antigo Testamento que conheço me escreveu recentemente, falando deste assunto, "O que acontecia no Templo não passa nem perto do que acontece nos melhores dos nossos cultos hoje, pois o serviço no Templo encenava a expiação". Os sacrifícios de animais, as cerimônias de purificação, a ordem dos levitas e dos sacerdotes, os rituais de oferecimentos das ofertas, a queima de incenso, a oferta diária dos pães, tudo isto é considerado como parte da antiga dispensação, que era simbólica, típica, e que foi plenamente cumprida em Cristo: não temos mais sacrifícios – o Senhor Jesus ofereceu de uma vez um sacrifício completo, que não precisa ser renovado e repetido; não temos mais sacerdotes e levitas – os cristãos, todos eles, são sacerdotes e levitas. A queima de incenso é substituída pelo louvor que procede nossos lábios. O templo, que era santo e sagrado, agora é a Igreja de Cristo, a comunidade dos eleitos de Deus, e não os templos de nossas igrejas locais.

Ao que tudo indica, os cristãos deram continuidade ao culto no Antigo Testamento apenas no que se refere aos princípios espirituais: a idéia de encontro com Deus, de adoração, de louvor, de solenidade, de alegria, de serviço espiritual como povo do Senhor... mas foram buscar nas sinagogas o formato para este culto mais simples e despojado. Nas sinagogas, instituição onde cresceram o Senhor Jesus e todos os apóstolos, havia leitura e pregação da Palavra, orações, cânticos e bênção.

Portanto, devemos ter cautela em transferir para o culto cristão aquilo que era feito no templo de Jerusalém – admitindo por um instante que havia danças no culto ali. Por falta deste cuidado, a Igreja Católica tem um culto em muito similar ao do Antigo Testamento: eles têm o sacrifício da missa, sacerdotes que são mediadores entre Deus e homens e que perfazem este sacrifício, estolas sacerdotais e mitra, queima de incenso, etc.

Mas, na verdade, não é certo que o Salmo 150 esteja falando de danças no templo. Em primeiro lugar, a palavra “santuário” mencionada no verso 1 nem sempre significa o local da adoração em Jerusalém, onde o culto determinado por Deus era realizado de acordo com todos os seus preceitos. A palavra b’kadoshu, significa literalmente “em seu santo”. Logo, sua tradução primeira seria “em seu santuário” e não “em seu Templo”. Precisamos, portanto, considerar a possibilidade de que o santuário de Deus aqui referido não é o local físico do templo, mas o local da sua santa habitação, ou seja, os céus.

Uma evidência a favor desta tradução e interpretação é que no mesmo verso somos chamados a adorar a Deus no “firmamento”, que declara o seu poder. Se considerarmos que aqui no verso 1 temos um caso de paralelismo, tão comum na poesia hebraica, conclui-se que aqui santuário e firmamento são a mesma coisa:

Louvai a Deus no seu santuário;
Louvai-o no firmamento, obra de seu poder.

Encontramos o mesmo paralelismo no Salmo 11.4:
O Senhor está no seu santo templo;
Nos céus tem o Senhor seu trono;

Fica evidente que o santo templo de que fala o salmista são os céus, onde Deus tem o seu trono. Outra passagem é o Salmo 102.20:
O Senhor observa do alto do seu santuário;
Lá do céu ele olha para a terra.

Mais uma vez, é evidente que o santuário referido é o céu, de onde Deus observa os homens. Levando em consideração o escopo do Salmo 150, o paralelismo hebraico e estes outros salmos que identificam o santuário de Deus com os céus, é perfeitamente possível concluir que aqui no Salmo 150 “santuário” se refere à morada celestial de Deus e não ao templo físico de Jerusalém. E logo, o apelo do verso 1 pode ser entendido como dirigido aos homens e anjos para que louvem a Deus, que habita em sua morada celestial.


Em segundo lugar, a palavra que a Almeida Atualizada traduziu como "danças" tem outros significados, alguns dos quais se encaixam muito melhor no contexto. A palavra mahol que aparece no verso 4 e é traduzida como “danças” pela Almeida Atualizada pode significar “flauta”. A própria Almeida Atualizada traduziu mahol como “flauta” no Salmo 149, “louvem-lhe o nome com flauta; cantem-lhe salmos com adufe e harpa”. Admito que os contextos são diferentes, pois no Salmo 150 mahol vem precedido dos adufes, tamborins, que marcam o ritmo. De qualquer forma, se vê que a palavra pode ter outro sentido que não dançar.

Várias traduções do Salmo 150:4 traduziram mahol como “flauta”, como a Almeida Corrigida, a Bíblia de Genebra 1599, a Reina Valera 1909, entre outras (“coral”, Douay-Rheims).

Calvino, em seu comentário dos Salmos, preferiu traduzir como “flauta”.

Temos que admitir que a maioria das traduções preferiu “danças”. Em minha opinião, é perfeitamente possível. Todavia, se o salmista estiver se referindo a um instrumento musical, como “flauta”, se encaixa perfeitamente no contexto, pois os versos 3-5 estão mencionando instrumentos musicais usados em Israel, como trombeta, saltério, harpa, adufes, instrumentos de cordas, flautas, címbalos sonoros e címbalos retumbantes. Estes versos não estão dando uma descrição do que se fazia no culto a Deus executado no templo ou no templo, mas apenas enumerando os instrumentos musicais de toda espécie, todos eles convocados para o louvor de Deus.

Se levarmos em consideração as variáveis acima, o Salmo 150 pode ser simplesmente um chamado universal a anjos, homens e animais, para que louvem a Deus. E que os homens o façam com toda sorte de instrumentos musicais. Não está falando do culto no templo terreno e nem de danças.
Alguém poderia legitimamente indagar: "se Deus aceita as danças no seu alto e sublime lugar, no santuário celestial, será que Ele se desagradaria das danças no local da adoração terrena?" A única resposta que eu tenho para isto é que a maneira que temos de saber o que agrada a Deus ou não em seu culto hoje é mediante o estudo do Novo Testamento. O que Deus prescreve para o culto dos cristãos? Certamente não encontraremos uma liturgia detalhada, uma seqüência dos atos de culto. Mas encontraremos os princípios espirituais que governam este culto e os elementos que dele devem constar. E entre estes, nao acharemos as danças.

Mas, não quero insistir demais neste ponto. O que eu gostaria apenas de deixar claro neste post é que o Salmo 150 não pode ser usado como uma prova cabal e final de que as danças faziam parte do culto a Deus oferecido em seu templo ou seu templo em Jerusalém e que em conseqüência devemos ter danças nos cultos cristãos de hoje.

Não considero este assunto tão central à fé que eu tenha que me separar de quem pensa diferente. Se você quer dançar no culto, dance. Não vou considerá-lo um pagão por isto. Mas não me venha dizer que é bíblico e que aqueles que pensam diferente de você serão condenados como Mical, que criticou Davi quando dançava.

Autor: Augustus Nicodemus
Fonte: O Tempora! O Mores!
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Davi dançou, eu também quero dançar!

Este é um dos argumentos que mais escuto da parte daqueles que defendem a "dança litúrgica" durante os cultos públicos nas igrejas evangélicas. Se o rei Davi dançou diante da arca de Deus, quando a mesma estava sendo trazida de volta para Jerusalém, por que nós não podemos, da mesma forma, expressar nossa alegria diante de Deus em nossos cultos, com danças de caráter religioso? Afinal, a Bíblia menciona não só Davi, mas Miriã e outras pessoas que dançaram de alegria na presença do Senhor (a imagem ao lado de Davi dançando é do famoso pintor francês James Tissot).
Não consigo me convencer com este argumento. Eu sei que existem outros, mas este, em particular, não me convence. Não é que eu seja contra a dança em si. Sinceramente, não vejo como considerar a dança como um ato pecaminoso, como parece que alguns segmentos evangélicos fazem. Se Davi dançou, e com ele outros personagens da Bíblia, isto pode não provar que devemos dançar em nossos cultos, mas no mínimo é uma evidência de que a dança em si não é pecaminosa, errada ou imprópria para o cristão. A não ser, é claro, aquelas danças sensuais, provocativas, eróticas ou, no mínimo, sugestivas, que despertem paixões e a lascívia. Nesse caso, me junto aos Pais da Igreja, como Basílio, João Crisóstomo, Agostinho, Tertuliano, entre outros, que condenaram veementemente este tipo de dança por parte parte dos cristãos.
Mas, nem toda dança é sensual. Quando eu estava estudando para meu doutorado nos Estados Unidos frequentava com minha família uma igreja presbiteriana muito firme biblicamente. Uma vez por mês os casais da igreja se encontravam no salão social num sábado a noite onde, liderados pelo pastor e sua esposa, ouviam música country, jazz, clássica, e eventualmente dançavam (cada um com seu cônjuge, veja bem!). Minha esposa Minka e eu estivemos lá umas poucas vezes. Nós mesmos não chegamos a dançar, sou meio duro nas articulações e daria um espetáculo horroroso, matando a Minka de vergonha... hehehehe. Mas foi uma experiência muito interessante, que me marcou pela alegria, naturalidade e pureza do evento. E serviu para demonstrar o que eu já pensava, que dançar em si não é pecado.
Voltemos a Davi. Por que então não consigo aceitar que o exemplo dele é definitivo como base para as danças litúrgicas, ministérios de coreografia, dança profética e grupos de danças durante os cultos?
Bem, primeiro porque não acredito que devamos fazer normas ou estabelecer princípios gerais para a vida da igreja simplesmente a partir de atos, ações, eventos, incidentes envolvendo os heróis da Bíblia. Nem tudo o que aconteceu na vida deles pode virar paradigma para os cristãos. A não ser aquelas coisas que a própria Bíblia determina. Jesus, por exemplo, recomendou que imitássemos Davi em sua atitude para com a lei cerimonial (Mat 12:3). Davi é citado como homem segundo o coração de Deus (Atos 13:22), que serviu a Deus em sua própria geração (Atos 13:36), no que deveria ser imitado. Sua fé o coloca na galeria dos heróis da fé em Hebreus (11:32) e serve de exemplo para nós. Ainda poderíamos mencionar seu arrependimento e contrição após ter pecado contra Deus (Salmos 32 e 51). Tais coisas são norma e regra geral para todos os cristãos. Isto não significa, todavia, que cada atitude de Davi sirva de modelo para nós.
Uma segunda dificuldade que tenho é com este tipo de interpretação, muito popular hoje entre os evangélicos, que simplesmente transpõe para nossos dias os eventos históricos narrados na Bíblia, sem levar em consideração o contexto cultural, histórico, teológico e literário dos mesmos, e os usa como base para construir ritos, práticas e regras a serem seguidos nas igrejas cristãs. Moisés bateu com a vara na rocha - lá vem a reencenação do episódio nas igrejas como símbolo da vitória. Ouvi falar que a derrubada da muralha de Jericó foi recentemente reencenada numa igreja (usando uma muralha de isopor e gelo seco) como base para se clamar a vitória para o ano de 2009. E por ai vai. A lista é enorme. No caso de Davi, não poderíamos esquecer que na cultura do Antigo Oriente as danças eram usadas como manifestação popular pelas vitórias militares obtidas, e eram geralmente lideradas pelas mulheres. Foi o caso com a dança de Miriã (Ex 15:20), a filha de Jefté (Juízes 11:34), as mulheres de Judá (1Sam 18:6) e a própria dança de Davi (2Sam 6:20). Ao que parece, o povo saia em passeata dançando em roda (sobre dança de roda, veja Juízes 21:21 e 23). Até onde sei, no Brasil não se costuma celebrar as vitórias com danças de roda. As danças têm outra conotação e servem a outros propósitos, nem sempre moralmente neutros.
Tudo bem, vá lá. Vamos supor, por um momento, que a dança de Davi sirva de base para nós, cristãos. O que o evento lúdico do rei de Israel poderia nos autorizar? Com certeza, não autoriza que dancemos nos cultos públicos de nossas igrejas, pois a dança de Davi foi numa passeata religiosa, nas ruas de Jerusalém, algo espontâneo e do momento. Ele não marcou um culto no templo de Jerusalém, que era o local determinado por Deus para os cultos a Ele, onde foi dançar de alegria perante o Senhor. Até onde eu sei, nos cultos determinados por Deus no Antigo Testamento não havia dança alguma. Deus não determinou a dança como elemento de culto, não há qualquer registro de que as mesmas fizessem parte do culto que lhe era oferecido no templo. E acho que os apóstolos e primeiros cristãos entenderam desta forma, pois não há danças nos cultos do Novo Testamento.
Se formos usar o exemplo de Davi como base, chegaremos à conclusão que a dança dele também não autoriza a criação de grupos de dança litúrgica nas igrejas, que se apresentam regularmente nos cultos. Não justifica nem a criação dos ministérios de dança e a descoberta do dom espiritual da dança litúrgica e profética. A dança de Davi foi um evento isolado e individual. Não foi feita por um grupo que treinava e ensaiava para se apresentar regularmente nos cultos do templo. Aliás, não encontro no Antigo Testamento qualquer indicação de que havia em Jerusalém um grupo de levitas que se dedicavam ao ministério da dança litúrgica e que se apresentavam regularmente durante os cultos no templo de Deus. E deve ser por isto que também não encontramos estes grupos no Novo Testamento. Acho que o rei de Israel cairia de costas se ele visse tudo o que se inventou hoje no culto a Deus com base naquele dia em que ele saltou de alegria diante da arca do Senhor.
Por último, acho que este tipo de argumento, "Davi dançou, eu também quero dançar", deixa de lado alguns princípios importantes sobre o culto que devemos prestar a Deus. Primeiro, que embora toda nossa vida seja um culto a Deus (veja 1Cor 10:31), Ele mesmo determinou que seu povo se reunisse regularmente para cultuá-lo, cantar louvores a seu Nome, buscá-lo publicamente em oração e ouvir Sua Palavra. Uma coisa não exclui a outra, mas não devem ser confundidas. Nem tudo que cabe na minha vida diária como culto a Deus caberia no culto público e solene. Por exemplo, posso plantar bananeira para a glória de Deus, mas não vejo como justificar isto no culto público regular das igrejas. Cabia perfeitamente a Davi dançar de alegria naquele dia, na procissão de vitória, nas ruas de Jerusalém. Todavia, não o vemos fazendo isto no templo de Jerusalém, durante os cultos estabelecidos por Deus.
Segundo, não podemos inventar maneiras de cultuar a Deus além daquelas que Ele nos revelou em Sua Palavra. Os elementos que compõem o culto a Deus, até onde eu entendo a Bíblia, são a oração, o cantar louvores, a ação de graças, a leitura e pregação da Palavra, as contribuições voluntárias de seu povo, o batismo e a Ceia (quando houver). É claro que a Bíblia não estabelece ritmos musicais, não nos dá orações fixas e nem mesmo uma ordem litúrgica a ser seguida. Mas, ela nos dá os princípios e os elementos do culto que Deus aceita. A questão, portanto, não é se Davi e outros heróis da fé dançaram, mas sim se as danças litúrgicas fazem parte daquele culto que Deus determinou em Sua Palavra. E mesmo que eu não tenha nada contra o dançar em si, não vejo como as danças possam ser enquadradas como elementos de culto.
Enfim. Ao ler a história da dança de Davi o que aprendo é o amor que ele tinha ao Senhor, e a alegria que o dominava pelas coisas de Deus. Aprendo que devo amar ao Senhor e me alegrar com as coisas dele à semelhança de Davi. Todavia, não creio que a maneira com que Davi expressou estes sentimentos seja elemento de culto para os cristãos. O texto está muito longe de requerer isto. Sei que vou escandalizar muita gente ao dizer que eu não veria problemas com grupos de coreografia para evangelizar ou mesmo para participar em reuniões sociais dos jovens e adolescentes de nossas igrejas (sobre boate evangélica, falaremos em outra oportunidade). Mas o culto público a Deus, quer nos templos, quer em qualquer outro lugar, é regido pela regra: "só devemos adorar publicamente a Deus com aqueles elementos de culto que encontramos na Bíblia".
Termino lembrando que neste post estou interessado apenas no uso do episódio da dança de Davi como base para as danças litúrgicas. Há vários outros argumentos usados para defender esta prática, cada vez mais comuns nas igrejas evangélicas (como por exemplo o Salmo 150), que não receberam atenção aqui, mas que podem ser alvo de uma futura postagem sobre o assunto.

Autor: Augustus Nicodemus
Fonte: Tempora! Mores!
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Crítica da forma, redação e das fontes, o que é isso?

Embora muito conhecidos por todo mundo os três primeiros livros do Novo Testamento possuem peculiaridades e diferenças entre si. Nos mais variados pontos pode chegar a conclusão de que não se sabe o tanto que é necessário dos evangelhos sinóticos. Os registros possuem grande e ampla variedade e particularidade que um estudo desses se torna essencial para responder algumas perguntas que podem surgir na mente de qualquer leitor. Entre elas pode se estar o motivo dos evangelhos serem escritos, por que tais palavras foram usadas, a estrutura histórica e até mesmo se são dignos de confiança. A critica da forma, critica das fontes e critica da redação pode ajudar quanto a isso.

Os evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) são assim denominados devido a sua semelhança estrutural e seu foco no evangelho de Jesus “na Galiléia, retirada para o norte (tendo por clímax e ponto de transição a confissão de Pedro), ministério na Judéia e Peréia quando Jesus se dirigia para Jerusalém (algo não tão claro em Lucas) e o ministério final em Jerusalém” (D.A Carson, Pg 19). O evangelho de João tem seu foco diferente e possui em sua maioria narrativas que estes evangelistas não registraram. 

A palavra sinótico vem do termo grego (synopsis) e tem como seu significado “ver em conjunto, ou visão semelhante”. Esses três primeiros evangelhos possuem em seu conteúdo discursos (parábolas), exorcismos e milagres muito semelhantes e ao mesmo tempo registros únicos, com ênfases diferentes e estrutura própria em alguns textos. Sobre o que eles tem mais em comum está a língua em que foram escritos, a saber o grego. São narrativas que apresentam Jesus mais ativo do que o evangelho de João. 

Em suma podemos dizer que a compilação desses evangelhos individualmente tiveram três pilares fundamentais, e estes são, fontes oculares e orais (critica da forma), fontes escritas (critica da fonte) e os próprios registros pessoais de cada autor (critica da redação). 

A critica da forma diz a respeito de como os dados orais foram unidos e formaram os evangelhos sinóticos. Surgiu por volta do século 19 e tem com seu objetivo mostrar a invalidade ou a validade dos registros neotestamentários. Alguns estudiosos chegam a afirmar que os registros foram escritos a medida que os problemas na comunidade cristã iam aparecendo, ou seja, o evangelho foi fruto do acaso e de invenções falaciosas. Por mais que os críticos tentem de alguma forma negar a historicidade e autenticidade do evangelho uma analise mais cuidadosa de seus argumentos prova que eles estão errados em sua abordagem interpretativa. Um dos seus argumentos que podem ser facilmente derrubaos é de que a Igreja primitiva modificou e acrescentou detalhes nas narrativas compiladas. A resposta que se pode dar é como esses que estão prestes a morrer por Cristo poderiam deixar que falsos ensinos e narrativas fossem ditas sobre Jesus e sua vida e permanecessem sem fazer nada. A crença na verdade cristã faria com que esses rejeitassem tudo aquilo que não poderia ser crido como fé escrita. A sociedade da época tinha como pano de fundo uma cultura judaica e um apego a verdade. Muitos deles tinham capacidade intelectual de memorizar os fatos e palavras e transmiti-los com fidelidade, assim sendo o argumento de uma modificação nos relatos tornaram-se inválidos e de má fé. Como eles poderiam falar de Jesus sendo salvador dos gentios sendo que nos evangelhos fica claro que seu objetivo era salvar as ovelhas perdidas da casa de Israel. 

A critica da fonte fala a respeito de registros históricos escritos no inicio da construção dos evangelhos sinóticos. Essa parte do estudo mostra e tenta explicar como e por que existem textos semelhantes tanto gramaticalmente, como em sua estrutura literária e ordem histórica. 

Para explicar a critica da forma os estudiosos defendem a idéia da interdependência dos evangelhos. Os autores utilizaram fontes escritas e também se apoiaram nos evangelhos canônicos que já existiam. A estrutura que eles possuem em comum bem como a vasta repetição de textos revela que haviam registros para que eles se apoiassem e que também consultaram e estruturaram seus evangelhos baseados em um evangelho anterior. Para os estudiosos a fonte em que os evangelistas se basearam é tanto ocular como oral.

O que se conclui ao observar a estrutura dos evangelhos é que eles estão em sua maioria baseados em Marcos. O registro narrativo de Marcos é muito semelhante a grande parte de Lucas e Mateus e serve como ponto de referencia e de sequencia histórica para ambos evangelhos. 

Existem teorias que falam sobre duas fontes sem usadas para a compilação, ou de uma fonte que cada autor teve acesso particularmente, bem como de uma fonte que era anterior e serviu como base para os evangelistas. Essas são teorias que pode-se chegar para tentar explicar o relato dos evangelhos. A critica das fontes da sua ênfase em possíveis respostas para a igualdade nos evangelhos, mas afirma que é impossível chegar a uma conclusão exaustiva

Por ultimo a critica da redação criada por Willian Wrede tem seu objetivo focar em como os autores estruturam os evangelhos e por que fizeram daquela forma. De forma clara esse parte da ênfase em como os autores colocaram sua teologia própria, visões e estrutura sobre a vida e obra de Jesus.

Os evangelistas omitiram textos quando comparados a os outros, mas fizeram isso devido a seu foco quando escreveram os evangelhos (seu publico e objetivo os levou a separar relatos que cumprissem seu propósito). Enquanto um da ênfase sobre os rituais judaicos, outro omitiu festas e discursos. A estrutura também pode ver que sofreu modificação, para apresentar Jesus como milagreiro Mateus une vários milagres que ele realizou Lucas da ênfase aos rejeitados da sociedade em quanto Mateus foca na constante ensino de Jesus através de discursos. Podemos ver que Marcos deu ênfase em um texto mais curto e menos detalhado do que os outros escritores. A critica da redação acima de tudo afirma categoricamente que os evangelhos são relatos históricos fidedignos e a peculiaridade de cada autor mostra em si a grande gama de ensino e vida que Jesus mostrou aqui na terra.

A critica da forma, crítica das fontes e a critica da redação foram criadas em si para ajudar a compreender melhor os evangelhos e as possíveis dificuldades que o olhar não atento e não conhecedor desses argumentos pode chegar a acusar os escritos de Mateus, Marcos e Lucas de infidelidade histórica. Um estudo aprofundado revela a beleza daquilo que foi produzido bem como a inteligência de seus autores (inspirados pelo Espírito Santo).

Autor: Wellington Leite da Silva.
Bibliografia:
Introdução ao Novo Testamento; D. A. Carson
Apostila de Introdução ao Novo Testamento; IMPV; Heber Negrão
Paranorama do Novo Testamento; Robert. H. Gundry
Pela Juba do Leão Ap 5.5
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