segunda-feira, 20 de março de 2017

Grafias mundanas em mentes eternas: a sutil perversidade pornográfica

O homem tem relativizado princípios e trazido subjetividade a padrões morais e absolutos, invertendo assim, valores essenciais como liberdade, civilidade, estruturação familiar e sexualidade. O homem pós-moderno distanciou de si a moralidade objetiva e desvirtuou aspectos de sua própria natureza, ignorando o fato de que a finalidade última explicitada na criação de qualquer coisa só pode ser afirmada pelo seu criador.

O homem natural rejeitou a Deus como o seu Criador, apesar das manifestações do poder divino (Rm 1.19-20), e trouxe à luz da lógica humana toda a complexidade do universo, do corpo humano e da própria sociedade, de tal forma que Deus passou a ser apenas um preenchimento para as lacunas inexplicáveis, e a aleatoriedade do caos foi erguida como a origem do homem e de todo o universo, e assim a rejeição do teocentrismo não ocultou Deus somente da criação das leis físicas, mas dos padrões morais da humanidade.

Deus criou o homem como ser relacional. Ele o criou para necessitar de um relacionamento íntimo com Ele (Gn 1. 26-27, 2.7), de um relacionamento de cuidado com a natureza (Gn 1.28-30, 2.15) e de amor com seus semelhantes (2.18, 22-24). O próprio Deus também criou o homem como um ser dotado de volições e desejos, portanto, o desejo sexual é um dom de Deus, mas que foi deturpado pelo pecado, cuja existência desvirtuou os corações e os papéis dos cônjuges (Gn 3.7, 16) desde o primeiro casal.

Assim, até o padrão de conduta moral do homem no sexo encontra-se em Deus, que criou o sexo para promover uma união íntima e profunda entre o casal para a Sua glória, tornou-se mais um substituto de Deus, e passou a ser uma fonte onde o homem pode beber da satisfação plena e gozar da libertação das “correntes” que o teocentrismo bíblico promove. 

Contudo, o ato de suprimir a moral divina que temos em nossos corações como uma lei gravada por Deus (Rm 2.15) e a relativização dos princípios bíblicos não ocorre somente no meio não cristão, mas tem invadido as igrejas e a vida daqueles que, tiveram suas mentes purificadas por Cristo, mas entregam-se deliberadamente ao pecado, como se por eles ainda fossem dominados.

Tais cristãos, se questionados acerca do seu amor para com Deus, o afirmam com veemência, entretanto ignoram a Palavra que diz “se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14.15). Existe uma relação direta e condicional entre o amor e a obediência, mas a teologia barata, que tem mercadejado a fé e subestimado o poder de santificação do Espírito Santo, prega uma relação de amor unilateral de Deus por nós que não requer nenhum ato de santidade.

Contudo, sabemos que o amor do próprio Deus já foi derramado em nossos corações pelo Seu Espírito (Rm 5.5), de tal forma que estamos, por Ele, capacitados para permanecer nele e andar como Jesus andou (I Jo 2.6). Não há sobre nós nenhum domínio do pecado, pois pela cruz de Cristo estamos debaixo da graça (Rm 6.14), mas o pecado tem sido banalizado e vivido como algo inerente a identidade cristã.

Somos convocados a não amar o mundo e a permanecer na vontade de Deus (I Jo 2.15-17), entretanto, a igreja (em uma realidade predominante no meio evangélico) diz que tem amado a Deus, mas mantém seu coração flertando com o pecado, e ao invés de satisfazer Aquele que a resgatou da escravidão do pecado, vive satisfazendo a si mesma, como se pela cruz já não estivéssemos mortos para nós, mas vivos para Deus (Rm 6.11).

Assim, o relativismo dos princípios bíblicos e o descrédito da necessária intimidade com Deus têm afetado a genuinidade da vida cristã, pois tem ofuscado a ira de Deus contra o pecado e tem insensibilizado os cristãos para as sutis influências do mundo sobre suas mentes, que foram renovadas para viverem com os olhos na eternidade. A habituação ao pecado despreza o nosso resgate de suas mãos, e nos faz colocar novamente as correntes que já foram quebradas por Cristo. 

E a imoralidade sexual tem sido uma das correntes que mantém muitos cristãos presos a um relacionamento hipócrita com Deus e com o Corpo de Cristo, pois faz com que se aprofundem em abismos profundos e obscuros que são construídos em suas casas, quartos, computadores, celulares, mentes e corações, de uma maneira muito ínfima e sutil através de literaturas, filmes e seriados que explicitam o sexo de maneira vulgar e totalmente contrária ao propósito divino.

A pornografia é, portanto, o desenho dessa corrente de imoralidade. Augustus Nicodemos explica que “a palavra pornografia vem do grego e significa literalmente ‘escrever sobre prostituta’”, e os registros pornográficos têm origem em templos pagãos, onde os desenhos dos órgãos genitais nas paredes tinham o propósito de estimular os rituais de prostituição. Com o tempo, ela foi adentrado as canções e poemas e com o avanço midiático, alcançou um público maior através da instantaneidade e acessibilidade gratuita da internet.

A Ação de Rua e Cultura Alternativa (ARCA) também publicou via The smoking jacket que a média de visitantes masculinos em sites pornográficos é de 72% e a de mulheres, 28%, e que apesar dos homens terem seis vezes mais chance de ver pornografia que as mulheres, 17% delas disseram lutar contra o vício da pornografia. Cerca de 200.000 americanos foram classificados como “viciados em pornografia” por passarem 11 horas ou mais por semana nesses sites, e o vício em pornografia levou 40% deles a perderem seus cônjuges, 58% a terem perdas financeiras e um terço a perderem seus empregos.

A taxa de infidelidade é aumentada em 300% por causa da pornografia e 56% dos casos de divórcio envolveu uma pessoa viciada em pornografia. Por último, em um grupo de 24 pessoas, 23 eram viciados e compulsivos sexuais, e afirmam: “descobrir a pornografia foi a pior coisa que já aconteceu em minha vida”.

Diante disso, a pornografia não diz respeito a um ato individual de imoralidade, mas degrada o ser humano, transformando-o em um objeto de consumo animal e depravado, humilha a mulher, promove orientação sexual deturpada às crianças, estimula a erotização e o abuso infantil, desconstrói o sexo como um compromisso interpessoal íntimo e amoroso que reflete a complementaridade do Deus trino, deturpa as limitações físicas da sexualidade (homossexualismo e bestialismo, por exemplo), ridiculariza a estruturação familiar, promove vícios e comportamentos antisociais e criminosos, e acima de tudo, atua contra Deus, pois maquiada por um ideal de libertação, ofusca a Cristo, escravizando com obsessão e luxúria seus dependentes.

O termo “dependentes” é, de fato, apropriado, pois a pornografia estimula a liberação de endorfinas (hormônios que produzem prazer no corpo), e devido à chamada “lei do efeito reduzido”, torna-se necessário que o “usuário” consuma sempre mais. John Piper discorre sobre este fator, explicando que os efeitos da pornografia sobre o homem atuam semelhantemente a cocaína e a heroína, por exemplo. Acontece que enquanto a cocaína aumenta o nível de dopamina (neutransmissor cerebral que é liberado para gerar prazer diante de estímulos) e a heroína tem um efeito relaxante, a pornografia permite as duas sensações: tanto o despertar quando o efeito relaxante no orgasmo, e o seu efeito nocivo é permanente, no sentido de que as substâncias podem ser purificadas do corpo, mas os pensamentos estarão sempre guardados.

Dessa forma, a pornografia como vício, exige níveis cada vez mais profundos, e assim o pecado que comumente é associado a um tropeço, torna-se uma rampa onde se desliza suave e confortavelmente a níveis cada vez mais íngremes até um abismo obscuro que oculta um mercado profundamente perverso de tráfico de drogas, tráfico e abuso infantil, estupro e tantos outros crimes, que são financiados e estimulados pela demanda que cresce a cada clique em um vídeo pornográfico, ativados por mãos que foram lavadas no sangue de Cristo, mas que se sujam com uma sutil e repulsiva perversidade mundana, e se omitem não somente da preservação social, mas da preservação dos propósitos originais de Deus para o homem, para o sexo e para a família.

A Consciência Cristã publicou que nos Estados Unidos, 21% dos líderes de jovens e 14% dos pastores entrevistados têm acesso a material pornográfico, e entre esses, 12% dos líderes de jovens e 5% dos pastores são viciados em pornografia, e assim, a igreja vai se permeando e se entranhando com erotismo, degradação e imoralidade sexual, ao invés de progredir em santificação (I Ts 4.1-3).

A questão é que apesar de todo cristão reconhecer tais práticas como desagradáveis a Deus, muitos não reconhecem a suficiência do poderio de Cristo para libertá-los da escravidão de seus pecados sexuais, e a relativização dos princípios bíblicos comentada anteriormente, não apenas banalizou o pecado como também ofuscou a plenitude da obra de Cristo na cruz, suprimindo a verdade de que Seu sangue é o que nos purifica de obras mortas para que possamos servir a Deus (Hb 9.14) e que Sua presença em nós, através do Seu Espírito, nos faz mortos para o pecado (Rm 8.10)

Muitos cristãos usam o capítulo sete da carta de Paulo aos Romanos para testificar de que “não faço o bem que prefiro, mas o mal que quero, esse faço” (Rm 7.19), e fixam seus olhos na angústia da pecaminosidade humana, contentando-se com o grito de “quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24). Entretanto, como podem, pois, ignorar que é Jesus Cristo quem os liberta? É por Ele que a carta continua para o capítulo seguinte, nos relembrando de que agora, pela lei do Espírito, Cristo nos livra da lei, do pecado e da morte, para que pelo Espírito Santo, possamos mortificar os feitos do nosso corpo carnal (Rm 8.1-13).

John Owen, um dos puritanos, nos lembra na obra A mortificação do pecado, que o pecado está presente na nossa vida, e é bíblico que cairemos em tentações, mas que o Espírito e a nova natureza nos são agraciados para que guerreemos contra este pecado, pois ele “desvia o coração da disposição espiritual necessária para a comunhão vigorosa com Deus” (John Owen, 2005 p. 63).

Cabe, portanto, a cada cristão, percepções e atitudes bíblicas em relação às sutilezas da imoralidade sexual que nos rodeiam, pois a cultura que produz todo o tipo de arte a que temos acesso, de um modo geral possui princípios vertiginosos em relação aos fundamentos bíblicos, e por isso temos a responsabilidade de não somente sermos críticos, mas agentes de redenção cultural na produção de literatura, de design, de influência familiar e de estruturação de liderança.

Aos que já se encontram envolvidos com qualquer tipo de pornografia, ou já estão acorrentados por vícios e deturpações sexuais como masturbação, adultério, homossexualismo, prostituição e bestialismo, cabe-lhes, primeiramente, o reconhecimento da superioridade e suficiência da obra de Cristo e da atuação do Espírito Santo que habita nos cristãos, a fim de que compreendam que a guerra de desejos internos só pode ser vencida pelo andar no espírito, e assim jamais satisfarão aos desejos da carne (Gl 5.16-17).

Precisam também reconhecer que irão pecar novamente, pois isso é bíblico (I Jo 1.10), mas que devem permanecer firmes, pois o pecado é descrito na vida daquele que permanece em Cristo em termos como “todavia” (I Jo 2.1) e “porventura” (Gl 5.17), dessa forma, pelo poder pleno do Espírito Santo, a santidade na terra é plenamente possível e crescente ao cristão que se desprende do amor ao mundo e vive pela eternidade.

Em segundo, é muito importante que haja também o reconhecimento da necessidade de acompanhamento de um irmão mais maduro e confiável, para que se crie um sistema de prestação de contas e aconselhamento bíblico, possibilitando o compartilhar dos fardos (Gl 6.1-2). Para isso, Creig Cross e Mike Foster (autores do livro Perguntas sobre sexo que você tem medo de fazer) criaram um site chamado XXXchurch.com onde disponibilizam um aplicativo chamado X3watch, que é gratuito e auxilia na prestação de conta sobre o que se faz online. No aplicativo, registra-se o email do prestador de contas, e ele receberá uma lista de todos os sites de conteúdo questionável que forem acessados.

Sabemos que lutas não são confortáveis, mas lembremos que a guerra para a qual fomos convocados não é superficial, mas uma militância árdua e ativa contra os desejos da carne, para que vivamos em santidade. Por isso, resguardemos nossas mentes e corações na certeza de que “nenhum soldado em serviço se envolve em negócios desta vida, porque o seu objetivo é satisfazer àquele que o arregimentou” (II Tm 2.4), e assim a luta contra a impureza sexual e o abandono definitivo de práticas imorais não será um fim em si mesmo, mas uma evidência da salvação que gera em nós um amor expresso em obediência ao senhorio absoluto de Cristo.

Autor: Sabrina Uchôa


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