domingo, 9 de abril de 2017

SEU corpo, SUAS regras



Paulo exorta os coríntios acerca de sua imoralidade, lembrando-lhes de que “aquele que se une ao Senhor é um em espírito com ele” (I Co 6.17), e que essa união nos destitui do senhorio de nossa própria vida, de tal forma que não mais somos de nós mesmos.

Todavia, temos ouvido frequentemente a frase “meu corpo, minhas regras” para expressar a liberdade que todo indivíduo detém de dominar a si mesmo pelos padrões de moral que ele mesmo construiu. A questão é que a origem desta falsa liberdade provém das correntes nas quais o deus deste século aprisionou o mundo, os fazendo andar “segundo as inclinações da carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos” (Ef 2.3), e muitos dos que destas correntes já foram libertos (“entre os quais todos nós andamos outrora... éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais”, Ef 2.3) vivem como se ainda estivessem mortos nos seus delitos e pecados e não obtido vida juntamente com Cristo pela misericórdia e grande amor de Deus (Ef 2.4-5).

Desta forma, neste mundo cuja moral se relativizou e a libertinagem tomou a forma da liberdade, precisamos renovar nossas mentes no fato de que se fomos unidos a Cristo em sua morte e ressurreição para a libertação do domínio do pecado (“Porque se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos”, Rm 6.5-6), somos SEU corpo, e, portanto, devemos seguir as SUAS regras, a fim de que os feitos do nosso corpo sejam mortificados pelo Espírito (Rm 8.13).

Tal mortificação de nós mesmos nos leva, na verdade, à realidade de quem somos, pois quanto mais nos tornamos semelhantes a Cristo, mais nos aproximamos dos propósitos iniciais de Deus para a existência do ser humano. Por isso, quero, neste artigo, convidar homens e mulheres cristãs a enxergarem o que a Palavra do nosso Criador diz a nosso respeito e não o que ideologias terrenas ou até mesmo o que a nossa velha natureza diz que somos.

Primeiramente, voltemos nossas mentes ao relato da criação, iniciando pelo primeiro capítulo de Gênesis:

· v. 27: “Criou Deus, pois o homem (“adam”, no hebraico, “ser humano”) à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem (“zakar”, no hebraico, “macho, homem”) e mulher (“neqebah”, no hebraico, “fêmea, mulher”) os criou.”

Aqui nós vemos que o ser humano, em seus dois gêneros, foi criado à imagem de Deus, portanto, homem e mulher carregam em si a imagem do Criador e refletem a complementaridade do Deus trino. Refletir a Deus carregava a ideia das estátuas dos imperadores que eram representações daquele que governava.

· v. 28: “E Deus os (“otam”, no hebraico, “eles”) abençoou e lhes (“lahem”, no hebraico “a eles”) disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, e enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.”

A benção e a responsabilidade de cuidar e dominar o mundo foi dada a ambos, portanto, nunca houve inferioridade entre os gêneros.

Depois do primeiro capítulo, que é como um resumo de toda a criação, vemos no segundo capítulo a forma como cada gênero exercerá suas responsabilidades a partir dos propósitos pelos quais Deus os criou:

· v. 15: “Tomou, pois o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar. E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.”

Aqui tem-se a instituição do chamado “mandato cultural”, que diz a respeito do relacionamento do homem com a criação, onde Adão é colocado como o responsável pelo cultivo e cuidado da natureza. Além disso, ele também é aquele a quem foi dada a ordem de não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, sendo dele, portanto, a responsabilidade da liderança e do zelo espiritual sobre a futura família a fim de que obedecessem às ordens de Deus.

· v. 18: “Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea.”

· v. 22: “E a costela que o Senhor Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe.”

Na criação da mulher, vemos que o Senhor Deus a projetou para auxiliar o homem em suas responsabilidades (de cuidado e domínio da criação e de um relacionamento íntimo e obediente a Deus), e Ele mesmo a criou a partir do homem. O próprio nome “mulher” (isha) é no hebraico um jogo de palavras, pois corresponde ao nome do homem (ish), assim, se segue do seu próprio nome, que a mulher tem seu propósito e criação originados em Deus para ser uma auxiliar correspondente e adequada ao homem.

Todavia, todos conhecemos o fim deste relato. E mesmo que a maioria das traduções não explicitem a ideia original de Gn 3.6, vemos no texto hebraico que Adão estava com Eva no momento da tentação, mas se omitiu do zelo que lhe cabia pelas ordens do Senhor, quando sua mulher desejou além do que Deus já lhes havia dado para usufruir e dominar.

Em Gn 2.9, vemos que Deus fez brotar todo tipo de árvore no jardim, e elas eram “agradáveis à vista e boas para alimento”, mas o desejo por uma autonomia de Deus a ponto de serem eles mesmos como deuses para discernir o que é bom e o que é mal, fez a mulher olhar para uma árvore, em Gn 3.6, que também era “boa para se comer, agradável aos olhos”, mas que além disso, era “desejável para dar entendimento”. Dessa forma, o rompimento do ser humano com Deus foi fruto do desejo de fugir do senhorio de Deus como a fonte perfeitamente suficiente para a vida em todos os seus aspectos (física, moral, espiritual).

Todos conhecemos também as consequências deste fato. A mulher agora terá um sofrimento multiplicado no parto, o seu desejo será contra o seu marido (apesar de muitas traduções usarem em Gn 3.16, “o teu desejo será para o teu marido”, o contexto hebraico tem a ideia de que o desejo da mulher será contra seu marido), o marido a governará como autoritário, o relacionamento de trabalho do homem para com a criação será agora penoso, ambos passam a conhecer a mortalidade, são expulsos do jardim e da comunhão perfeita com o Criador, e esta quebra de comunhão afetará a toda a humanidade, cuja existência se aprofundará na busca por uma autonomia de Deus e de seus padrões.

Contudo, também todos nós conhecemos sobre aquele que viria como o descendente da mulher para pisar a cabeça da serpente e para religar a comunhão do homem perdido com o Pai. Todos conhecemos sobre o cordeiro que foi morto para cobrir com vestimentas de peles a Adão e Eva em sua vergonha, mas também conhecemos sobre o Cordeiro cujo sangue lava as vestiduras dos redimidos que herdarão o direito à Árvore da Vida, para uma vida eterna de exaltação e gratidão diante do Deus trino!

E de fato espero que o conheça! Pois é por conhecê-lo intimamente que um cristão vive de acordo com a “regênesis” que experimentou em Cristo e não de acordo com as distorções que o pecado trouxe à imagem de Deus no homem, a tal ponto de relativizar o gênero do próprio corpo e de inverter os papéis do homem e da mulher.

É por conhecer a Deus que uma mulher cristã, seja ela casada ou solteira, não enxergará a submissão e o auxílio como um peso, nem tampouco tentará usurpar a liderança que Deus deu aos homens, mas usufruirá o prazer de viver no propósito pelo qual Ele mesmo a criou. É por conhecer a Deus que o homem também enxergará o trabalho como mandamento de Deus antes da queda e não como um fruto do pecado e é por conhecer a Deus que ele assumirá o seu papel de líder sobre a criação, sobre a mulher e sobre a família com zelo e não com omissão.

É por sabermos que não somos de nós mesmos, que vivemos por Cristo. É por sabermos que não somos autônomos, que o seguimos como Senhor. 

Afinal, SEU corpo, SUAS regras.

“E a vós outros também que, outrora, éreis estranhos e inimigos 

no entendimento pelas vossas obras malignas, 

agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte, 

para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis.”

Cl 1.21-22

Autora: Sabrina Uchôa
Arte: Full of eyes
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...