segunda-feira, 17 de abril de 2017

Quem estava na Cruz?

“Pedro respondeu: ‘Tu és o Cristo’ [...] Então Pedro, chamando-o à parte, começou a repreendê-lo. [...] O Cristo, o Rei de Israel... Desça da cruz, para que o vejamos e creiamos!” Mc 8: 29, 32 ; 15:32

Ao percorrer o corredor da história da igreja a cruz de Cristo foi motivo de diversas discussões E os donos da pergunta, a saber, “Quem estava na cruz”, que provocou controvérsias têm endereço: os gnósticos. No entanto, meu objetivo não é tratar deles, mas meditar no cenário da cruz e enxergar ali judeus, romanos, gregos e questionar: para eles, quem estava na cruz?

O evangelho de Marcos não poupa o desentendimento dos discípulos acerca do propósito de Cristo, no qual “... a morte é o cumprimento da vida. Jesus veio para morrer.” Da mesma forma, ele não economiza nos escárnios dos personagens no relato da crucificação. Diante do ministério público e privado de Jesus, Marcos deixa evidente que “antes da ressurreição ele era o Messias na forma de servo, em uma forma que Sua dignidade como Filho de Deus estava escondida aos olhos dos homens.” 

O primeiro evangelista dilacera a visão de Rei imperial em Jesus, tornando-o um servo sofredor que ao invés de receber uma coroa dourada cintilante, recebeu uma coroa de espinhos pontiagudos. Os discípulos diante de Deus não o reconheceram (Rm 1: 20-23). Como assim? E as palavras de Pedro “Tu és o Cristo” (Mc 8: 29)? Naquela época “o Cristo”, não era considerado divino. Somente César podia ser chamado “filho de Deus”. Jesus assumindo o trono imperial seria a confirmação de que verdadeiramente ele era o “filho de Deus” e ninguém mais sofreria. 

Dessa forma, fica claro porque Pedro chama Jesus e o repreende em particular. O verso 31 deixa claro qual é a mentalidade dos discípulos em ver Jesus Rei, o Messias não pode sofrer. A palavra “repreender” (Mc 8: 32) no grego “é o mesmo verbo usado em outras passagens quando Jesus repreende demônios. Significa que Pedro condena a atitude de Jesus com a linguagem mais forte possível.” Pedro achava que sabia mais do ministério de Cristo do que o próprio Cristo. A atitude errada do discípulo ainda permanece atual, pois quantos de nós achamos que sabemos mais do que Deus, procurando respostas para as nossas aflições, esperanças, sonhos e tantas outras coisas fora das Escrituras?

Fora dos muros de Jerusalém, no Gólgota, está montado o palco para o maior espetáculo público: a crucificação do Rei dos judeus. O evangelista deixa evidente todos os grupos de pessoas na cena e nos mostra a seguinte realidade: ninguém busca a Deus. Inclusive os próprios sacerdotes, juntamente com os escribas (aqueles que deveriam “estar por dentro” do contexto messiânico), pedem um milagre: “Desça da cruz, para que o vejamos e creiamos”. No entanto, eles mentem, pois de acordo com Jo 11: 47 eles reconhecem os milagres de Jesus, mas acreditam que sua fonte é satânica (Mc 3: 22). Sendo assim, na concepção dos sacerdotes e escribas quem estava na cruz em Jesus era belzebu e, portanto, Jesus estava sem poder algum. O pecado cegou o entendimento dos sacerdotes e escribas, pois o milagre que pedem é justamente a vontade do Diabo: tirar Jesus da Cruz. Porque “se Jesus salvasse a si mesmo não poderia salvar a nós. Se Ele descesse da cruz, nós desceríamos ao inferno. Porque Ele não desceu da cruz, nós podemos subir ao céu.”, os mestres da lei não compreenderam isso. É na fragilidade de Jesus que somos salvos. 

Então o Diabo saiu vitorioso enquanto Jesus estava na cruz e na ressurreição Deus dá a cartada final e vence Satanás? Não. Segundo Franklin Ferreira esta ideia é profundamente errada. Na verdade, é na cruz que o diabo é derrotado. Na fraqueza de Deus, todos os nossos inimigos são vencidos. 

O Evangelho nos ensina que a morte foi morta pela morte de Jesus Cristo. E esta é toda a nossa esperança. Não foi pelo nascimento (de Jesus), mas pela sua morte que nós fomos reconciliados com Deus. Na Cruz houve derramamento de sangue para remissão de pecados (Hb 9: 22), na ressurreição houve justificação (Rm 4: 25) para nos relacionarmos com o Pai. 

Segundo os sacerdotes e escribas quem estava na cruz era belzebu, no entanto, este mesmo os cegou usando-os para a sua vontade: tirar Jesus da Cruz. A condição humana não compreende que o “verdadeiro perdão exige sofrimento.” Jesus deixou a intimidade que tinha na eternidade, para que pudéssemos desfrutar dela. E quantos de nós ainda temos atribuído uma obra que é Deus a satanás? Não compreender quem realmente está na cruz, é o mesmo que se igualar aos escarnecedores.


Autor: Thiago Andrade
Edição e Revisão: Thalyta Priswa


Referências:  Herman Bavinck. Teologia Sistemática. SOCEP. 2001.
 Timothy Keller. A Cruz do Rei. 2012.  
 Hernandes Dias Lopes. Marcos: O evangelho dos milagre. Hagnos. 2006. 
 Cl 2: 11-15 
 Franklin Ferreira. O credo dos Apóstolos: as doutrinas centrais da fé cristã. Fiel. 2015. (Cl 2: 11-15) 



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